quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Evil - depois dos sobrenomes



SÉTIMA ARTE - Ondskan

Como deter o "forte" que se diverte de produzir ou destruir nossas noites?

Não culpe o homem por suas fraquezas e, nas situações limites, onde voce pode ser o culpado, culpar seu suposto criador, literal ou metafísico.
Não se fortaleça prevenindo-se das situações limites. Nelas, sejam infames ou heróicas, voce que já saber ler, é capaz de entender que não importa mais nada além de sua atitude. Tardar e jamais falhar tem significado pejorativamente religioso, mas todos, sem excessões, compreendem o que quer dizer se redimir antes da morte.
Voce pode deter o "forte". E pode detê-lo antes que seja tarde, esquecer que não pôde detê-lo antes, e detê-lo agora.
Quem é o forte?
Eu perguntei para voce, quem é o forte?
Eu aceito comparações, pode fazer, mas jamais entre outro e outro, portanto, faça comparações entre voce e outro; pode ser comigo. Vamos lá, vamos ver quem é necessário para a vida. Voce que sabe encontrar muito bem culpados, vamos lá, se compare comigo, porque eu sou culpado e quero uma comparação.
Se voce quiser procurar outro para fazer comparações, alguém capaz de admitir as suas culpas para lhe agradar ou não apanhar mais, fique à vontade, mas é melhor não tentar deter o "fraco" por tanto tempo.

Estava lembrando um comentário Agod no espaço da vida não vale um conto. Um sujeito oculto vestido como indeterminado que consegue extrair poesia de situações insignificantes = adj2g Que não tem valor; réles; ninharia.
Posso e gosto muito de adicionar um pouco de pimenta no prato, deitar a excitação para apreciar o sabor do alimento.
Poesia é sempre bela? Precisa ser assim? A beleza, da poesia, é pimenta "forte" diferente da minha "fraca"?
Se adiciono um pouco de pimenta no meu alimento, o que será que adiciono aos meus estudos? O que há de diferente no meu trabalho? E na minha poesia, mesmo que jamais serei considerado poeta? A poesia é propriedade dos poetas?

A política é propriedade dos políticos? O senador está realmente consciente da sua própria vida, tem a si, tem família e amigos, tem sobrenome e nome a zelar, tem infinitas crias para se alimentar e não morrer de sede. O senador é um ser humano perfeitamente normal, capaz de ser estúpido ou sublime, nas situações limites.

Em 1978 quase fui esfolado por policiais na avenida Paulista, carregava uma faixa com a frase Partido dos Trabalhadores: "insignificante", para a época, e para todos que não se sentiam proprietários da política, por razões diferentes. Quantas razões podemos encontrar para viver?
A faixa foi uma lucubração, minha e do meu amigo Geraldo, entre futebol de rua e azaração de "galinhas"(LF) e meninas pobres ou ricas que não gostavam de estudar.
Não nos sentíamos de fora da política do país. Ele arranjou o material e eu pintei as letras garrafais de vermelho, ficaram inesperadamente perfeitas; até hoje verto lágrimas bem ocultas quando vejo as imagens daquela passeata na TV. Obviamente não aparece a surra que ele levou dos policiais. Não sei porque sinto-me talvez estúpido ao dizer que os homens naquelas fardas esqueceram seu "dever" e bateram no meu amigo com muita excitação, e havia poucas pessoas prestando atenção, dignas daquela cena espantosa, quase todas elas franzinas ou com as aparências padrão de fracassados(?).

O trem da história ignora os ignorados pelo trem da civilização. (Isso não é poesia se for plágio, ou se é minha, quando não sou poeta?)

O que é civilização? Mas antes de derramar lágrimas quando estas ainda existem, o que é um partido político? Ou, que é ser político?

Estamos em uma situação limite? Na política brasileira, e só na política? Se sim, então, desde quando? Voce se encontra em uma situação limite?
Por que voce se comporta como se estivesse sublimando o tempo todo certa estupidez do ser? Quem vai decidir o que é a sua estupidez? Os mesmo que decidirão quando voce é sublime? As pessoas dignas do seu amor? Amor é poesia? Amor é político? O que é amor? Eles sabem a resposta, e só eles? Quem são eles?
Ser estúpido ou sublime, quando e por que se fazem diferentes para eles? Eles se desculpam, apanham, rastejam e morrem, isso porque são sublimes?

Quando voce se olha no espelho ainda encontra aquele olhar confiante, ou já o esqueceu?

§

Naquelas clássicas perguntas De onde eu vim, O que sou e para onde vou, já estão subentendidos o espaço e o tempo, mas poucos levam isso a sério. Basicamente, a maioria aludi à Biologia, ou outros campos inferiores de conhecimento, tais como Teologia, Astrologia, Espiritismo e Niilismo, para negar qualquer referência pessoal subentendida. Isso para mim é uma situação limite. É o mesmo que querer ensinar Construções de Soneto para os soldados do crime nas áreas mais altas do Rio; lá onde eles se reúnem para comemorar raros aniversários em liberdade. Não vai haver escolha, ou voce será sublime, ou terá que pensar, neste caso específico e em outros semelhantes, como produto Norte Americano:

Eu fui xerife deste condado
Quando tinha vinte e cinco anos
Difícil acreditar

Meu avô foi um homem da lei
Meu pai também

Eu e ele fomos xerifes na mesma época
Ele lá em Plano e eu aqui mesmo
Acho que ele sentia muito orgulho disso
Só sei que eu sentia

Alguns dos xerifes da antiga
Nunca andaram armados
ninguém consegue acreditar nisso

Sempre gostei de ouvir histórias
Com o pessoal da antiga
Nunca perdi uma chance de ouvir

É impossível não se comparar
Com o pessoal da antiga
Fico só pensando como agiriam
Hoje em dia

Tem um rapaz que mandei para a cadeira elétrica
Eu prendi e testemunhei contra ele
Ele matou uma garota de 15 anos
Os jornais dizem que foi crime passional
Mas ele disse que não havia paixão nenhuma
Me disse que há muito tempo pensava em matar alguém

Disse que sabia que ia para o inferno
Que chegaria lá em 15 minutos

Eu não sei o que pensar disso
Não sei mesmo

Os crimes de hoje em dia
São difíceis de se entender

Não é que eu tenha medo de combatê-los
Eu sempre soube que para ser um xerife
precisa estar disposto a morrer

Mas eu não quero ser imprudente
E me meter com algo que não entendo

Teria que por minha alma a prêmio

Teria que dizer, tudo bem
Vou fazer parte desse mundo

Onde os fracos não tem vez
(Irmãos Coem)
§
CÍRCULO VICIANTE
Entendam como me sinto
Culpado e estou disposto
Não vou colocar a culpa
Nos Norte Americanos
Se assim fisesse
Juntaria-me a eles
Para culpar a Inglaterra
E a esta para culpar
Os eternos bárbaros
E assim por diante...
E, no fim de tudo
Do que me adiantaria
Saber que nunca deixei
De ser um bárbaro?
(Milhas Cabreiras, poeta Andatrílhos, 8000 aC.)

