sábado, 8 de agosto de 2009

Old loves Die Hard


Aonde está a minha ilha virgem?

Vejo sinais mínimos nas gaivotas corajosas

que vivem como pombas em praia tomada pelos humanos.


Aonde está o meu continente sustentável?

Recebo notícias raras dos recônditos de universidades

que descobrem novas energias nas bostas das bactérias.


Aonde está o meu prazer inviolável?

Alcanço sua sutileza terminal nas imagens e letras

estupradas pelo cinismo como gesto tão natural.


Aonde está a minha dor existêncial?

Ainda a recordo entre espasmos artificiais

para pagar qualquer tipo de visibilidade ao outro.


Aonde está a minha razão?

Imagino ainda gemendo após apedrejada na praça

para lavar a alma do povo de seus sonhos de luxúria.
§
INTERTEXTOS

ZAYANDE (“The one who gives life”)
Lloyd Schwartz with Rogério Zola Santiago

In Iran there’s a river
that comes down from the mountains
with no desire whatsoever
to throw itself into the sea.

It prefers to go to go to go
nowhere
without explaining
its motives for moving.

It races past us
on its travels,
its departure part
of its own brief arrivals.

Like a rushing train,
that makes a home
of each station it passes:
it moves on; it remains.
Transitive verb of being:
to be
is both the being
and the what’s-going-to-be.
Lovers families children flowers
all will testify:
the river stays in their lives
never intending to stay.

Where it came
from, it knows,
and knows where it
wants to go.

Though it starts high among the snow-caps,
its ocean is the desert,
and what’s waiting for it
are whitecaps of sand,
shoals of hard rock
and bitter earth-apples
covered with the grit
of a bitter underground sea.
To fulfill its destiny,
this river,
saint-like,
has taken its name
from its harshest surroundings—
stripping itself
of the anxieties
other rivers have
as they daydream
of joining the sea,
—giving up everything
to be fried
in the desert’s pure flame.

When others find its path strange,
and go rattling on
about the marvels of the sea,
the river will whisper
to its fishes: Listen—
the desert is my other half.
Who wants be
just another river
dribbling into the sea?
What a dull way for a river
to achieve glory.
The ocean, I know,
would take me in. But my fate
is this:
to live within my own limits;
and to make the desert come alive.
It’s written into my name.

RIO ZAYANDE, O QUE DÁ VIDA
Há no Irã um rio
que descendo das montanhas
não tem desejo algum
de lançar-se no mar.

Prefere ir ir ir
a lugar nenhum
se é que assim se pode
definir seu passar.

É que ao passar
faz do passar
seu passageiro
chegar.

É como um trem que passa
mas em cada estação que chega
chega para ficar.

Assim ele passa
e está sempre lá.
Assim transitivo
ele é
- e ele está.

Amantes
famílias
crianças
flores
podem testemunhar
que esse rio passante
ficou em suas vidas
sem pretender ficar.

Ele sabe
de onde veio
e aonde vai chegar.

Desceu das neves
mas o deserto
é seu mar
esperam-no
ondas de areia
cardumes de pedras
frutos de terra dentro
do agreste mar.

E para que o encontro
com seu destino
seja exemplar
esse rio
como um santo
vem se adaptando
à circunstante aspereza
vem se despindo
das ânsias
de outros rios
que devaneiam com o mar
vem abrindo mão de tudo
para no fogo do deserto
se purificar.

Quando estranham seu trajeto
e lhe contam
das maravilhas do mar
com seus peixes considera:
-Não sabem que o deserto
é meu complementar
não quero ser apenas
um rio a mais
se diluindo no mar
essa é forma banal
de um rio se gloriar.
O mar, eu sei
me aceitaria
mas minha sina
em meu nome inscrita
é essa:
ir vivendo em minhas margens
e o deserto
fecundar.

http://www.affonsoromano.com.br/blog/index.php

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

BOBAS LETRAS


Enfim, mais uma temporada se foi. É tarde para se preocupar com quem não voou.

domingo, 2 de agosto de 2009

Coletivo execrável ou sensacional, jamais!!!



Na maioria do tempo sou normal, existem vários momentos quando quero estar só, que se confundem com outros quando sou obrigado.

As circunstâncias, ou os acontecimentos, que eu, e todos, sem excessão, estamos SEMPRE inseridos, formam tal confusão.

E porque não sabemos se nossas atitudes estão para o bem ou mal, tanto pessoal quanto coletivo, adotamos muitas vezes a indiferença como uma simples defesa contra a ação objetivada.

Tédio, torpor, vassilação, fraqueza espiritual, arrogância, presunção, orgulho, etc., muitos são os nomes deste estado emocional, que aceitamos somente porque não mais conseguimos saber se, nossas atitudes, são por sobrevivência ou por alienação, em uma realidade(vide texto abaixo), que jamais nos dará resposta para a pergunta: vale a pena fazer algo para o mundo?

E, para piorar, quanto mais o tempo passa nessa interrogação "delirante porque inócua" ou nesse suposto aguardo da resposta, a indiferença vai se entranhando no ser, antes tomado em espirito, e à partir de então segue em direção à carne ou à matéria do que somos, para tomá-lo como - afirmação ousada - um contraobjetivo da vida. Causa óbvia de doenças psicossomáticas, ou prédisposição a determinados agentes "predadores" e ou "falta de sorte".

Esta reflexão serve como ponto de partida para se entender porque nem sempre possuir zilhões de valores de compra vai se satisfazer o anseio natural de felicidade.

Quando se pode encontrar facilmente alguem, totalmente desprovido de bens e imagem, com suas dificuldades existenciais melhor resolvidas, ao contrário dos providos "pela sorte" e aparentemente "sensacionais".

A sorte pode tranquilamente ser trocado por "esforço pessoal", e sensacionalidade por "talento natural". Mas se aquela pergunta permanecer...

§

A linguagem, seja trasmitida da forma que seja, sonora ou silenciosa, de ser racional ou não, entendida ou não, ainda é a melhor forma de participação no Nosso Devir.

