quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Da suavidade espontânea


Da grosseria espontânea
Mantendo a minha curta e tensa grosseria
de escrever errado e pouco por linhas certas
pisando em ovos depois do fio da naválha
evoluindo, rss, deixo aqui para pensar e agir
uma das obras prima de Chico Buarque.

A Flor da Terra
O que será que será
Que andam suspirando pelas alcovas
Que andam sussurrando em versos e trovas
Que andam combinando no breu das tocas
Que anda nas cabeças, anda nas bocas
Que andam acendendo velas nos becos
Que estão falando alto pelos botecos
Que gritam nos mercados, que com certeza
Está na natureza, será que será
O que não tem certeza nem nunca terá
O que não tem conserto nem nunca terá
O que não tem tamanho
O que será que será
Que vive nas idéias desses amantes
Que cantam os poetas mais delirantes
Que juram os profetas embriagados
Que está na romaria dos mutilados
Que está na fantasia dos infelizes
Que está no dia-a-dia das meretrizes
No plano dos bandidos, dos desvalidos
Em todos os sentidos, será que será
O que não tem decência nem nunca terá
O que não tem censura nem nunca terá
O que não faz sentido
O que será que será
Que todos os avisos não vão evitar
Porque todos os risos vão desafiar
Porque todos os sinos irão repicar
Porque todos os hinos irão consagrar
E todos os meninos vão desembestar
E todos os destinos irão se encontrar
E o mesmo Padre Eterno que nunca foi lá
Olhando aquele inferno, vai abençoar
O que não tem governo nem nunca terá
O que não tem vergonha nem nunca terá
O que não tem juízo