§

O sublime tem limites, se não ultrapassamos, o resto é história.
Não vamos gozar mesmo, aqui.
E não queremos ser estúpidos.
Quero falar com nosso amigo em comum.
Somos e temos, nós, amigos em comum?
Voce sempre teve Olhos de Serpente e, claro, todos nós; prefiro pensar assim.
E tenho muita paciência para aguardar provas à favor ou contra os meus pensamentos.
Não se preocupe, provas, contra ou à favor, não dizem muita coisa para os outros.

Acredito que no Brasil escondem as situações limites.
Mas não é só a mídia eventual, o presente como somas dos imediatos, que desaparecem de nós como se fossem insignificantes.
Não se vê, apesar de haver muita gente que vê, situações limites no dia-a-dia.

Brian de Palma, neste filme foi muito feliz.
Nos limites sempre encontrou as pérolas verdadeiras, aquelas que morreríamos com prazer.
Aquelas que, se não morrermos, nos darão certeza, e é o que basta, para procurar cada vez mais a redenção para si e para a humanidade, ou desistir de vez.
Nossos iguais norte americanos tem este fato que realmente falta para nós, e assim, quem percebe, ou alude uma situação de preconceito, ou aprende.
Como todo preconceito espelha contra o preconceituoso, prefiro ficar de fora.
Na juventude para conviver tinha que suportar este manto sobre mim.
Era asqueroso, na época.
Tentava se desfazer a qualquer custo, e apenas me debilitava.
Quando resolvi aceitá-lo, descobri a forma de viver livre, cruzar os dedos ou encarar.
Mas ainda não contava comigo. Vivia como se em uma encruzilhada eterna, um crucifixo na mão, na outra uma espada.
Não existe sorte, existe não repetir atitudes apreciadas pelos outros contra ou à favor da sua própria apreciação.
Não existe, jamais haverá cisão entre indivíduo e natureza.

Finalizando o post, a frase do senso comum que eu mais aprecio:
"A Carne maciça não subsiste sem a Carne sutil". Merleau-Ponty.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Recuperando Darwin





Quem conversar com quem se recusa a falar das flores, percebe imediatamente que ele duvida dessa fé cega e faca amolada usada tão somente para podar o jardim.


Eu acredito mesmo que exista a quarta pessoa do indicativo, acredito porque ninguém jamais me falou diretamente.


Não está nas entrelinhas, não está nas metáforas e nem sequer guardado no armário.


Isso é loucura, Mulher?


O senhor Modesto Carone sabe o quanto é difícil domesticar o espantalho fora do guarda roupas.

O espantalho, se vassilarmos, se apossa do ser e, sorrateira/literalmente coloca-o no lugar da sombra.


Então, é aí que toda evolução de nossa espécie vira uma esquina sinistra, assim quem evolui jamais é o ser, e tudo permanece maquiadamente como sempre foi: Ideologicamente "natural"!!!


E a Fernanda Torres escreve e dirige e atua na peça que promete nova abordagem do paraíso artificial. Sinto tesão em dizer isso: ela sabe que ser simplesmente carne e osso é inútil para garantir um paraíso natural, e neste país devemos repetir, repetir, repetir à exaustão, discursos universais da juventude até que as pessoas muito além das mais próximas enxerguem o óbvio: Pensar é naturalmente gostoso!


Depois de assistir, prometo um texto muito muito mais semelhante à realidade. Beijo.


Claro que o pensamento sistemático prevalece, não podia ser ao contrário, jamais.


Outro dia vi um furgão fiat encapado com propaganda da GNT, a chamada principal era as damas do Saia Justa.


Prestei muito mais atenção na foto da Márcia Tiburi.


Amor virtual prega peças, veste o espantalho enquanto dormimos, passeiam, escutamos enormes gargalhadas, acordamos... Naturalmente não era ela, voltamos a dormir com anjos.


E sonhar com um país melhor.


Mais Alice, menos Branca de Neve.


Façam poesia e filosofia para Marias Bonitas, e governem para Lampirônicos do Nordeste.
Mulher com maternidade na alma não precisa ser somente Amélias e Capitus.

Aonde está a Lucélia Santos? E o Marcelo Galvão? Deixem o Lirinha falar! E o Humbertão? Maria Rita Kehl, dá uma força, se a felicidade ficar insegura.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Quem falou de Deus no Brasil?