§

1- Gostaria que a senhora contasse como se aproximou do MST e tornou-se psicanalista de membros do movimento, detalhando como esses atendimentos funcionam hoje. (Quantos pacientes do MST tem no momento e com quem frequencia os atende? Com base na premissa de que o pagamento, por menor que seja, é importante como forma de registrar o investimento do paciente nas sessões de psicanálise, a senhora cobra a sessão, um preço simbólico que seja?)
O MST tem uma escola nacional de formação de lideranças, a Escola Nacional Florestan Fernandes, a 60 km de SPaulo. Em 2005 e 2006 fui algumas vezes lá, dar aulas sobre temas de interesse deles em um curso sobre a compreensão da realidade brasileira organizado pelo professor Paulo Arantes. Nas duas vezes, alguns alunos mostraram curiosidade sobre a psicanálise.
Da segunda vez, ao me perguntarem "como a psicanálise pode ajudar a militância?" eu respondi que a psicanálise não é uma prática militante, mas muitos militantes precisariam fazer análise por motivos particulares; expliquei tb que a neurose interfere sempre na relação dos sujeitos com o laço social, o que vale para a militância tb. Eles me entenderam imediatamente. Quando saí da sala, dois administradores da escola me perguntaram: "quando você pode começar?" . Na semana seguinte estava lá, não para fazer conferência mas para atender pacientes. Me arrumaram um dos quartos do alojamento e os pacientes começaram a chegar - alguns dos trabalhadores fixos da escola, outros de outros Estados, que estavam lá de passagem fazendo cursos.
Desde aquela época, ou seja, há 3 anos e meio, vou quinzenalmente à ENFF e atendo quem estiver lá. Há pacientes fixos, outros que estão de passagem e vêm falar, duas ou três vezes, o que já é suficiente para acionar neles um início de intimidade com o inconsciente que eles aproveitam muito.
Não cobro nada pelas sessões feitas na Escola, mas se algum deles vem a SP, fazer uma sessão extra em meu consultório, cobro 15 reais. Até hoje isso não foi motivo para eles não se responsabilizarem pela análise. Eles sabem que meu trabalho lá não é por caridade nem por amor pessoal a cada um deles - é a "minha militância".
Este é o valor que eles me dão em troca do trabalho. Mas levam suas análises muito a sério, como aliás levam a sério quase todas as escolhas que fizeram.
2- Para alguém que chega de fora e depara com o movimento em ação, nas atividades e eventos coletivos de que a senhora participou, e individualmente, nas pessoas que analisa, o que mais lhe chamou atenção neste universo? É possível comparar questões, dores e valores que predominam entre os pacientes de seu consultório particular, em São Paulo, e os pacientes que atende na Escola Florestán Fernandes?

As formações do inconsciente não variam muito; lá existem neuróticos como em toda parte. Recebi alguns alcoólatras também, pois este é um dos sintomas mais frequentes, sobretudo entre homens, na sociedade brasileira - e nas classes pobres, mais ainda.
O que é muito diverso da minha clínica em SP são as histórias de vida, evidentemente. 100% dos analisandos do MST têm origem pobre, a maioria do meio rural; alguns, os mais jovens sobretudo, já vieram das periferias das cidades, onde além da pobreza conheceram muita violência. São histórias de vida que implicam em maior sofrimento real, mas os sintomas que se formam a partir da experiência traumática não variam muito.
Trata-se, sempre, de tentar escutar as pistas que indiquem o que está recalcado e fazer com que a pessoa também se escute e questione o que diz, de modo a encontrar pistas que a orientem na via de seu desejo.
O que mais diverge da minha experiência com a clínica em SP é que no MST não percebo, entre as queixas e indagações dos sujeitos, a prevalência do imaginário romântico-sentimental (inclusive no que diz respeito à demanda de amor, na transferência).
Não é no amor que eles buscam indicadores de seu valor para o Outro - é na "luta".
As histórias de sofrimento familiar, ou conjugal, raramente se centram nas demandas de amor não correspondidas, endereçadas ao pai, mãe, esposa/esposo. Não escuto essa queixa de que o pai, ou a mãe, gostava mais do irmão/da irmã/ se me ama/ se não me ama, etc. Não que a questão do valor do sujeito para o Outro não exista, mas curiosamente, ela não passa tanto pelas relações amorosas e familiares, nem pela demanda de amor ao analista.

3- Os movimentos sociais se fundam na noção do coletivo. Esta questão transparece de alguma forma quando um membro do MST está no divã?
Aparece sim, nas queixas frequentes de que o trabalho grupal, muito exigente, deixa pouca margem para os chamados "cuidados de si" - lazer, namoro, leituras, passeios, descanso. Mas não é difícil fazer com que eles percebam que o excesso de dedicação à "causa" coletiva pode ser um meio de escapar das questões singulares de cada um. Claro que estou generalizando, alguns permanecem muito mais aferrados a cumprir "o que o Outro quer de mim" do que outros, etc. Ao longo de algumas análises, emergem muitos conflitos com as normas coletivas da Escola - o sujeito, ao entrar em sintonia com o desejo, torna-se rebelde.
Mas essa rebeldia raramente é da ordem do individualismo, mais frequente nas classes média e alta urbanas.
Eles se rebelam contra a rigidez das normas coletivas, mas não perdem de vista o fato de que estão no movimento por escolha política e têm uma responsabilidade para com ele.

4- A senhora sempre demonstrou uma posição de esquerda, uma postura crítica acerca da sociedade de consumo e seus valores. Como isso se reflete na realização deste projeto junto ao MST e até mesmo em sua atividade como psicanalista?

Posso te dizer que sempre que saio de lá, penso que sou uma privilegiada por ter encontrado o MST e ter sido acolhida por eles como pessoa de confiança.
Também me acho uma pessoa de sorte por ter sido convidada a exercer a psicanálise, sem nenhuma concessão, em meio a este que é hoje o maior movimento social do mundo, com 600 mil militantes e 2 milhões de pessoas afiliadas a ele (incluindo famílias já assentadas, que às vezes não militam mais, mas reconhecem sua filiação ao MST).
Não é preciso fazer concessões para exercer a psicanálise entre eles porque, apesar da origem católica e rural, o movimento é legitimamente progressista - assim como a psicanálise, aliás.

5- Ao passar a frequentar um universo diferente do seu, marcado por bandeiras de luta e o sentido coletivo, em algum momento a senhora temeu a possibilidade de idealizar o movimento ou seus membros? Ou já se sentiu cobrada por membros do MST a agir de forma militante?

Nunca fui cobrada a agir como eles, seja isso o que for; mesmo porque, entre eles as diferenças de modos de agir também são muito grandes.
Sinto-me respeitada, inclusive em meu estilo mais aburguesado de ser: vou de carro, volto para SP depois dos atendimentos porque quero aproveitar o sábado, raramente fico lá para dormir, etc. Agora, não há dúvidas de que, para mim, é fácil idealizar o movimento. Não tanto pelo modo como eles conduzem suas lutas - tenho sérias divergências sobre algumas estratégias e falo sobre elas com pessoas que não são meus pacientes, quando os encontro no almoço, ou nos debates de que ainda participo.
O que eu sinto que idealizo, no MST, é a formação humana que eles conseguem obter.
A maior parte dos militantes veio de meios sociais violentos, com pouca escolarização, pouca noção de dignidade e respeito, tanto do sujeito quanto na relação com o outro.
No movimento, o valor da leitura, do conhecimento, da lealdade e da solidariedade, são imensos. Mesmo na clínica, onde os problemas mais profundos vêm à tona, não deixo de sentir admiração pela maioria de meus pacientes da ENFF.
Para você ter uma idéia, sabe qual é a maior demanda de "ascensão social" entre eles? Não é ganhar mais ou subir para uma posição de poder: é ser incluído entre os que podem estudar mais, entre os que têm direito a frequentar os cursos, etc.
Eles são seríssimos quanto a este aspecto; e quanto à solidariedade também, apesar de todos os defeitos humanos, que são os mesmos que os de todos nós. Mas isto não significa que eu não tenha admiração pelas pessoas que atendo em minha clínica particular, em SP.
Tenho sim, por quase todos eles, pela coragem em enfrentar seus fantasmas, em buscar sua via. Talvez a diferença não se coloque em relação ao valor de cada sujeito, um por um, mas em relação ao "caldo de cultura" em que se vive, lá e cá.