Da suavidade espontânea
Quando se exerce um trabalho de competência espontânea, não sobra tempo para contar ou fazer poesia, apenas. Não entra nas pesquisas de stress, mas é tão claro que todo mundo ressente deste efeito da eternidade. Aqui na companhia, entre um jato e outro, cada piloto encontra seu bate papo do momento.
O eleito está tentando implantar uma idéia que cansou de ouvir, nem uma única vez prestou a atenção, e que apareceu enfim de repente para ele em uma das manhãs de setembro. Durante seu ritual sagrado, passar branquinho nos dentes e sutil purpurina nos olhos, enquanto recordava seus sonhos de 1001 maneiras de arrecadar impostos. Abriu levemente a porta, gritou a Laurinda, minha negra gorda predileta, não riam, é sério, não faz mal ao coração - ela me contou esta estória.
- O celular, rápido.
- Vai ligar para quem, Meu rei?
- Não é da sua conta, Lauzinha querida.
É óbvio que a gargalhada é geral. Remo faz gestos de preconceito, matando a graça. Carlito vai até a ponta, olha para baixo, 60 metros, volta branco e sorrindo.
- Um executivo, deixei-o no Behine, confessou que nunca mais parte para o rio atravez de Congonhas. Tem um lap barulhento, qualquer hora vou acionar a lei do Raquer.
- Quem é o cara?
- Não uso os nomes.
- Mas usa cueca, certo?
- Quer cheirar?
- Estou de serviço.
A gargalhada geral. Tem dias que não podemos sequer se comprimentar. Final de semana, dobra o turno. Gosto de buscar em casa os passageiros, aterrissar no jardim, normalmente desligo o som por último, sempre Paint in black (Live 1), Rem. Já virei o foco da gozação, todos pensam que sou gay, vai vendo. O Borges pensa que isto é doença, já até me pediu para fazer um teste, o de HIV já fiz e mostrei o resultado negativo; 50% acha que o exame é falso. Ele não sabe explicar portanto que tipo de teste eu deveria fazer. Coisas semelhantes vivem acontecendo o tempo todo. Aprendi a confortar essa gente. Qualquer dia eu conto como é quando insistem em afirmar que sou esquisofrênico, então contam, os cultos, com uma vasta bibliográfia, mas sempre chegam a se perguntar: como saber se também não sou a mesma coisa? Estas pessoas felizes cercadas por arames farpados, virtuais, é claro, mesmo se eu explicar, não vão entender o que seja a potencialidade do devir louco.
- Túlio, voce precisa ter certeza absoluta que voce não é viado.
- Sim, claro, é possível, tudo de alguma forma é possível, mas, Borges, qual é o teste?
- E eu que vou saber?
- Pois é, zé, esta é a razão dos filhos de uma puta verdadeiros.
- O quê?
Mas a vida não é nem menos nem mais para ninguem. Isso é quase um mantra. Dia quatro de setembro, o tempo virando, final de semana prolongado, pagando 70 horas de folgas adiantadas, pensando no dia dos Finados, fui buscar uma família em uma mansão no meio do mato, aterrissei na frente da casa - não desliguei o som - ao lado da piscina lotada de jovens. O proprietário alugou a casa para filmagens de um desfile promocional chic. Uma chuva forte precipitou antes mesmo do céu escurecer por completo, todos correram para dentro da casa, nada e ninguém apareceu, talvez foi um trote em que a companhia caiu. Então um raio atingiu a piscina e a nave. Levaram-me para dentro da casa. Dormi no sofá da sala de televisão. Acordei só de manhã e da casa só havia a proprietária. Chamei o socorro da nave depois de 4 dias.
- Não disse, com voce só acontece coisas de viado, voce, pelo menos, descobriu o que fazia alí, mas recebeu seu castigo? O que voce pretende com esta sorte, Túlio?
- Uhm, acima de tudo, bucetas, bem depois a satisfação do consumidor, e muito depois ainda me vangloriar pelos meus atributos, pelo meu papel dramático... Tudo a sua ordem. Naquele dia, acordei no hospital, voces lembram ainda?
- Claro, todo mundo se lembra, à boca pequena o médico disse que voce tomou todas.
É uma esculhambação geral. As pessoas se entregaram a um prazer meio virtual, meio real. Não existem mais opostos, boca grande versus boca pequena, e quando há, os oponentes a não se brigar, rss, viram a cara, ou se tornam indiferentes, ou traidores, etc.; quase que seria uma suavidade educada, para não dizer imposta.
Meu sobrinho diante da tv, por exemplo, assistindo um programa de auditório, no domingo, um cantor se esforçando à frente, as mulheres dançando ao fundo, de vez em quando algum innocent closer e ele faz um movimento reflexo no sofá, a situação real se transforma em um controle remoto, mantenho a paciência, aguardo a ebulição dos fatos, de repente ele também tem um controle remoto, então salta, saltita, prá lá, prá cá, e se diverte controlando tudo o que quer ver, então foca um quadril espetacular (realmente, até eu senti um comichão na costela direita), então ele fica paralisado, tchannnn, feito desenho animado. Ele só tem 15 anos, merece minha compaixão, então essa piada não valeu, apaga; como dizia o velho sábio, Chacrinha: roda roda roda.
- Deve cascar a banana quando fica sozinho.
- Sempre voce, Remo, para exagerar nos seus requalques e competir para chamar a atenção.
- E, voce, Túlio, é um chato do caralho, eu, qualquer dia, jogo voce daqui de cima. Qualqueé, voce é ou não é maloqueiro?
- Outro exagero. Voce ignora sua real capacidade, é o melhor piloto, almoça com o Datena, só nas loiras, e fica aí dando essa bandeira toda.
- Quê, bandeira? E voce, Túlio, virou o pioto preferido do cara, tirou até a barba.
- Nos velhos tempos, às vezes, até pedia clemência aDeus.
Existem medicamentos de tarja preta, mesmos os mais suaves, e geralmente quem os toma, mistura imaginação com fatos, ficção com realidade, conseguem até duvidar se realmente existem verdades e mentiras. As próprias companhias farmaceuticas alertam e muitas vezes previnem, adicionando na fórmula qualquer substância inibidora ou censora das imagens que se passam no cérebro. Só eu sei, quem, entre nós, faz uso destes remédios. O Marques é um deles, rebaixado do cargo de piloto, opera o radar, somente sobre a área metropolitana, e se eu fosse contar os apuros que passamos com ele, daria para escrever um livro.
- Capitão, por favor, o senhor sabe por que o Marques não veio hoje?
- Sei lá, Túlio, talvez confundiu seu dia de folga. Por que voce se interessa por tudo, e por todo mundo?
- Acho que enfim, Capitão, resolvi acreditar que a vida é breve.
- Por que voce não tem espôsa, namorada, nem nada, eu sei, mesmo sem participar de suas fofócas, que as pessoas aqui dizem e falam e contam coisas de voce, para mim não importa a verdade, acho que todo mundo é capaz de desempenhar seu trabalho, entendo assim, não sou contra nem à favor, tudo é permetido, desde que seja aceito pela sociedade, não ofenda os bons costumes e não ponha em risco a vida de ninguém, voce me entende?
- Com certeza, ninguém merece, ninguém pode ser contra essas coisas que todos são obrigados a participar.
- Mas não é assim que se fala, aceita meu conselho, jamais fale assim, como se fosse derrotado.
- Derrotado?
- Sim, Túlio, porque ninguém é obrigado a nada, e quem chora isso, ou é derrotado ou é viadinho, que se parecem muito, mas não são a mesma coisa, conheço gente muito vitoriosa que não é um derrotado, voce me entende?
- Claro, Capitão. Jamais poderia discordar do senhor.
- Muito bem, piloto, a aeronáutica me ensinou muita coisa, ensinou que a suavidade deve ser espontânea.
Foi ensinando que devemos pilotar uma nave como se fôssemos um passarinho, que o Capitão "ganhou" notoriedade, e esta única companhia de aereotaxi.