)For You, Triumvirat(
Me deixem, por amor de um Deus de como anda tudo
porque eu queria ser Belo Belo
queria, e isso não é um crime, crime de olhar as roseiras
de imitar e criar a mais linda rosa de...
Eu sei que eu teria a coragem de todos, de todos
todo
tudo
por que sou assim?
eu teria coragem de criar uma rosa de Hiroshima, e me sinto culpado
eu me sinto culpado de sentir esta culpa, Deus meu Deus
Eu, quase uma estupidêz
quero isso, isso e mais isso
e sinto tanta vontade de querer mais
Eu, quero mais
quero tanto que às vezes componho um verso
para um mulher sem mesmo saber do que é feita
não sei que existem carnes e pelos e peles e os olhos mais lindos
não sei de nada, eu
não sei nada que compõem por si mesma esta mulher
Eu não vou mais querer assim desmedido e cruel ou tão amável, cansei
cansei de verdade, enfim
meu saco está tão cheio, Deus meu Deus
eu quero somente paz e agora aprendi
o que vou fazer com a minha paz
Eu, as guerras em cada canto dos meus momentos
sofrerá
feito um cãozinho ainda jovem abandonado ao nada
nem ainda aprendeu seus pequenos truques de matar
de morder seus irmãozinhos
que saltavam tão bonitos quanto a mais Bela aurora deste mundo
tão vasto, tão infeliz, tão qualquer coisa que se possa sorrir
sorrir não mais para a minha musa, esta mulher que não posso tocar
não, sequer beijar seus sorrisos, até os mais irônicos e sagazes e contidos
)Music for Eletronic Violin And, Frank Zappa&Jean-Luc Ponty(
Eu, estou aqui
não importa quem me deixou ir assim
entrando em voce
Eu sou bem feio mesmo assim voce não me avistou chegando e propor uma situação tão inesperada
pegou a minha mão e saimos andando por trilhas tão complicadas e tão sem placas e sinais de onde voce
nem sequer esperava que existia um mundo assim tão descolorido
descolorido
porém
um a um a dois a tres a quatro a cinco a seis a sete a oito a nove a quanto tempo não mais fico lembrando
porque sou como voce jamais sonhou sequer contou nas escolas de sua infância
Hoje voce dança como há muito tempo não ousava...
)Eletronic Jacuzzi, Ghinzu( (início)
Corre sobre o teclado deste piano insandecido, corre como uma louca para fugir do pianista gigante, o negro
que apareceu certa vez em sua noite e sorrateiramente ocupou aquele escuro antes tão pouco assustador
e os violinos do seu coração gritam melodias anacrônicas para seus neurônios organizados do computador
e os sons do piano tentam assolar aqueles gritos que se tornam então graves e voce mais uma vêz se engravida
de ternura que lhe trouxe até esta web sonora e violenta quando se tem um violoncélo na banda mais visível e
também se compõe uma bateria de formas e cores batendo socando a pele os gestos qualquer sensação, um
relógio daqueles antigos da cabeceira pára para entrar a esquadrilha da tv rádio e letras agrupadas insensatas
tudo se passa pelo palco mais iluminado das ruas palmas seguindo um cortejo de ritmos gostosos e festivos, mas
a orquestra de repente pode se abafar por só um instrumento quando sabe que eu o negro deita a sua solidão...
)Disfarça e chora, Cartola(
- Voce não fala... Nem sorri... O sorriso da fotografia.
- Ctrl+B...
- Voce é mesmo o que pensamos?
- Ctrl+P...
- Impossível... O sorriso da fotografia.
- Ctrl+A...
- Ctrl+Z?
- Ctrl+H.
- Ctrl+D?
- Ctrl+L.
)O que será, Chico Buarque&Milton Nascimento(
Tem um segredo que todo mundo sabe e se coça porque é um segredo e não é de ninguém e, ainda bem, pensam que não é de alguém porque se fosse...

domingo, 16 de agosto de 2009

Quadros da vida - nos olhos



Eu não sei! Eu não sei!

Estas foram as palavras finais, no dia do casamento, há 4 anos atrás; ela se foi, e nunca mais soube notícias. Está respondida a sua pergunta, agora, relaxa. Estou pagando não é para conversar. Minha falta de experiência com as mulheres se deve a esta interrupçao brusca.

Passado alguns minutos ou segundos, não presto atenção em mais nada, contei também sobre como aconteceu. Não vou falar sobre ela, não perguntei sequer seu nome, e o corpo deve estar ainda quente; voce sabe, voce está fazendo papel de polícia aqui.

Eu não sei mentir. Abandonei a prática de embalsamador por isto, quando não importava meu talento, estilo, capacidade e poder de transcender, tornar o real mais real para assim confirmar que podemos ser mais além do meros humanos; ninguém acreditava e ainda me insultavam.

Meu pai morreu quando eu tinha poucos anos. Fiquei somente junto a minha mãe até o dia em que brigamos pela primeira vez, eu queria uma festa de debutante, e ela dizia que eu não era uma menina. Como se eu precisasse que me dissessem sobre a minha realidade. Um homem é homem, a mulher é uma mulher.

Parei de estudar e virei punk, entrava em casa só para me alimentar e usar o guarda roupas. Vagava pelas ruas e dormia dentro de vagões de trem, em construções abandonadas e debaixo dos viadutos. Usei drogas e tive relações sexuais até com a minha cadelinha, Bel.

Consegui ser o único punk sem usar roupas e símbolos. Escrevia poemas e mandava cartas para o jornal Folha de São Paulo; eu só gostava desse jornal porque tinha fama de moderno. De uma forma ou outra estava lutando para ser moderno também - esta vontade, confesso, era a única linha frágil que me prendia a respeitar o chamado "politicamente correto".

Também lia muito, lia tudo, aos poucos me transformei em um mendigo de livros. A princípio todos me ajudavam; eu entrava em restaurantes e pedia um livro emprestado ou dinheiro para comprá-lo, prometia com veemência devolver o livro e uma resenha em especial para cada pessoa, e as pessoas pensando se tratar de uma finíssima ironia. Mas, graças a Deus, não existe ironia que não se acabe.

Em dia radiante, um domingo, fui para casa, no afinco de abandonar a vida sem sentido que levava, encontrei minha mãe com um amante no sofá da sala; jamais esperava ver minha mãe feita uma puta, se exibindo e transando com um desconhecido.

Os dois tentaram me desculpar e eu fingi que estava tudo bem. Eles se vestiram, minha mãe ligou a TV, mas eu não conseguia assistir nada, o cara tentava me fazer perguntas, bancando um tipo de pai. Tentava forjar simpatia, então me ofereci para preparar um suco. Fui até a cozinha e esqueci meu propósito.

Tentando lembrar, percebi que meu pênis estava duro, e não entendi. Fiquei mal, deu ânsia de vomito, a cabeça doía horrivelmente e sentei na cadeira quase desmaiando. De repente o mal estar se dissipou. Fiquei muito feliz e também não entendi. Fiz o suco de amora assoviando Lou Reed. Coloquei três copos com muito gêlo e um pouquinho de cianureto em cada. Ultimamente era o cianureto que tomávamos como opção da barrigudinha.

Levei os sucos na bandeija juntamente com enormes azeitonas pretas. Bebemos e nos entendemos como se fosse uma família tradicional. Conversamos sobre coisas "insignificantes" como tentam ser as pessoas mais singulares do mundo. Rapidamente parti em mais uma viagem estupidamente maravilhosa. Quando voltei, encontrei minha mãe e o cara caídos ao chão; terceira situação que não entendi, no mesmo dia.

Eu lembrava o que fiz, mas acho que fugia o sentido. Joguei o corpo do cara no rio Tiête, depois chamei a polícia. Antes, claro, recolhi tudo que é pequeno e valioso, e todo o dinheiro que guardávamos em sociedade na casa e enterrei entre as raízes do carvalho, nos fundos.

Depois que me vi livre daquele problema, que sentei no sofá para assistir um filme, Táxi Drive - gosto deste filme porque queria ter um pai também para matar - lembrei da minha mãe.