6- Houve um momento de maior condescendência _ mesmo idealização _ dos movimentos sociais no Brasil. Na sua opinião, que imagem esses movimentos têm hoje no país?

Não sei responder.
7- E como a psicanálise compreende os movimentos sociais?

Não sei grande coisa as respeito. Só aponto que existe, entre alguns psicanalistas, um preconceito de que a participação num movimento social seria uma forma de alienação.
Como se a adesão quase religiosa à psicanálise e às instituições psicanalíticas não fosse!!!

8- As questões do feminino e do feminismo figuram entre os temas sobre os quais a senhora já escreveu. Como avalia a posição das mulheres e as relações entre os sexos dentro do MST?

É uma posição muito interessante, a das mulheres. Até agora não encontrei, entre as mulheres que atendo no MST, nenhuma que não seja autenticamente feminista, no sentido mais profundo do termo.
Ou seja: são mulheres bastante livres em suas escolhas sexuais e amorosas - até mesmo as que vieram de movimentos da Igreja, mas que na análise, lutam para superar os entraves da moral católica.
Ao mesmo tempo, são tão decididas e dedicadas quanto os homens.
É interessante a posição das mulheres no movimento: muitas delas, por exemplo, têm cargos mais altos do que seus maridos.
Provavelmente, nos acampamentos, entre pessoas que vieram de outros lugares e acabam de ingressar no MST, deve haver muito machismo; este é o perfil da sociedade brasileira.
O outro detalhe interessante é que as mulheres que atendo lá, nunca submeteram a vida da militância às conveniências do casamento.
Viajam prá lá e prá cá, estudam nos cursos em módulos que o MST oferece em convênios com universidades - 3 meses na faculdade, 3 meses no movimento, durante toda a duração do curso - e os maridos seguram a onda, cuidam das crianças quando elas estão fora, etc.
O amor não é o centro da vida delas, o que é muito difícil de encontrar.
E também não medem seu valor pelo olhar de um homem; nunca ouvi uma moça que não namora dizer que se sente inferior às outras por isso.

9 - A senhora conta em O tempo e o cão: a atualidade das depressões, como um incidente a caminho da Escola Florestán Fernandes alavancou reflexões que culminaram neste livro que traz a depressão como sintoma social. Esse seu trânsito dentro de um movimento social e suas questões contribuiu de alguma forma para essa análise?

Talvez sim, no que diz respeito ao modo de viver o tempo. Por mais tarefas que eles tenham lá, a relação com o tempo numa perspectiva não capitalista é diferente da velocidade maluca que rege a vida de quase todos nós.
A relação que faço entre aceleração da vivência temporal e depressão, certamente tem um pouco a ver com minha experiência no MST.
Obrigada, um abraço, M.Rita.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Do infinitivo ser



Estamos, eu e todos os leitores deste blog, e mais ainda quem participa, seja comentando e sofrendo a abertura, às vezes impertinente, aos olhos do devir, que luta para não se tornar Devir/mercadoria, como mais uma marca, entre excessos, quase disperdícios, e, também, luta desesperadamente para não aceitar suas alienações, para se tornar uma esperança, um campo novo, pertinente ao destino de cada um, operante apesar do mundo em via de extinção da civilização, onde poderemos, tão logo, chamar de Nosso Devir.


Zuruck?


Eu também me assusto. O que serei ao sentir o gosto de sua saliva? Ao ver com seu corpo, sem mesmo, ainda, ter aprendido a exercer totalmente a capacidade de enxergar com apenas meus próprios olhos? Estão nossos corpos preparados e quem não consiguirá resistir a estar, jamais prisioneiro, dentro de outro corpo? Quem sabotará tal quiasma, pois esta definitiva liberdade, então sem nome, só existirá como via de salvação, antes da prática e da teoria, como ao olhar o espelho e inexoravelmente ser visto, porém não mais duplicata e sim uma resposta?


Fuck?


Eu tambem temo por qualquer um. Isto basta? Para mim, jamais. Não vou carregar comigo uma certeza ontológica, e o que mais de original no ser humano, sem aplicação na história, feito um fardo que roubaria parte substancial de meu poder. Talvez menos, talvez mais, não importa, voce vai saber o que significa o nosso devir. E o medo é o reflexo de quem me vê e se sente um animal qualquer, sem a capacidade de saber o que faz na experiência, sem a consciência, nem mesmo do seu comprometimento com o sentido da vida.


Luxo?


Eu também passo no tempo. Tanto quanto o tempo passa por mim. Se isto ocorre agora e aqui é mera coincidência que será irrelevante diante de Nosso Devir. Onde não existe planos ou consequências separáveis entre corpo e mente e nada se repete. Onde indentificação ou somente sensação de dor ou prazer definitivamente não farão diferenças, ambas serão tão somente parte do esforço para a salvação do mundo, tornando fato a fato uma sucessão exata deste sentido.

Estamos, eu e todos voces, aqui neste instante da vida... Sem saber o que fazer com o nosso dever diante da vida. Seja bem vindo a consciência, se aceita que existe tal dever, do Nosso Devir. Onde ninguém é capaz de estar dentro ou fora. Nem por ignorância, ou por sabedoria, ninguém é capaz de fazer nada, ou fazer tudo. O Nosso Devir não é um ou outro, nem são todos vistos por um ou um visto por todos. A quem não conseguir suportar serenamente a permanência em si, difinitivamente, do combate para preservar a civilização e o planeta; seja a irredutível verdade de Nosso Devir, que suas forças se ampliarão. E a quem (se) sabotar, sendo a mentira; peço perdão.