Mais ficção
Em terra de cego, que tem um olho só, faz ficção; talvez por isso sofra preconceito falso.
O mundo sempre tem o menor pavio, e a ficção é a melhor forma de retardar a explosão.
De que maneira melhor, poderíamos retardar a conquista do ser que pertence ao Outro?

Não dar toda as chances para o Outro é grosseria!
E, assim, suavemente, sem carecer da transparência de Deus, acredito que voce seja capaz.

Voce voltou e li em seu olhog - onde o sorrisinho ironico é tão somente a cereja sunday - que, na verdade, nunca foi embora.
E melhorou muito muito suas palavras e poemas.

Ficcionalmente é a prova mais cabal que continuo fazendo o bem sem olhar a quem, porque, modestia à parte, quem entra por mim e assim me deixa entrar, sofra o que sofrer, só nos desligamos para melhor.

Beijem-me se mi Poder
Mas, rss, por favor, não confundam órgão sexual com a dona - a pessoa que comporta o órgão, porque é jamais ao contrário.
A modéstia faz parte de minha inexpugnável ficção, um romance caloroso com uma máquina de hemodiálise, que nunca me deu sono ou fraqueza crônica.
Aquele abraço
Finalizando a ampliação 'desmedida' deste espaço, um segredinho da minha sabedoria sui generis, para entender o melhor possível aquela letra e poema sem palavras do Chico:
Perguntem-se por que não há pontos de interrogação?
Quem quiser mostrar-me as resposta a que chegaram, vou achar sublime, e prometo não "esculhambar".

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Das novas mesmas roupas



Após assistir ao episódio de Tudo que é sólido... na Cultura, liguei o computador e me senti jovem para escrever.
Hoje o seriado nos ensinou o eixo central do pensamento de Mário de Andrade.

Só mesmo de "brincadeira", acordar todo dia para ser Preto Puto Pobre.
Na linguagem da juventude, filho da puta, não importa o tamanho.
Não li Macunaíma, preferi A História Natural do Céu, de Kant.

Quero finalizar meu pensamento sobre a saudade, que tinha o objetivo de ser pensamento universal, mas se transformou em presunção. Derreteu no ar, quase antes de ser pronunciada, a palavra nem se tornou silêncio, nem linguagem alguma, para ouvidos moucos.

Antes fosse poucos; ainda não sei.

Matar a saudade, o passado
foi a linguagem espúria do recalque

Matar a coragem, o presente
é a linguagem superflua da ansiedade

Matar o reconhecimento, o futuro
será a linguagem detergente da solidão

Não é preciso ter diploma ou sabedoria psicológica, não é preciso sequer ter nome, para escapar da alienação da rotina.

Mais do mesmo

No rádio: give me a reason to love you

O que vai na bolsa de uma mulher
quando sabe que pelo menos ali
deve lembrar sua liberdade? O que
vai no bolso de um homem quando
sabe que pelo menos ali deve ter
o lastro ouro de sua coragem?

Aonde, ou em quê e em quem encontrar sabedoria?