A partir deste instante, uma semana se passou sem que eu pudesse dormir sequer alguns segundos. Foram os piores sete dias da minha vida; pensava em Deus apenas como compaixão pelo seu esforço de criar o mundo.

No sétimo dia precisa acabar com o meu sofrimento, então quis me redimir, assim como Ele, criei um homem bom, e seu limite para jamais querer ser melhor que ninguém, a total e irrestrita extirpação do mal.

Eu precisava recompensar portanto todo o mal já feito. Desenterrei minha mãe e a embalsamei.

Aos poucos fui aprendendo inclusive a lhe devolver também uma vida ainda melhor do que ela jamais poderia conseguir sozinha.

Muito adoentada, a idade avançava, ela preferia ficar na maioria do tempo à janela, de onde pode vigiar meu hotel. Ela implicava com isso. Ela queria que fosse, também, a dona, queria mandar em tudo; falando a verdade, tinha momentos que até pensava em matá-la, mas "jamais um filho, se for um homem bom, deve matar uma mãe, nem em último caso, lembre-se sempre disso, Norman".


E o resto eu já disse, está no filme, que já até fizeram continuação; aqueles miseráveis.

sábado, 15 de agosto de 2009

O homem no vale dos medos



Um poema de meu poeta/mor, que creio exato para lhe mostrar como exemplo de destinatário individual, sem a confusão com o 'indivíduo particular ou pessoal', o mais seguro caminho para o "inquestionável" indivíduo universal. Onde individualismo se diferencia de egoísmo.
Mas antes, vamos prosear um pouquinho.
Concordei com a irõnia desde o princípio porque é a verdade.
Talvez pelos meus 49 anos pude flertar mais uma vez com o medo, sem no entanto me espantar, porque costumo assistir diversas vezes aos grandes filmes, produtos diretos e indiretos da ideologia norte americana.
Tudo aconteceu como se fosse o vale das sombras.
O homem em sua atitude insana para voltar ou transcender às origens: quando não havia nomes, sequer visibilidade.
A irônia não nasceu depois do espanto, como eu disse em comentário aqui, ontem;
ela é sempre uma decisão tomada;
e o cinema se farta deste fenômeno.
Fernando Meirelles construiu uma excelente cópia desta realidade, por saber que esta não pode ser criada em cativeiro, porque não temos tal capacidade.
No seu filme O Ensaio da Cegueira retratou o tema do herói, como um verdadeiro mestre, apontando para as estrêlas, e o verdadeiro aluno enxergando o futuro.
Mas tudo ainda pode estar acontecendo, e não por questão de sorte, costume ou genética, poderemos seguir para além da irônia.
Mormente, sem ela, nos entregamos a uma letargia tão agradável que, se alguém questionar, temos outras mil questões de significados mais alegóricos do que reais, para responder. Como se, filosofica/poeticamente falando, com a morte de Deus, morreu também NOSSOS HERÓIS e, claro, nossos pais e ideais.
Há pensadores que defendem esta "naturalidade" típica de um modelo de civilização.
Tal idealidade de "natureza" humana é o sonho da propaganda e marketing; basta excitar o homem com simulacros dos Mortos.
Há muito espanto quando nos colocamos diante de tais modelos.
Eu também disse isso, que serviu como exemplo, que omiti por irônia, porque a maioria dos leitores não dariam atenção e não, a exemplo tambem, porém desnecessário "ruminar" agora, teriam tempo.
M. Night Shyamalan ilustrou muito bem, no filme A Vila, como a modernidade, ao tentar resolver todos os problemas, questões e desejos do homem, também o transformou em sua própria sombra.
Estamos todos convivendo em um imensurável vale das sombras, e como sombras, se alguém se espantar, tenha certeza absoluta, alí voce poderá encontrar vida.
Infelizmente, não evoluimos "o bastante" para aceitar e compreender o motivo de nossos espantos.
Finalizando este texto/comentário mais elaborado, fica uma pergunta, pelo menos em mim, que não quer se calar, mesmo quando todos nós já sabemos a resposta(?):
Se o homem se tornou sua própria sombra, nós somos sombra de que ou de quem?


§


Eu, etiqueta
Em minha calça está grudado um nome
que não é meu de batismo ou de cartório,
um nome... estranho.
Meu blusão traz lembrete de bebida
que jamais pus na boca, nesta vida.
Em minha camiseta, a marca de cigarro
que não fumo, até hoje não fumei.
Minhas meias falam de produto
que nunca experimentei
mas são comunicados a meus pés.
meu tênis é proclama colorido
de alguma coisa não provada
por este provador de longa idade.
Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro
minha gravata e cinto e escova e pente,
meu copo, minha xícara,
minha toalha de banho e sabonete,
meu isso, meu aquilo,
desde a cabeça ao bico dos sapatos,
são mensagens,
terras falantes,
gritos visuais,
ordens de uso, abuso, reicindência,
costume, hábito, premência,
indispensabilidade,
e fazem de mim homem-anúncio itinerante,
escravo da matéria anunciada.
Estou, estou na moda.
É doce estar na moda, ainda que a moda
seja negar a minha identidade,
trocá-la por mil, açambarcando
todas as marcas registradas,
todos os logotipos do mercado.
Com que inocência demito-me de ser
eu que antes era e me sabia
tão diverso de outros, tão mim-mesmo,
ser pensante, sentinte e solidário
com outros seres diversos e conscientes
de sua humana, invencível condição.
Agora sou anúncio,
ora vulgar, ora bizarro,
em língua nacional ou qualquer língua
( qualquer, principalmente).
E nisto me comprazo, tiro glória
de minha anulação.
Não sou - vê lá - anúncio contratado.
Eu que mimosamente pago
para anunciar, para vender
em bares festas praias pérgulas piscinas,
e bem à vista exibo esta etiqueta
global no corpo que desiste
de ser veste e sadália de uma essência
tão viva, independente,
que moda ou suborno algum a compromete.
Onde terei jogado fora
meu gosto e capacidade de escolher,
minhas idiossincrasias tão pessoais,
tão minhas que no rosto se espelhavam,
e cada gesto, cada olhar,
cada vinco da roupa
resumia uma estética?
Hoje sou costurado, sou tecido,
sou gravado de forma universal,
saio da estamparia, não de casa,
da vitrine me tiram, recolocam,
objeto pulsante mas objeto
que se oferece como signo de outros
objetos estáticos, tarifados.
Por me ostentar assim, tão orgulhoso
de ser não eu, mas artigo industrial,
peço que meu nome retifiquem.
Já não me convém o título de homem,
meu nome novo é coisa.
Eu sou a coisa, coisamente.
Carlos Drummond de Andrade
O corpo. Editora Record, 1984.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