QUE SE FAÇAM MINHAS AS PALAVRAS DOS OUTROS
"Um filósofo que formou todo o seu pensamento ligando-se aos temas fundamentais da filosofia das ciências, que seguiu, o mais precisamente possível, a linha do racionalismo ativo, a linha do racionalismo crescente da ciência contemporânea, deve esquecer seu saber, romper com todos os hábitos de pesquisas filosóficas, se quiser estudar os problemas colocados pela imaginação poética.
Aqui, o passado de cultura não conta; o longo esforço para interligar e construir pensamentos, esforço feito em semanas e meses, é ineficaz.
É preciso estar presente, presente à imagem no minuto da imagem: se houver uma filosofia da poesia, essa filosofia deve nascer e renascer no momento em que surgir um verso dominante, na adesão total a uma imagem isolada, no êxtase da novidade da imagem.
A imagem poética é um súbito relevo do psiquismo, relevo mal estudado nas causalidades psicológicas secundárias.
Também não há nada de geral e coordenado que possa servir de base a uma filosofia da poesia.
A noção de princípio, a noção de "base", seria arruinante nesse caso.
Bloquearia a atualidade essencial, a essencial novidade psiquíca do poema.
Enquanto que a reflexão filosófica que se exerce sobre o pensamento científico longamente trabalhado deve fazer que a nova idéia se integre num corpo de idéias já aceitas, mesmo quando esse corpo de idéias seja forçado, pela nova idéia, a uma modificação profunda, como é o caso de todas revoluções da ciência contemporânea, a filosofia da poesia deve reconhecer que o ato poético não tem passado - pelo menos não um passado no decorrer do qual pudéssemos seguir a sua preparação e o seu advento.
Quando no decorrer de nossas observações, tivermos que mencionar a relação de uma imagem poética nova com um arquétipo adormecido no inconsciente, será necessário compreendermos que essa relação não é propriamente causal.
A imagem poética não está submetida a um impulso.
Não é um eco do passado.
É antes o inverso: pela explosão de uma imagem, o passado longínquo ressoa em ecos e não se vê mais em que profundidade esses ecos vão repercutir e cessar.
Por sua novidade, por sua atividade, a imagem poética tem um ser próprio, um dinamismo próprio.
Ela advêm de uma ontologia direta.
É com essa ontologia que desejamos trabalhar."


Introdução, do livro Poética do Espaço, de Gaston Bachelard
Tradução de Antônio da Costa Leal e Lídia do Valle Santos Leal
Editora Abril - 1978

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Pronto para decolar



O mar pode arrebentar na sua praia
na sua pequena costa
na areia
onde agarro-me para não voar
junto ao vento
de sua paixão

Trecho do meu livro em andamento.
Meu pai saiu do seu quarto direto até a cozinha, trancou a porta - a porta da sala era proibida de abrir -, demorou um pouco, apareceu com uma folha de espada de são Jorge e bateu em todos aleatoriamente. Fui o único que não pulou a janela. Fiquei no mesmo lugar do sofá, apanhei muito, sem gritar nem chorar. Meu pai parou de bater e ficou olhando pra mim, estava cansado, mas foi discutir com a minha mãe. Ela veio, triste, e me abraçou. Quando minha mãe voltou aos seus afazeres, ali sozinho vi meu pai sair com uma pequena mala, percebi outra vez naquele dia que eu não estava entendendo nada que vinha acontecendo à minha volta, lembrei que meu presente de empréstimo do ano passado havia sumido da minha cabeça, a consciência, algo a tinha levada embora, ou mais uma vez a escondido, senti uma tristeza jamais prevista por mim, tão grande que não pude resistir, tampei os olhos com as mãos e chorei, chorei muito. Ainda lembro que minha mãe me colocou na cama, acho que quis beijar-me a testa, mas apenas passou a mão em minha cabeça. A tristeza pareceu dor, aumentou muito depois de perceber que minha mãe não me beijou, foi como se a tristeza viesse de dentro de uma ferida na alma. Talvez na fronteira entre estar dormindo ou acordado, pude repensar, então encontrar algo de positivo naquele dia. Talvez estes tipos de coisas que existem só no pensamento nem sequer existam de verdade; consciência, tristeza, dor, ferida da alma...
Gostávamos, antes de dormir, menos o Lito, de ficar conversando com a luz apagada, teve um dia que combinamos de ir nadar em um rio muito longe, fora da cidade e então íamos acordar bem cedo. Era a minha primeira vez que me afastaria para bem longe do lugar em que vivia, então poderia comprovar que existe mais mundo além de até onde meus olhos podiam ver. Claro que já naquela idade desconfiava que outros ou o meu mundo se distanciava também atravez dos meus pensamentos. E não é surpresa, eu não consegui dormir, fiquei imaginando uma série de acontecimentos e paisagens e pessoas diferentes e animais selvagens e perigos reais...
Eu estava pronto, brincando com o Veludo, quando ouvi meus irmãos acordarem. Minha mãe me chamou para tomar café com pãozinho. Lembro que, neste dia, ela fritou ovos e descascou duas laranjas para cada um, inclusive para mim. Ela fez lanches para nós levarmos, havia comprado salsichas; então voltou e melhor a minha admiração por ela.
A primeira experiência de andar muito! Repeti tal exclamação tantas vezes quanto me repeliram por isto. Eu dizia muito mais além, como devemos perceber cada variação de verde, cada perfume que existe naquela floresta, quantos seres se escondem aos nossos olhos que podemos imaginar. Esta parte a mulecada não ouvia ou fingia ou não davam importância ou porque estavam agarrados ao objetivo. A consciência passou a pesar, foi um presente, decididamente não foi um empréstimo, não podia esquecer, não podia descartá-la, não podia escondê-la como se fosse a minha mochila, enfim não podia pedir para que outro a carregasse. Percebi que realmente só podia ser um presente, na minha idade não tinha dinheiro, não podia pedir para meus pais ou ao meus irmãos mais velhos, ninguém confiaria um empréstimo à uma criança, não havia furtado de nenhum lugar, e apesar de não ver quem me presenteou com tão penosa carga; naquele ponto do caminho, estávamos a um kilômetro e meio da vila, escutei o Sílas dizer e apontar o lugar, lascando um tronco de ipê amarelo. Queria depois, até hoje, recordar somente a árvore.
Quando vi aquele pequeno rio de águas corredeiras, várias pedras para se atravessar com extremo cuidado, a consciência reapareceu. Um alegria repentina me fez gritar, acho que quis gritar tão forte que atravessasse aquela floresta e chegasse aos ouvidos de todas as pessoas, como fiquei feliz e muito arrependido de ter pensado em me desfazer da consciência. Não sei se consegui, não importava mais porque imediatamente

POEMA
"Quantas estradas deve um homem caminhar
antes que chamem-o de homem?
Quantos mares deve um veleiro navegar
antes que ele possa dormir na areia?
Quantas vezes devem voar bolas de canhão
antes que sejam eternamente banidas?
A resposta, meu amigo, esta soprando ao vento
a resposta esta soprando ao vento.
Quantos anos deve uma montanha existir
antes que seja desintegrada pelo mar?
Quantos anos devem algumas pessoas existirem
antes que possam permitir-se a liberdade?
Quantas vezes deve um homem girar sua cabeça
e acreditar que ele apenas não pode ver?
A resposta, meu amigo, esta soprando ao vento
a resposta esta soprando ao vento.
Quantas vezes deve um homem olhar para cima
antes que possa ver o céu?
Quantos anos deve um homem ter
antes que possa ouvir alguém chorar?
Quantas mortes levarão até que ele saiba
Que muitas pessoas morrerão?
A resposta, meu amigo, esta soprando ao vento
a resposta esta soprando ao vento."