Lud Mill tomava sua cerveja com a mesma cara enfadonha da garrafa sem o rótulo. O líquido não ficaria parado eternamente se ele não o colocasse em movimento. Como deveria então se sentir melhor se não atuasse em nada ao movimento natural da coisa, das coisas, da coisa criada por outra coisa, e essa sim - balança negativamente a cabeça - a coisa primeira de tudo.
- Que coisa, mané? Isso é realmente um caso perdido. Ludimila, senta sua bunda enorme na cadeira.
- Ow, tudo bem? Qual é o produto de hoje da sua soma maluca?
- Que soma, Lud Mill?
Lud Mill agora se via na parede do fundo do bar, aos seus pés a minha coleção de garrafas da última volta ao mundo, outro seriado da WWW. Ludimila sempre passa para 'tentar' incendiar o bar. Neste instante, a intensidade do pensamento extrapola o nível de conhecimento da Solares, então outra vez, pira, sentada desde manhã ao canto, uma bola se joga espontânea da mesa de bilhar, sutil rajada de vento entra pela janela fechada. Reconheço essa sincronia, até advinho, uma brusca freiada de pneus, chuva forte repentina, o rádio desaparece. Aconteceu sequência semelhante, lembro, em Porto de Galinhas.
- Tá dentro do time, Lud Millsssss? Ou só ocupando espaço? Lumila pega meu copo e mata, olha a garrafa vasia, sorri.
- Não temos tempo de transar, a porta vai se abrir, não olhe para trás. Não adianta, voce tambem é o meu caso perdido. O quê vê?
- UUUUalsssss... Sussurrando. De que planeta saiu essa coisa? Voce está armado, Lud? Diz, voce está armado?
- Preste atenção, o Mantra deu sinal para o velho bêbado.
- Pára com isso, Lud, voce e essas manias, não está acontecendo nada.
- Vou cagar. Já volto.
Ludimila é um caso raro de elegância e loucura, diz não para tudo sem ficar de fora. Encosto no balcão para ouvir as palavras do estrangeiro, capa de chuva do século que caçavam bruxas por porte ilegal de cura. Pequena poça de chuva se forma sob suas botas negras.
- Voce é o Mantra?
- Do que se trata?
- Sirva-me um conhaque, do pior.
O copo perfeito, de alumínio, dentro da geladeira. Lud Mill observa Ludimila acender um cigarro no outro, sobre seus caracois vermelhos um enorme bloco de fumaça. Porcel Ana parece uma executiva arquivando espectros, levanta da mesa e pede para fotografar o estrangeiro.
- Só quero aproveitar a luz do lugar, a sua presença contrasta de forma irrecusável, o senhor poderia segurar o copo?
- Sem flash. O estrangeiro saca a espada de neon, grafite.
- Ficou o máximo, pronto, muito obrigado, senhor.
Lud Mill também percebe a montagem do tempo. O rádio volta uma fração de segundo, a chuva pára, o estrangeiro bebe o conhaque e volta para o carro. O rádio volta e permanece, miles davis: freddie freeloader.
- Pecebeu? Lud mill pergunta para o Mantra. Ele aponta para a sua 12 e diz:
- Ela previu desde ontem.
- É, realmente é raro acontecer algo inusitado. O estrangeiro gosta de foto.
- A frescura é geral, Lud Mill. Não existe mais o tempo onde se ouvia o clic clac do relógio, entendeu?
- Mas o tempo não acabou.
- Claro, que não. A sequência certa agora é voce ir embora com a Ludimila, acertei?
- Rss, antes passar no Do.
- O que tem naquele bar?
- Nada real, para mim. Sabia que, talvez, ainda nossa geração poderá ver e sentir a explosão de uma supernova em nossa galaxia?
- O alvo estava estampado na cara do estrangeiro.
- Mas não foi desta vez.
- A Porcel Ana o derreteu.
- Rss, uma apetitosa casca de nóz.
- Leva por minha conta mais uma cerveja e um Marulla para a Ludimila.
- Voce é sádico, Mantra.
Solares grita:
- Mantra, outra caipirinha de maracujá com leite moça, por favor.
Lud Mill não reconhece determinados exasperos de efeito. Ludimila bebe de um gole o Marulla e enche seu copo. Rota no cantinho da boca como preliminar de orgasmo.
- O que aconteceu com o estrangeiro, eclipsou-se, rsssss ? Cagou, Lud?
- Fiquei morrendo de medo. Lembrei dos tempos quando nos proibimos de estourar champanhe de lado.
- Aí veio o Caetano, que lindo, ele estava todo colorido.
- Hoje, vejo-o de cinza azulado, sem essa de caetano.
- Diarréia?
- Eu também fiquei estrangeiro, de repente. Fico intrigado.
- Ficou? E agora, está o quê? Eu ainda não sei quem é voce, Lud Mill?
- Prefere que eu lhe responda, como nos velhos tempos, ou prefere outra bebida?
- Aquela cachacinha mineira, aquela que deixa azul. Imagine tomá-la na praia, de manhã, sem ter dormido, rsssss, sem saber como chegou alí.
- Uma aventura sem as vértebras das horas.
- Voce cismou com este filme.
- Gosto do livro.
- Sei.
- Voce está se cuidando, estudando a matéria volátil dos sonhos?
- Quase. Ontem tive prova. Fiquei aérea na oficina, as naves loucas vinham, tentavam contato, aquele contato melindroso de sempre, não conseguiam, pagavam, pensavam talvez que fazia parte da vida. Horrível. Mas detonei na prova. Passei duas colas.
- Ainda os crimes de infância?
- Só. Veja bem, a prova inteira dizia respeito ao eixo central, com certeza a galera apenas se aproximava.
- Do que voce está falando?
- Da prova, Lud, ow, voce tá viajando?
- Rss, "quase", estou tendo uma prova, meu eixo central está enrijando, rss.