A arte de cuidar das pessoas


CLOSER
Hoje fui disposto a conferir se uma doença, no meu ser, ainda me arruina.
Ela é amiga, na maioria dos momentos de meu olhar, estes são, eu sei, uma concessão para agradar a sociedade.
Geralmente esta barrela ocorre em recepções e corredores, onde a vida precisa seguir por muito tempo; eu sei.
E eu ainda não tenho um nome e os nomes precisam das pessoas.
Eu a amo e não troco este sentimento por um nome.
Não podemos estar plenamente, quando o majorotário comanda e quase caça amor em exposição.
Estou escrevendo de voce, porisso quero brincar de White Rabbit, paquerando alices.
Voce precisa parar de adorar a minha liberdade tão precária.
Quem consegue viver depois de arruinado?
Enquanto as pessoas lutam por uma ou outra cura, estou literalmente brigando contra milhões.
Só para não existir o risco de perder este amor.
Mais ou menos 2 meses atrás, brinquei de ganhá-la logo depois de perdê-la, quase morri.
Espero não ter perdido nada.
Voce é a minha doença mais saborosa.


Delitos contritos
in seven atractive
1
Escrevo sem excluir
excreto sem escusar
2
só a parar certa frescura
e aparar incerta feiura
3
que não soa o que sou
vinho suave poesia sêca
4
que sua na sua pele nua
poesia suave vinho sêco
5
bebida bêbeda bebedourada
bebedouro bebedura beberrado
6
bebelouca bebedisse bebelema
bebefacto bebepacto bebelacto
7
e etílicos eticétras mais tais a mais
saideiras ressacas poema poema poema

LIBRO MUTO

O Homem e o Lobo
Um Homem disse a um Lobo: - Se tu não
fosses tão arrogante e prepotente,
ganharias a vida honestamente
e terias a minha proteção.
- Prefiro a liberdade a ter patrão,
o Lobo retrucou, de resto
se eu fosse bom e me tornasse honesto
me tratarias como a um cão.

A focinheira
- Sabe que sou fiel e afeiçoado,.
dizia o Cão ao Homem, e disposto
a tudo, mesmo a ser sacrificado
cumprindo as suas ordens. Isto posto,
quero falar, agora, com franqueza:
a focinheira põe-me depremido;
por que não dá-la ao Gato, que é fingido,
apático e traidor por natureza.

O Homem responde: - Mas a focinheira
lembra sempre a existência de um patrão
que te protege e, de qualquer maneira,
é quem te ampara e te garante o pão.
- Já que assim é, o dito por não dito!
corrige o Cão, desculpe-me a besteira.
E, desde aí, com ar convicto,
passou a falar bem da focinheira...

(Versos de Trilussa, trad. Paulo Duarte)

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Eram Homens os Pensadores




Eu deveria mesmo ficar zangado com as inúmeras etiquetas que me convém, enquanto me faço um objeto entre outros objetos de claras ou obscuras ansiedades?

Com esta pergunta encerrei a semana passada e iniciei esta.
Procurei uma resposta razoável em diversos espaços, músicas, cinema, livros, revistas, internet e dialogando com pessoas, essas sem qualquer tipo de distinção. Sempre lembrando que, tal multiplicação de rótulos para um mesma 'coisa', é o mesmo que faz a avestruz ao enfiar a cabeça na areia. Mas como não sou predador, vi interesse em saber por que isto vem ocorrendo com bem maior frequência.
Lembro que cheguei muito próximo da resposta, ontem à noite, quando passei na casa do Vilmar, amigo desde muito tempo - ele se assemelha 'visualmente' com o Moser, o amigo do Luciano Fraga.
Vilmar, acreditem, estava a mais de 4 anos sem carteira de identidade. Ontem ele tirou uma segunda via e na forma que a levantou como se fosse um troféu para me mostrar, eu quase pensei que estivesse terminada aquela minha procura.
Troféu? Realmente é muito estranho, "deletei".
Hoje, ao acordar fiz o que sempre faço, ligo este espaço de comunicação; sempre por 1 hora depois do banho e antes de sair para caçar meu sustento.
Após garimpar as melhores notícias do hiper mundo e sorver cuidadosamente o supra sumo de dezenas de blogs, de repente lembrei da minha resposta àquela pergunta do início deste post, n'outra paragem diária e particular.

Faço questão de muito respeito às palavras desta senhora, Marilena de Souza Chauí.

" Ao percorrer algumas das leituras feitas por Merleu-Ponty não nos ocuparemos com os pensadores que o instigaram nem com aqueles que foram por ele criticados.
Também não nos refiriremos àqueles que foram lidos na esteira da discussão de alguns temas determinados -
Marx e o movimento da história como luta de classes e o ocultamento das divisões sociais pela ideologia,
Freud e o estatuto do inconsciente como tempo simultâneo e linguagem,
Saussure e o surgimento da linguistica estrutural apreendendo a língua como sistema de puras diferenças internas,
Mauss e Lévi-Strauss na contribuição para instituir a antropologia social descobrindo o pensamento selvagem e a estrutura do pensamento nascente,
Watson e os behavioristas ou os psicólogos da Gestalttheorie na discussão do comportamento como práxis,
Descartes e o legado da dicotomia coisa-consciência ou a cisão do espaço da metafísica.
Estamos interessados naqueles que o filósofo leu procurando captar o movimento de um pensar que se fazia pensamento.
Hursserl, Bergson, Montagne, Maquiavel, Einstein.
Nestas leituras, o que parece ocupar Merleau-Ponty não é tanto o lado sistemático das obras.
Evidentemente, não nigligencia a lógica interna e a coerência conquistadas por elas.
Porém, seu interesse maior parece estar voltado para os impasses, os paradoxos, as súbitas guinadas do pensamento que, no entanto, estavam preparados pelo caminho percorrido. Interroga esses pensadores em múltiplas direções:
O que suscita uma certa idéia?
Que movimento secreto anima as palavras do pensador?
Que interrogação o move, levando-o mesmo a mudar o curso de seu discurso?
Que inquietações o fazem seguir numa direção e enfrentar becos sem saída?
Se Merlau-Ponty oferece respostas a essas perguntas, é porque deseja saber o que as engendrou, qual o contexto que dava sentido às questões e às soluções, quem era aquele que interrogava e escrevia."