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Dos mistérios óbvios



Enquanto entendo de aquarelas antes das quimeras

Eu só lhe peço, meu amor
se quiser ficar tranquila
fique tranquila, aqui não tem biruta
eu não me importo com desmanteladas aeronaves
nem a direção dos ventos que vem do Morte

O mundo é indefinido, o planeta é redondo
portanto não é uma superfície infinita e também
deixou de ter seis faces há muito tempo

Veja nossas criança, são lindas, e há (de) quem duvide!

Onde voce vê talento, eu vejo poder
e aonde vêem facilidade, eu estarei
disposto a matar, ou morrer antes delas

E é disso que melhor podíamos conversar...
Sobre as crianças que somos e temos!

E não precisamos de vergonha ou medo
porque, eu não estou brincando de vidinha
a única vergonha ou medo que me arrisco
é não conseguir ser amável para elas

Quando insípdo ou agressivo, que seja
apenas os juros mafiados nas praias alheias
Se ontem apenas disse tudo que merece, foi
os juros da mafiada insipdêz e visível vilania

Porque não amamos os sensacionais, estes
apenas nos contentam por alguns instantes
Amamos sim quem pode estar por nós, onipresente
sem se autopreservar em Deus, Pai, Irmão, Amigo...

Entre nós, não vamos mais confundir idéia e fato...

A idéia de um coração explodindo de amor é bela
mas nunca deu prova, porque amar não quer provar nada
O meu amor por voce, o seu amor por mim, são o mesmo
não quer que façámos tudo pelo outro
ou cada um por si, tampouco contra si ou
sequer remotamente contra outros;
só quer estar... Amor e(m) ser

E(m) paz, para todos, não precisamos glorificar a verdade, jamais
elevá-las a situações rarefeitas, quase sem expressões
adorná-las com mentirinhas benignas do senso comum
e ou nem passar a vida jogando bosta no ventilador...

Então, se não para os "concorrentes", que seja pelas crianças
joguem flores ou seus corações quando explodindo
(rss)(ven)(de)(s)(tila)(dor)
de amor quando se sabem seus
ensinem-nas com suas experiências, se as viveram suas e
sejam feliz.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Sobre manias e virtudes



Em coma profundo

Todos atentos:
- Eu nunca mais subi em uma moto, depois do acidente. Era para não ter sobrado nada, nem eu nem a moto, e nem a mina; ainda em coma, já faz mais de dois meses, mas está viva. E Júlia vai acordar, eu sei, porque ela me deve uma resposta, só ela pode, só ela estava lá e viu o que aconteceu. Estávamos a milhão, na rodovia Raposo Tavares, na madrugada, mais ninguém, quando apareceu a luz, de repente, percebi pelo retrovisor, pensei que fosse outra moto, quando emparelhou não era, assustou-nos, quiz diminuir, freiar ou acelerar, a moto não obedecia, então a Júlia se soltou de mim e eu entrei direto na mata.
- E o que era?
- Não vou dizer, antes da confirmação dela, vão pensar que estou maluco, ou escondendo a verdade.
- Mas voce está escondendo a verdade.
- Veja bem, estou escondendo a verdade do que aconteceu, não a verdade suposta pelos pais dela, que convenceu todo mundo, inclusive a televisão.

Conversas paralelas:
- Mas se voce não contar toda a sua história, podemos continuar contando a nossa história. A técnica não apontou nada além do normal, que voce a jogou do garupa a mais de 150km/hora e forjou sua queda no mato.
- O senhor acha que poderia forjar tres costelas quebradas, a crávicula, o calcanhar? Eu tomei 2 litros de sangue, quase perdi esta perna, e ainda corro o risco de perdê-la.

Sussurros:
- É verdade, voce se deu mal, desta vez. Se voce não conseguir convencer o juiz, vai ficar prêso até que a Júlia lhe convença a nos contar a verdade. E isso pode demorar, pode não acontecer, voce sabe, já conversamos semana passada sobre isso.
- Olha, doutor, eu preciso sair daqui. Eu quero voltar ao local do acidente, quero ficar lá, dia e noite, quero esperar aquela aparição. Quero ficar lá até ver aquilo novamente, vou ficar lá, nem que seja o resto da minha vida.
- Fale para o juiz, quem sabe... Diga que voce está disposto a tanto, que vai comprar um terreno á margem da rodovia, contruirá um posto de gasolina, com restaurante e área de lazer, que vai dar emprego para muita gente, que vai morar em uma casa modesta, com piscina, churrasqueira, vários quartos para hospedar os amigos. Conte seus planos para o juiz, quem sabe?
- E eu vou contar mesmo; estou desesperado doutor.
- E a Júlia, se ele perguntar, o que vai dizer?

Conversa impostada:
- Cacete, ainda não tinha pensado.
- Vai dizer que a levará para morar com voce?
- Não, isso jamais. E se ela morre lá, vão pensar que eu a matei. Negativo, se eu disser isso, estarei ferrado.

Sussurros:
- Calma. Talvez ela não acorda até estar tudo pronto, e do jeito que está agora, não recebe alta do hospital. Não existe sequer um caso onde uma pessoa em coma profundo, esperou a morte em casa; não existe equipamentos e é contra a lei. Eu sou advogado, o seu advogado, portanto se acalme, voce só precisa convencer o juiz.

Aos brados:
- Ele é homem, isso me coloca na dianteira. E se ele der uma pequena abertura, ofereço até uma sociedade nesse negócio.

Esta é uma história verídica. Eu a ouvi ontem, tomando cerveja, ao lado da piscina, comendo churrasco; na única vez que, eles!, conseguiram!, arrastar-me para fora dos livros; a biblioteca do cara era riquíssima em Sociologia, Psicologia e Filosofia. Estávamos em oito homens, e muitas mulheres; segundo o anfitrião, muito bem pagas.

Sem muito esforço pode-se compreender porque o mundo virtual, onde a sinceridade realmente não machuca, é bem mais atraente. Onde é mais fácil manter as relações sociais, quando não há contas emocionais a dividir, porque a verdade e os compromissos com ela são escolhas livres. E a mentira não se faz iluminada, nem aborta sonhos.

Onde a fragmentação do Eu em Outros, em cada identidade, não é sintoma patológico, é quase uma meta a ser conquistada. Por exemplo, que resume toda a diferença na satisfação de viver, via virtual, ser famoso por 15 minutos não é uma dádiva, é somente rotina. E esta, exatamente por isso, é bem menos exasperante, porque ninguem precisa barganhar tudo, às vezes até a própria alma, para merecer tal dádiva duvidável.

