
Em coma profundo
- Eu nunca mais subi em uma moto, depois do acidente. Era para não ter sobrado nada, nem eu nem a moto, e nem a mina; ainda em coma, já faz mais de dois meses, mas está viva. E Júlia vai acordar, eu sei, porque ela me deve uma resposta, só ela pode, só ela estava lá e viu o que aconteceu. Estávamos a milhão, na rodovia Raposo Tavares, na madrugada, mais ninguém, quando apareceu a luz, de repente, percebi pelo retrovisor, pensei que fosse outra moto, quando emparelhou não era, assustou-nos, quiz diminuir, freiar ou acelerar, a moto não obedecia, então a Júlia se soltou de mim e eu entrei direto na mata.
- E o que era?
- Não vou dizer, antes da confirmação dela, vão pensar que estou maluco, ou escondendo a verdade.
- Mas voce está escondendo a verdade.
- Veja bem, estou escondendo a verdade do que aconteceu, não a verdade suposta pelos pais dela, que convenceu todo mundo, inclusive a televisão.
Conversas paralelas:
- Mas se voce não contar toda a sua história, podemos continuar contando a nossa história. A técnica não apontou nada além do normal, que voce a jogou do garupa a mais de 150km/hora e forjou sua queda no mato.
- O senhor acha que poderia forjar tres costelas quebradas, a crávicula, o calcanhar? Eu tomei 2 litros de sangue, quase perdi esta perna, e ainda corro o risco de perdê-la.
Sussurros:
- É verdade, voce se deu mal, desta vez. Se voce não conseguir convencer o juiz, vai ficar prêso até que a Júlia lhe convença a nos contar a verdade. E isso pode demorar, pode não acontecer, voce sabe, já conversamos semana passada sobre isso.
- Olha, doutor, eu preciso sair daqui. Eu quero voltar ao local do acidente, quero ficar lá, dia e noite, quero esperar aquela aparição. Quero ficar lá até ver aquilo novamente, vou ficar lá, nem que seja o resto da minha vida.
- Fale para o juiz, quem sabe... Diga que voce está disposto a tanto, que vai comprar um terreno á margem da rodovia, contruirá um posto de gasolina, com restaurante e área de lazer, que vai dar emprego para muita gente, que vai morar em uma casa modesta, com piscina, churrasqueira, vários quartos para hospedar os amigos. Conte seus planos para o juiz, quem sabe?
- E eu vou contar mesmo; estou desesperado doutor.
- E a Júlia, se ele perguntar, o que vai dizer?
Conversa impostada:
- Cacete, ainda não tinha pensado.
- Vai dizer que a levará para morar com voce?
- Não, isso jamais. E se ela morre lá, vão pensar que eu a matei. Negativo, se eu disser isso, estarei ferrado.
Sussurros:
- Calma. Talvez ela não acorda até estar tudo pronto, e do jeito que está agora, não recebe alta do hospital. Não existe sequer um caso onde uma pessoa em coma profundo, esperou a morte em casa; não existe equipamentos e é contra a lei. Eu sou advogado, o seu advogado, portanto se acalme, voce só precisa convencer o juiz.
Aos brados:
- Ele é homem, isso me coloca na dianteira. E se ele der uma pequena abertura, ofereço até uma sociedade nesse negócio.
Sem muito esforço pode-se compreender porque o mundo virtual, onde a sinceridade realmente não machuca, é bem mais atraente. Onde é mais fácil manter as relações sociais, quando não há contas emocionais a dividir, porque a verdade e os compromissos com ela são escolhas livres. E a mentira não se faz iluminada, nem aborta sonhos.
Onde a fragmentação do Eu em Outros, em cada identidade, não é sintoma patológico, é quase uma meta a ser conquistada. Por exemplo, que resume toda a diferença na satisfação de viver, via virtual, ser famoso por 15 minutos não é uma dádiva, é somente rotina. E esta, exatamente por isso, é bem menos exasperante, porque ninguem precisa barganhar tudo, às vezes até a própria alma, para merecer tal dádiva duvidável.
Eu sabia que Isabela era apenas mais uma das garotas de programa, quando nua, ainda mantinha seu chaveiro amarrado ao pulso...
Isabela apareceu e me perguntou na chapa:
- Voce é viado?
- Não, sou homem.
- Claro, isso se vê, mas eu quiz dizer, eu quero saber se voce gosta de mulher? Voce transou comigo, diga-se logo que foi muito bom, mas depois, por que aquela pergunta?
- Até hoje só transei com mulheres, talvez isso responda. Por que voce se zangou agora a pouco?
- É que, no momento que me perguntou, parece que voce me via como uma maníaca sexual e eu não sou isso. Sou profissional, tenho dois filhos, preciso...
- Está bem, já entendi, se eu deixar voce continuar, alguém vai acabar chorando.
- Por que voce me perguntou aquilo, naquele momento, e porque aquele olhar tão profundo como se um simples chaveiro me vestisse ainda?
- Voce é diferente das outras. Voce é inteligente, sabe observar, percebi isso enquanto vestia a roupa. Então fiquei curioso, voce amarrou o chaveiro...
- Por que, as outras não tem manias? Todo mundo tem manias, e esta sua curiosidade, vai ver também é uma mania sua, é?
- Talvez. Voce não solta nunca seu chaveiro porque se sente insegura, as chaves de seu carro e de sua casa são como um amuleto da sorte?
- Acho que sim, são para que eu jamais esqueça de meus filhos. Está satisfeito?
- Tudo bem, mas tire o chaveiro do pulso, amarre-o na canela e não fique com mais ninguém até amanhã, combinado?
É possível perceber inúmeros julgamentos sumários morais escamoteados nas relações reais. Uma pergunta se faz urgente, se podemos viver, ou simular perfeitamente uma Realidade inquestionável à priori, por que não fazer disso, não uma simulação para assegurar a liberdade de julgar, mas a Vida mesmo, com plena liberdade porém sem pré julgamentos morais?