Marilena de Souza Chauí tem vários livros, mas para quem estiver a procurar um sentido da vida, leia Da Realidade Sem Mistérios ao Mistério do Mundo.
Tenho-o desde 1981, da Editora Brasiliense; ocupou o centro de minha cabeceira para jamais sair.
Dividido em 3 partes, voces poderão conhecer três pilares do conhecimento humano: Religião, Vida "comum" e Vida "psicológica".

Portanto, a quem, por vias das dúvidas quiser saber, não fiquei, nem fico ou ficarei zangado.
E a minha resposta razoável?
Eu a encontrei, lembro, muito tempo atrás, quando...

§

Com toda certeza, a maioria das pessoas que ler este post de hoje, não vão saber o motivo, e peço, não sintam culpa alguma. Outras, sabendo apenas o motivo, talvez não entendam de filosofia, e tambem peço que estas não sintam culpa alguma. E, outras também, sabendo só de filosofia, peço que se mordam muito, inclusive o próprio rabo. A estas, especialmente, peço encarecidamente, que não usem tal grande conhecimento da vida para me atacarem levianamente. E àquelas pessoas que não sabem nem do motivo e tampouco filosofia, peço que continuem comigo, para, no mínimo, sentirem-se confortáveis, porque são todas, todas as pessoas, são benvindas.
O que é melhor, tratar a vida, que é séria, na brincadeira, como se tudo fosse festa, para assim ter uma ilusão de felicidade, ou tratar com seriedade tudo, inclusive as brincadeiras, festas e ilusões, brincando, festejando e se iludindo dentro de uma medida justa?
Obviamente, para responder esta derradeira pergunta de hoje, não é preciso ser filósofo, qualquer pessoa pode, com certa facilidade.
Pertinente ao motivo, que tem muito a ver, não somente, é claro, com este espaço de comunicação, internet, recomendo que assistam, ou reassistam, ao filme Closer.
Neste filme contém muita coisa que toda a filosofia (sistemática) jamais vai saber responder sobre o sentido da vida.
Por esta razão, digo que filosofar é saber aprender a cada nova experiência.
Contudo, eu não sou filósofo.
Melhor ainda, sou um ignorante, porém com extrema fome de aprender a pensar, escrever e, enfim, filosofar.

sábado, 8 de agosto de 2009

Old loves Die Hard


Aonde está a minha ilha virgem?

Vejo sinais mínimos nas gaivotas corajosas

que vivem como pombas em praia tomada pelos humanos.


Aonde está o meu continente sustentável?

Recebo notícias raras dos recônditos de universidades

que descobrem novas energias nas bostas das bactérias.


Aonde está o meu prazer inviolável?

Alcanço sua sutileza terminal nas imagens e letras

estupradas pelo cinismo como gesto tão natural.


Aonde está a minha dor existêncial?

Ainda a recordo entre espasmos artificiais

para pagar qualquer tipo de visibilidade ao outro.


Aonde está a minha razão?

Imagino ainda gemendo após apedrejada na praça

para lavar a alma do povo de seus sonhos de luxúria.
§
INTERTEXTOS

ZAYANDE (“The one who gives life”)
Lloyd Schwartz with Rogério Zola Santiago

In Iran there’s a river
that comes down from the mountains
with no desire whatsoever
to throw itself into the sea.

It prefers to go to go to go
nowhere
without explaining
its motives for moving.

It races past us
on its travels,
its departure part
of its own brief arrivals.

Like a rushing train,
that makes a home
of each station it passes:
it moves on; it remains.
Transitive verb of being:
to be
is both the being
and the what’s-going-to-be.
Lovers families children flowers
all will testify:
the river stays in their lives
never intending to stay.

Where it came
from, it knows,
and knows where it
wants to go.

Though it starts high among the snow-caps,
its ocean is the desert,
and what’s waiting for it
are whitecaps of sand,
shoals of hard rock
and bitter earth-apples
covered with the grit
of a bitter underground sea.
To fulfill its destiny,
this river,
saint-like,
has taken its name
from its harshest surroundings—
stripping itself
of the anxieties
other rivers have
as they daydream
of joining the sea,
—giving up everything
to be fried
in the desert’s pure flame.

When others find its path strange,
and go rattling on
about the marvels of the sea,
the river will whisper
to its fishes: Listen—
the desert is my other half.
Who wants be
just another river
dribbling into the sea?
What a dull way for a river
to achieve glory.
The ocean, I know,
would take me in. But my fate
is this:
to live within my own limits;
and to make the desert come alive.
It’s written into my name.

RIO ZAYANDE, O QUE DÁ VIDA
Há no Irã um rio
que descendo das montanhas
não tem desejo algum
de lançar-se no mar.

Prefere ir ir ir
a lugar nenhum
se é que assim se pode
definir seu passar.

É que ao passar
faz do passar
seu passageiro
chegar.

É como um trem que passa
mas em cada estação que chega
chega para ficar.

Assim ele passa
e está sempre lá.
Assim transitivo
ele é
- e ele está.

Amantes
famílias
crianças
flores
podem testemunhar
que esse rio passante
ficou em suas vidas
sem pretender ficar.

Ele sabe
de onde veio
e aonde vai chegar.

Desceu das neves
mas o deserto
é seu mar
esperam-no
ondas de areia
cardumes de pedras
frutos de terra dentro
do agreste mar.

E para que o encontro
com seu destino
seja exemplar
esse rio
como um santo
vem se adaptando
à circunstante aspereza
vem se despindo
das ânsias
de outros rios
que devaneiam com o mar
vem abrindo mão de tudo
para no fogo do deserto
se purificar.

Quando estranham seu trajeto
e lhe contam
das maravilhas do mar
com seus peixes considera:
-Não sabem que o deserto
é meu complementar
não quero ser apenas
um rio a mais
se diluindo no mar
essa é forma banal
de um rio se gloriar.
O mar, eu sei
me aceitaria
mas minha sina
em meu nome inscrita
é essa:
ir vivendo em minhas margens
e o deserto
fecundar.

http://www.affonsoromano.com.br/blog/index.php

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

BOBAS LETRAS


Enfim, mais uma temporada se foi. É tarde para se preocupar com quem não voou.

domingo, 2 de agosto de 2009

Coletivo execrável ou sensacional, jamais!!!



Na maioria do tempo sou normal, existem vários momentos quando quero estar só, que se confundem com outros quando sou obrigado.