Eu sabia que Isabela era apenas mais uma das garotas de programa, quando nua, ainda mantinha seu chaveiro amarrado ao pulso...
Quando perguntei porque se sentia tão insegura, ela me olhou com ódio e aquele olhar foi como me castrar. Voltamos para a sala, para a pequena orgia que se formava. Ela se atracou ao grupo sobre o sofá. Eu fui à cozinha preparar uma bebida com frutas, mastigar qualquer coisa pronta que compramos no caminho.
Isabela apareceu e me perguntou na chapa:
- Voce é viado?
- Não, sou homem.
- Claro, isso se vê, mas eu quiz dizer, eu quero saber se voce gosta de mulher? Voce transou comigo, diga-se logo que foi muito bom, mas depois, por que aquela pergunta?
- Até hoje só transei com mulheres, talvez isso responda. Por que voce se zangou agora a pouco?
- É que, no momento que me perguntou, parece que voce me via como uma maníaca sexual e eu não sou isso. Sou profissional, tenho dois filhos, preciso...
- Está bem, já entendi, se eu deixar voce continuar, alguém vai acabar chorando.
- Por que voce me perguntou aquilo, naquele momento, e porque aquele olhar tão profundo como se um simples chaveiro me vestisse ainda?
- Voce é diferente das outras. Voce é inteligente, sabe observar, percebi isso enquanto vestia a roupa. Então fiquei curioso, voce amarrou o chaveiro...
- Por que, as outras não tem manias? Todo mundo tem manias, e esta sua curiosidade, vai ver também é uma mania sua, é?
- Talvez. Voce não solta nunca seu chaveiro porque se sente insegura, as chaves de seu carro e de sua casa são como um amuleto da sorte?
- Acho que sim, são para que eu jamais esqueça de meus filhos. Está satisfeito?
- Tudo bem, mas tire o chaveiro do pulso, amarre-o na canela e não fique com mais ninguém até amanhã, combinado?

É possível perceber inúmeros julgamentos sumários morais escamoteados nas relações reais. Uma pergunta se faz urgente, se podemos viver, ou simular perfeitamente uma Realidade inquestionável à priori, por que não fazer disso, não uma simulação para assegurar a liberdade de julgar, mas a Vida mesmo, com plena liberdade porém sem pré julgamentos morais?

domingo, 26 de julho de 2009

Para recuperar o atraso(?)


"Sim, quero ver a tua vida em detalhes, minuto a minuto, e ouvir as palavras que jorram de tua boca, rir o teu riso e enraivecer-me com o teu rancor, assistir à tua paquera, ao teu namoro, ao teu gesto de carinho, à tua transa, espelhando tua beleza em minha indigência.
Quero deixar de lado amizades, trabalhos, livros e lazer e, de olhos pregados em tua magia, absorver a tua arte de movimentar-se no labirinto da quimera, livre de dores e afazeres, mergulhado na fama e na fortuna.
Venerarei o teu ócio na vitrine, exibindo-te sem pudor a milhões de olhos, despido por infinitas imaginações, liberto das grades odiosas dessa existência de penúria anônima, escrava da rotina atroz de quem jamais aprendeu a voar, nem foi aquinhoado pela sorte.

Abrirei em meu monitor a porta da tua casa mágica e, sob o peso de minhas carências, ingressarei virtualmente em tua liberdade, no teu gozo, no teu charme, no teu riso, na tua sensualidade, como quem toca com os olhos os veneráveis ícones que nos fazem transcender da mediocridade cotidiana.

Minha fidelidade ao teu exibicionismo será a chancela que sacramentará a tua vida como real e, do lado de cá, buscarei a alforria de minha indigência em tuas loucuras, em teus jogos e em tuas danças.

Quero decifrar em ti a minha própria intimidade, rasgar a minha alma em tuas mãos e deixar a minha mente impregnar-se dessa ilusão que faz de mim teu pequeno irmão.

Recobrirei a minha realidade com a tua fantasia e farei de teu espetáculo o brilho de meus olhos vazados, nessa permuta hipnótica de quem busca a complacência com seus próprios limites para tentar encobrir a mesquinhez que me corrói.

Ficarei atento ao teu banho, ao teu sexo, à tua ira e às tuas refeições, fiel à exposição perene deste teu ser desprovido de preocupações e conteúdos, entregue a esta liberdade que faz de ti o que não sou, e me permite projetar em teu vigor as minhas fraquezas e em teu esplendor o sabor amargo de meu anonimato.

Verei em tua janela, que se abre para a minha casa, a subversão de todos os valores, como se nos cômodos que te abrigam findassem todos os princípios, escorrendo pelo ralo tudo aquilo que num lar soava como sinônimo de família.

Ampliados pela eletrônica, meus olhos contemplarão as tuas intimidades mais ousadas.

Sentirei os teus odores e beberei o teu suor.

Esticarei o meu olhar até os limites proibitivos do escárnio e, quem sabe, verei o teu rancor extirpar toda a inveja que jaz em meu peito e a tua voracidade explodir em taras que haverão de suprir os meus desejos mais ignóbeis e saciar as minhas pulsões mais abjetas.

Deste lado da tela, sentirei os teus sentimentos e comungarei as tuas emoções, vendo-te virar pelo avesso nesse zoológico de luxo, exposto à multidão como carne no açougue, a engordar no balcão do voyeurismo a gorda soma dos teus patrocinadores.

Em ti livrar-me-ei de todo ideal que não seja fazer da vida um jogo de entretenimentos, a sedução epidérmica como sucedâneo de quem não atinge as profundezas do amor, vendo-te representar a ti mesmo sob os aplausos invejosos de meu olhar sequioso, preso ao teu desempenho huit-clos.

Aprisionarei a tua vida em meu olhar, tornar-me-ei teu carcereiro eletrônico, decidindo o teu presente e o teu futuro, absolvendo-te ou condenando-te, juiz supremo que se ignora refém do próprio equívoco.

Inebriado com as tuas loucuras, te elegerei objeto supremo de minha admiração, deixando-me devorar pelo teu sucesso, do qual farei tema de todas as minhas conversas.
À espera de que os corvos venham devorar o meu coração, e agora que a nossa história foi para os quintos dos infernos, quero ser consumido e consumado por ti, arrancando de meus olhos todas as escamas, até que eu possa ver também ao vivo, na busca desenfreada de audiência, o marido espancar a mulher; o filho estuprar a mãe; o pai assassinar a filha; enfim, o horror, pois sei que o show não pode parar e que o seu limite é não ter limites.
31 de janeiro de 2002Reality ShowFrei Betto

SEMPRE É BOM LEMBRAR
3 comentários:
Ca:mila disse...
é um texto muito bonito. claro.
18 de Fevereiro de 2009 14:55
Adriana disse...
belo texto!
18 de Fevereiro de 2009 18:28
Devir disse...
Uhm, que legal, ambas!
Não tenho qualquer informação pessoal, somente as fotos e por preferência, dado ao sinal que isto representa(exceto em casos de simulacro, cópia da cópia), a gestação de uma grande evolução(?) da História.
Enquanto a mídia(?) papagagueia que esta é a era da comunicação, rss.
O que humanos entendemos sobre comunicação?
E como somos chatos se quisermos saber o que acontece, ou quando, e qual pode ser o acontecimento realmente pertinente ao Tempo que vivemos, aqueles passos que serão lembrados, as sementes...
(jamais o Ovo da Serpente, de Bergman, que está tão temido e chocado, simultaneamente)
...que serão a única razão de futuras sementes!
Escuto um barulho diariamente: "blá blá blá. Que tolice!" Haja paciência.
A casa é sua, Adriana, em foto mais poderosa, e sua, Ca:, em foto que resume minhas inquietações pertinentes a este comentário.
Aqueles abraços.
19 de Fevereiro de 2009 15:52

Misericórdia, pedir ou oferecer?


Respondo por mim: ambos, a todo instante, em todo lugar e para todo ser humano.


"Mas eis que me deixo levar a falar disso, do livre-arbítrio, que eu queria deixar de lado.
Digamos antes o seguinte.
Pode ser que haja duas maneiras de perdoar, conforme acreditemos ou não no livre-arbítrio do culpado: pura graça, como diria Jankélévitch, se o acreditarmos, ou conhecimento verdadeiro, como diria Spinoza, se não o acreditarmos.
Mas as duas coincidem no fato – que é a própria misericórdia – de que o ódio desaparece e de que a falta, sem ser esquecida nem justificada, é aceita pelo que é: um horror a combater, uma infelicidade a lamentar, uma realidade a suportar, um homem, enfim, a amar – se pudermos.
Os que leram meus livros precedentes sabem que, pessoalmente, nunca pude acreditar no livre-arbítrio, mas não cabe aqui eu me explicar.
Que me baste evocar a grande idéia de Spinoza, com a qual cada um fará o que quiser: os homens se detestam tanto mais quando se imaginam livres, e tanto menos quando se sabem necessários ou determinados.
É com isso que a razão se aplaca, com isso que o conhecimento é misericordioso.
“Julgar”, dizia Malraux, “é evidentemente não compreender, pois, se compreendêssemos, já não poderíamos julgar.”
Digamos antes que não poderíamos mais odiar, e é tudo o que a misericórdia pede – ou antes, tudo o que ela propõe.
É esse o sentido de uma das mais famosas fórmulas de Spinoza: “Não zombar, não chorar, não detestar, mas compreender.”
É a própria misericórdia, sem outra graça, aqui, senão a da verdade.

Ainda é um perdão?
Não exatamente, pois quando se compreende já não há verdadeiramente o que perdoar (o conhecimento, como o amor, torna o perdão a um só tempo necessário e supérfluo).
Desculpa? Não vou discutir por causa de palavras.
Tudo se desculpa, se quiserem, pois tudo tem suas causas.
Mas não basta sabê-lo: o perdão realiza essa idéia, que sem ele não passaria de uma abstração.
Não queremos mal à chuva que cai ou ao raio que fulmina, dizia eu, e por conseguinte nada temos a lhes perdoar.
O mesmo não vale para o mau, finalmente, e não é esse o verdadeiro milagre – que não é milagre – da misericórdia?
Que o perdão se abole no mesmo instante em que se dá?
Que o ódio se dissolve na verdade?
O homem não é um império num império: tudo é real, tudo é verdadeiro, o mal como o bem, e é por isso que não há nem bem nem mal fora do amor ou do ódio que introduzimos.
É nisso que a misericórdia de Deus, como diria Spinoza, é verdadeiramente infinita, porque ela é a própria verdade, que não julga.
Nessas regiões de que se aproximam os sábios, os místicos e os santos, ninguém pode habitar em permanência.

Mas a misericórdia tende a elas; mas a misericórdia leva a elas.
É o ponto de vista de Deus, se quisermos, no coração do homem: grande paz da verdade, grande doçura do amor e do perdão!
Mas o amor prevalece sobre o perdão, ou o perdão arrebata a si mesmo nesse dom do amor.
Perdoar é cessar de odiar, é portanto cessar também de poder perdoar: quando o perdão é consumado, quando é completo, quando não há nada mais além da verdade e do amor, não há mais ódio a fazer cessar, e o perdão se abole na misericórdia.
Por isso eu dizia no início que a misericórdia era menos a virtude do perdão do que sua verdade: ela o realiza, mas suprimindo seu objeto (não a falta: o ódio); ela o consuma, mas abolindo-o.
O sábio spinozista, em certo sentido, nada tem a perdoar: não porque não pode ser vítima de injustiça ou de agressão, mas porque nunca é conduzido pelo pensamento do mal nem enganado pela ilusão do livre-arbítrio.

Sua sabedoria nem por isso é menos misericordiosa, e é até mais: pois o ódio desaparece de todo, levando consigo toda e qualquer idéia de culpa absoluta (que seria responsabilidade não pelo ato, mas pelo ser), pois o próprio amor torna a ser possível.
É por isso que, em outro sentido, ele perdoa tudo.
Todos inocentes?
Todos amáveis?
Não, é claro, pela mesma razão!

Embora as obras das pessoas de bem e as dos maus façam igualmente parte da natureza e decorram de suas leis, explica Spinoza, nem por isso elas deixam de diferir “umas das outras, não apenas em grau, mas por sua essência: de fato, embora tanto um rato quanto um anjo, tanto a tristeza quanto a alegria dependam de Deus (isto é, da natureza), um rato não pode ser uma espécie de anjo, nem a tristeza uma espécie de alegria”.

A misericórdia não acarreta nem a abolição da falta, que permanece, nem as diferenças de valor, que ela supõe e manifesta, nem, é preciso lembrar, as necessidades do combate.


Mas suprimindo o ódio, ela dispensa que lhe busquemos justificativas.

Aplacando a cólera e o desejo de vingança, ela permite a justiça e, se necessário, o castigo sereno.

Enfim ela torna concebível que os maus, fazendo parte do real, também sejam oferecidos a nosso conhecimento, à nossa compreensão e – pelo menos é esse o horizonte que a misericórdia deixa entrever – a nosso amor.

Nem tudo se equivale, claro, mas tudo é verdadeiro, e o canalha tanto quanto o homem de bem.

Misericórdia para todos, paz para todos – e no próprio combate!"


FRAGMENTO DE TEXTO DO LIVRO:
Pequeno Tratado das Grandes Virtudes
De André Comte-Sponville
Ed. Martins Fontes, São Paulo, 1999
Tradução de Eduardo Brandão

sábado, 25 de julho de 2009

Orelhas de burro


No post anterior encontrei nomes melhores, com aparências de difinitivos para tentar entender, sensações semelhantes e divergentes, e absolutas, como Bem e Mal, Força e Fraqueza, Belo e Feio, Amor e Ódio, Claro e Escuro, Objeto e Sombra, etc., etc., etc., em um Descer e Subir AD FINITUM; talvez tudo leve a crer que descobri a América. E tenho consciência desta tolice, ao contrário da Maioria e da Minoria, que descobrem quase todo dia, a mesma ad finitum.