As circunstâncias, ou os acontecimentos, que eu, e todos, sem excessão, estamos SEMPRE inseridos, formam tal confusão.

E porque não sabemos se nossas atitudes estão para o bem ou mal, tanto pessoal quanto coletivo, adotamos muitas vezes a indiferença como uma simples defesa contra a ação objetivada.

Tédio, torpor, vassilação, fraqueza espiritual, arrogância, presunção, orgulho, etc., muitos são os nomes deste estado emocional, que aceitamos somente porque não mais conseguimos saber se, nossas atitudes, são por sobrevivência ou por alienação, em uma realidade(vide texto abaixo), que jamais nos dará resposta para a pergunta: vale a pena fazer algo para o mundo?

E, para piorar, quanto mais o tempo passa nessa interrogação "delirante porque inócua" ou nesse suposto aguardo da resposta, a indiferença vai se entranhando no ser, antes tomado em espirito, e à partir de então segue em direção à carne ou à matéria do que somos, para tomá-lo como - afirmação ousada - um contraobjetivo da vida. Causa óbvia de doenças psicossomáticas, ou prédisposição a determinados agentes "predadores" e ou "falta de sorte".

Esta reflexão serve como ponto de partida para se entender porque nem sempre possuir zilhões de valores de compra vai se satisfazer o anseio natural de felicidade.

Quando se pode encontrar facilmente alguem, totalmente desprovido de bens e imagem, com suas dificuldades existenciais melhor resolvidas, ao contrário dos providos "pela sorte" e aparentemente "sensacionais".

A sorte pode tranquilamente ser trocado por "esforço pessoal", e sensacionalidade por "talento natural". Mas se aquela pergunta permanecer...

§

A linguagem, seja trasmitida da forma que seja, sonora ou silenciosa, de ser racional ou não, entendida ou não, ainda é a melhor forma de participação no Nosso Devir.

§

1- Gostaria que a senhora contasse como se aproximou do MST e tornou-se psicanalista de membros do movimento, detalhando como esses atendimentos funcionam hoje. (Quantos pacientes do MST tem no momento e com quem frequencia os atende? Com base na premissa de que o pagamento, por menor que seja, é importante como forma de registrar o investimento do paciente nas sessões de psicanálise, a senhora cobra a sessão, um preço simbólico que seja?)
O MST tem uma escola nacional de formação de lideranças, a Escola Nacional Florestan Fernandes, a 60 km de SPaulo. Em 2005 e 2006 fui algumas vezes lá, dar aulas sobre temas de interesse deles em um curso sobre a compreensão da realidade brasileira organizado pelo professor Paulo Arantes. Nas duas vezes, alguns alunos mostraram curiosidade sobre a psicanálise.
Da segunda vez, ao me perguntarem "como a psicanálise pode ajudar a militância?" eu respondi que a psicanálise não é uma prática militante, mas muitos militantes precisariam fazer análise por motivos particulares; expliquei tb que a neurose interfere sempre na relação dos sujeitos com o laço social, o que vale para a militância tb. Eles me entenderam imediatamente. Quando saí da sala, dois administradores da escola me perguntaram: "quando você pode começar?" . Na semana seguinte estava lá, não para fazer conferência mas para atender pacientes. Me arrumaram um dos quartos do alojamento e os pacientes começaram a chegar - alguns dos trabalhadores fixos da escola, outros de outros Estados, que estavam lá de passagem fazendo cursos.
Desde aquela época, ou seja, há 3 anos e meio, vou quinzenalmente à ENFF e atendo quem estiver lá. Há pacientes fixos, outros que estão de passagem e vêm falar, duas ou três vezes, o que já é suficiente para acionar neles um início de intimidade com o inconsciente que eles aproveitam muito.
Não cobro nada pelas sessões feitas na Escola, mas se algum deles vem a SP, fazer uma sessão extra em meu consultório, cobro 15 reais. Até hoje isso não foi motivo para eles não se responsabilizarem pela análise. Eles sabem que meu trabalho lá não é por caridade nem por amor pessoal a cada um deles - é a "minha militância".
Este é o valor que eles me dão em troca do trabalho. Mas levam suas análises muito a sério, como aliás levam a sério quase todas as escolhas que fizeram.
2- Para alguém que chega de fora e depara com o movimento em ação, nas atividades e eventos coletivos de que a senhora participou, e individualmente, nas pessoas que analisa, o que mais lhe chamou atenção neste universo? É possível comparar questões, dores e valores que predominam entre os pacientes de seu consultório particular, em São Paulo, e os pacientes que atende na Escola Florestán Fernandes?

As formações do inconsciente não variam muito; lá existem neuróticos como em toda parte. Recebi alguns alcoólatras também, pois este é um dos sintomas mais frequentes, sobretudo entre homens, na sociedade brasileira - e nas classes pobres, mais ainda.
O que é muito diverso da minha clínica em SP são as histórias de vida, evidentemente. 100% dos analisandos do MST têm origem pobre, a maioria do meio rural; alguns, os mais jovens sobretudo, já vieram das periferias das cidades, onde além da pobreza conheceram muita violência. São histórias de vida que implicam em maior sofrimento real, mas os sintomas que se formam a partir da experiência traumática não variam muito.
Trata-se, sempre, de tentar escutar as pistas que indiquem o que está recalcado e fazer com que a pessoa também se escute e questione o que diz, de modo a encontrar pistas que a orientem na via de seu desejo.
O que mais diverge da minha experiência com a clínica em SP é que no MST não percebo, entre as queixas e indagações dos sujeitos, a prevalência do imaginário romântico-sentimental (inclusive no que diz respeito à demanda de amor, na transferência).
Não é no amor que eles buscam indicadores de seu valor para o Outro - é na "luta".
As histórias de sofrimento familiar, ou conjugal, raramente se centram nas demandas de amor não correspondidas, endereçadas ao pai, mãe, esposa/esposo. Não escuto essa queixa de que o pai, ou a mãe, gostava mais do irmão/da irmã/ se me ama/ se não me ama, etc. Não que a questão do valor do sujeito para o Outro não exista, mas curiosamente, ela não passa tanto pelas relações amorosas e familiares, nem pela demanda de amor ao analista.