Neste post, queria encontrar nomes melhores para Simetria e Dissemetria, queria nomes, já que não se pode mais, as cavernas ficaram para o passado, nomes mais livres e em expansão permanente, nomes apropriados para simultaneamente agradar rios, esta tão cara imagem emprestada aos filósofos antigos, águas que ignoram qualidade, águas inocentes, e morrendo.

Queria, porque estou ficando repetitivo; não existe um meio humano em que se possa viver sem às vezes pensar que os dias se repetem, que o sol 'ainda' é o mesmo, que nasce(!) no leste...

Outra; é óbvio que é muito chato, saber de correlações entre nomes, entre nomes e números, entre nomes e sensações, nomes e imaginação, nomes e existências, etc., etc., etc.

Mais outra; a quem mais interessa o saber se não ao utilitarismo? Por exemplo, este nome horrível, se correlaciona com Militarismo, mas não apenas no som de terror; incapaz de divertir uma criança.

Por essas, e por outras, que afirmo meu propósito, repetido à exaustão, até que me entendam:

Nessa porra, pelo menos, podemos escolher as palavras, podemos deixar de ser tão submisso aos costumes e intintos dissimulados, que se fazem passar por naturais!!!

SÉTIMA ARTE
A Sociedade dos Poetas Mortos - Pude vislumbrar o 2 a questionar a linguagem digital.

LITERATURA
Como surgiu o livro O homem e sua sombra?
Um dia, de repente, veio uma frase estranha na cabeça: "era um homem com sombra de cachorro, que sonhava ter sombra de cavalo". Fui anotando aquilo com curiosidade, sem saber no que ia dar. Quando fechei o processo, me dei conta de que esse é um tema que existe no folclore do mundo inteiro, e que nem a psicanálise esgota. Pois trata da duplicidade, da ambiguidade que circula na cabeça das pessoas, sobretudo na sociedade esquizofrênica em que vivemos.

Esteticamente, o senhor se considera vinculado a alguma tendência ou escola?
Ao longo da vida, participei de vários movimentos sem ter assinado nenhum manifesto ou cartilha, mas sim, dialogando e criticando, pois essas organizações acabam tendo um cunho religioso. Seria muito fácil se eu entrasse em um partido político, em um grupinho literário, se pertencesse a uma tribo. Isso tem um preço muito caro. Você entra para um partido e acaba virando sacerdote. Entra para um movimento estético e termina messiânico. Sempre fuimuito vacinado contra isso. E hoje continuo nessa batalha, fazendo a crítica de uma certa arte que se chama contemporânea. Sou contemporâneo, por isso critico o meu tempo.

A arte que o senhor critica seria uma fuga do aqui-agora?
A coisa é complexa. Contemporâneo é uma palavra ardilosa, imprópria, que é utilizada de forma equivocada e maquiavélica. Como quem diz: "eu estou salvo e você está condenado. Eu estou do lado do futuro e você, do passado. Eu sei fazer arte e você não sabe". Um dos equivocos está no adjetivo: a arte contemporânea está tão preocupada em ser contemporânea que esquece de ser arte.
http://quadro-magico.blogspot.com/2009/05/entrevista-affonso-romano-de-santanna.html

FRASE DOS OUTROS
"Talvez tenha sido esse o momento mais difícil da humanidade frente aos seus excrementos, o clímax entre o Homem e sua sombra animal.
Tivemos que trazer a bosta para dentro de nosso próprio lar.

Para que isso fosse possível, bastava que jamais assumíssemos o verdadeiro fim do aposento que covardemente, eufemisticamente, chamamos de banheiro.

Sim, meus caros, para não dar nas vistas, inventamos o chuveiro, a banheira, a higiene bucal, o secador de cabelo, o rímel, o blush e o batom, a acne e os tratamentos antiacne e todas as outras coisas para se fazer ali.

Além disso, criou-se um arsenal para se disfarçar o cocô: sprays com odor de rosas, sachês que deixam a água da privada azul, verde ou rosa, exaustores, bidês e papeis higiênicos perfumados.

Ali, naquele ambiente cientificamente controlado, podemos aliviar as nossas necessidades com o máximo distanciamento possível.

Após dar a descarga, nosso cocô é mandado para esgotos submersos, que desembocam em rios que vão dar lá longe no oceano.

Sanamos o problema por enquanto, mas é só uma questão de tempo.

Todo esse cocô está se unindo, formando o maior movimento underground do mundo.

Nossas cidades, nossos países estão boiando sobre rios de merda.

Fala-se muito no fim do petróleo e no fim da água, mas não será assim que nós morreremos. Numa incerta manhã um cidadão dará a descarga e, como na piada, ouvirá o estrondo: o subsolo, entupido, explodirá.

A verdade, reprimida por séculos e séculos, emergirá.

Só nesse dia todos perceberão o tamanho da cagada em que nos metemos desde o dia em que resolvemos sair da floresta.

E não haverá sachê nem bom ar que dê jeito.
Como se sabe, só as baratas sobreviverão.
Leia mais: http://www.releituras.com/antonioprata_privada.asp

§

Inseparabilidade radical de teoria e prática
"Trago os exemplos acima para mostrar o entrelaçamento dos três elementos inseparáveis da proposta de investigação - o discurso da mídia, o depoimento de um grupo em situação de recepção e o tratamento de questões relativas aos "murmúrios" e perigos de nosso tempo.
Como escrevi em outro texto, trata-se de assumir, sempre, a radical inseparabilidade entre teoria e prática, entre o conceitual e o empírico.
Penso, a partir de Foucault, que os discursos e todas as normas e regras institucionais - nos mais diferentes campos de poder e saber - são sempre e por definição "práticos"; sendo assim, o trabalho investigativo, a própria tarefa da filosofia, a responsabilidade do pensamento crítico é justamente "analisar as práticas em que aquelas normas realmente figuram e que determinam espécies particulares de experiência".
Dessa forma, assumir a posição de quem apenas descreve, mostra ou aponta um modo de existência "x", um acontecimento "y" - como muitas vezes fazemos questão de afirmar, com tanta cautela, em nossos projetos -, a meu ver, não nos exime per se do compromisso nem da crítica.
Obviamente, o modo pelo qual entendemos tanto o compromisso como a crítica precisa ser bem explicitado.
Se não estamos usando o ponto de partida da hipótese repressiva
6 - de que as coisas sucedem do jeito que sucedem porque alguém ou algo não nos permite fazer determinado gesto ou ato, porque algo nos tolhe e reprime, e assim o único modo de enfrentar a ordem repressiva é negá-la, destruí-la, tomar posse dela -, então é preciso tornar claro para nós mesmos que não se trata de denunciar a alienação e a mistificação, nem de, como nos ensina em grande parte a teoria crítica, teorizar apontando sempre para uma intencionalidade prática.
Mas, então, de que se trata quando defendemos que a teoria não se desvincula da prática?"