3- Os movimentos sociais se fundam na noção do coletivo. Esta questão transparece de alguma forma quando um membro do MST está no divã?
Aparece sim, nas queixas frequentes de que o trabalho grupal, muito exigente, deixa pouca margem para os chamados "cuidados de si" - lazer, namoro, leituras, passeios, descanso. Mas não é difícil fazer com que eles percebam que o excesso de dedicação à "causa" coletiva pode ser um meio de escapar das questões singulares de cada um. Claro que estou generalizando, alguns permanecem muito mais aferrados a cumprir "o que o Outro quer de mim" do que outros, etc. Ao longo de algumas análises, emergem muitos conflitos com as normas coletivas da Escola - o sujeito, ao entrar em sintonia com o desejo, torna-se rebelde.
Mas essa rebeldia raramente é da ordem do individualismo, mais frequente nas classes média e alta urbanas.
Eles se rebelam contra a rigidez das normas coletivas, mas não perdem de vista o fato de que estão no movimento por escolha política e têm uma responsabilidade para com ele.

4- A senhora sempre demonstrou uma posição de esquerda, uma postura crítica acerca da sociedade de consumo e seus valores. Como isso se reflete na realização deste projeto junto ao MST e até mesmo em sua atividade como psicanalista?

Posso te dizer que sempre que saio de lá, penso que sou uma privilegiada por ter encontrado o MST e ter sido acolhida por eles como pessoa de confiança.
Também me acho uma pessoa de sorte por ter sido convidada a exercer a psicanálise, sem nenhuma concessão, em meio a este que é hoje o maior movimento social do mundo, com 600 mil militantes e 2 milhões de pessoas afiliadas a ele (incluindo famílias já assentadas, que às vezes não militam mais, mas reconhecem sua filiação ao MST).
Não é preciso fazer concessões para exercer a psicanálise entre eles porque, apesar da origem católica e rural, o movimento é legitimamente progressista - assim como a psicanálise, aliás.

5- Ao passar a frequentar um universo diferente do seu, marcado por bandeiras de luta e o sentido coletivo, em algum momento a senhora temeu a possibilidade de idealizar o movimento ou seus membros? Ou já se sentiu cobrada por membros do MST a agir de forma militante?

Nunca fui cobrada a agir como eles, seja isso o que for; mesmo porque, entre eles as diferenças de modos de agir também são muito grandes.
Sinto-me respeitada, inclusive em meu estilo mais aburguesado de ser: vou de carro, volto para SP depois dos atendimentos porque quero aproveitar o sábado, raramente fico lá para dormir, etc. Agora, não há dúvidas de que, para mim, é fácil idealizar o movimento. Não tanto pelo modo como eles conduzem suas lutas - tenho sérias divergências sobre algumas estratégias e falo sobre elas com pessoas que não são meus pacientes, quando os encontro no almoço, ou nos debates de que ainda participo.
O que eu sinto que idealizo, no MST, é a formação humana que eles conseguem obter.
A maior parte dos militantes veio de meios sociais violentos, com pouca escolarização, pouca noção de dignidade e respeito, tanto do sujeito quanto na relação com o outro.
No movimento, o valor da leitura, do conhecimento, da lealdade e da solidariedade, são imensos. Mesmo na clínica, onde os problemas mais profundos vêm à tona, não deixo de sentir admiração pela maioria de meus pacientes da ENFF.
Para você ter uma idéia, sabe qual é a maior demanda de "ascensão social" entre eles? Não é ganhar mais ou subir para uma posição de poder: é ser incluído entre os que podem estudar mais, entre os que têm direito a frequentar os cursos, etc.
Eles são seríssimos quanto a este aspecto; e quanto à solidariedade também, apesar de todos os defeitos humanos, que são os mesmos que os de todos nós. Mas isto não significa que eu não tenha admiração pelas pessoas que atendo em minha clínica particular, em SP.
Tenho sim, por quase todos eles, pela coragem em enfrentar seus fantasmas, em buscar sua via. Talvez a diferença não se coloque em relação ao valor de cada sujeito, um por um, mas em relação ao "caldo de cultura" em que se vive, lá e cá.

6- Houve um momento de maior condescendência _ mesmo idealização _ dos movimentos sociais no Brasil. Na sua opinião, que imagem esses movimentos têm hoje no país?

Não sei responder.
7- E como a psicanálise compreende os movimentos sociais?

Não sei grande coisa as respeito. Só aponto que existe, entre alguns psicanalistas, um preconceito de que a participação num movimento social seria uma forma de alienação.
Como se a adesão quase religiosa à psicanálise e às instituições psicanalíticas não fosse!!!

8- As questões do feminino e do feminismo figuram entre os temas sobre os quais a senhora já escreveu. Como avalia a posição das mulheres e as relações entre os sexos dentro do MST?

É uma posição muito interessante, a das mulheres. Até agora não encontrei, entre as mulheres que atendo no MST, nenhuma que não seja autenticamente feminista, no sentido mais profundo do termo.
Ou seja: são mulheres bastante livres em suas escolhas sexuais e amorosas - até mesmo as que vieram de movimentos da Igreja, mas que na análise, lutam para superar os entraves da moral católica.
Ao mesmo tempo, são tão decididas e dedicadas quanto os homens.
É interessante a posição das mulheres no movimento: muitas delas, por exemplo, têm cargos mais altos do que seus maridos.
Provavelmente, nos acampamentos, entre pessoas que vieram de outros lugares e acabam de ingressar no MST, deve haver muito machismo; este é o perfil da sociedade brasileira.
O outro detalhe interessante é que as mulheres que atendo lá, nunca submeteram a vida da militância às conveniências do casamento.
Viajam prá lá e prá cá, estudam nos cursos em módulos que o MST oferece em convênios com universidades - 3 meses na faculdade, 3 meses no movimento, durante toda a duração do curso - e os maridos seguram a onda, cuidam das crianças quando elas estão fora, etc.
O amor não é o centro da vida delas, o que é muito difícil de encontrar.
E também não medem seu valor pelo olhar de um homem; nunca ouvi uma moça que não namora dizer que se sente inferior às outras por isso.

9 - A senhora conta em O tempo e o cão: a atualidade das depressões, como um incidente a caminho da Escola Florestán Fernandes alavancou reflexões que culminaram neste livro que traz a depressão como sintoma social. Esse seu trânsito dentro de um movimento social e suas questões contribuiu de alguma forma para essa análise?

Talvez sim, no que diz respeito ao modo de viver o tempo. Por mais tarefas que eles tenham lá, a relação com o tempo numa perspectiva não capitalista é diferente da velocidade maluca que rege a vida de quase todos nós.
A relação que faço entre aceleração da vivência temporal e depressão, certamente tem um pouco a ver com minha experiência no MST.
Obrigada, um abraço, M.Rita.