Deixo meu gesto de carinho para o macunaíma nosso de cada dia: Alls Blues, Milles Davis, e vai tocar tudo de bom no walkmen porque o tempo não pára.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Na altura do rarefeito viver



WARY WAY WAR in walk man
(este é um texto de ficção, qualquer semelhança ou extremunção será mera coincidência)

Space Dementia - Muse

Escrevo
para pessoas
na esperança
- não há outra forma!

Jamais me abandone
seja na dor, ou na tristeza
seja no prazer, ou na alegria
- não há outra forma!

Estou internado no sétimo andar do Edifícil Central, HC
Cheguei as 7:22 hs, pensei, agora sou um nome, só o nome
- Vai se acostumando, as horas são as vértebras desta aventura
logo poucas pessoas se transformam em muitas, Enzo ao ouvido

Road to Perdition - Thomas Newman

Fui chamado para transplante de rin
Em casa, o telefone tocou 7:38hs, depois das formalidades
a Adriana pergunta. - Voce quer fazer o transplante?
respondo. - Esperei apenas 15 anos, e é a segunda vez
Creep - Radiohead

Meu irmão Elves entra bufando pressa
a mala ainda com a etiqueta sobre o sofá
minha mãe pula em meus ombros e me beija
na porta reabsorvo meu filho, primeiro abraço de homem

O carro voando pela rodovia, o vento no rosto
imagino o doador sofrendo diversas mortes
lembro do Alcides, completamente dôido, de raiva
recebeu o rin de um menino que fazia roleta russa

O primeiro transplante fiz na Beneficiência Portuguesa, paguei
e recebi. Tive apenas um ligeiro desconforto, deitado na mesa
prometi uma garrafa de wiske para relaxar o cirurgião, depois
de sete dias, ele cobrou, na pressa apertou o enxerto, de raiva

Sweet Jane - Patti Smith&Leonard Cohen

Nem uma letra ou suspiro mais profundo
tem influência alguma sobre a droga, o passado
na forma mais perversa marca a ferros nosso dorso
apavorante tatuagem, exasperante humanidade

Babelogue - Patti Smith
Deixar de lado escritas inspiradas
deformações artificiais da metáfora, de montagens
- o sonho do jovem arquiteto que construiu maquete do mundo
e certo dia ali encontrou alguem que havia esquecido

Alone(acústico) - Pearl Jam&Alice in Chains

(Ela)me encontra no corredor, uma guerreira, de fato e ninja
situação deslocada, febre sem tratamento, excitação
sensação de duelo, de brincadeira, do maravilhoso, de sublime
- "A vida é um desafio, meu bem, com ou sem seu pijama, ahah."

Thiss Mess We're In - Thon Yorke&PJ Harvey

No quarto, duas camas, dois homens pacientes, sobrevidas
o diálogo contornando fatalidades, lembrando erros
a saudade condensa o ar, o lado de fora na janela, mais saudade
o olhar recusa nossa origem ao fastio de silêncio, útero

Meu parceiro, Alfredo, motorista e dono do caminhão, procupado
- Meu cunhado já deve ter vendido o caminhão, com certeza!
E não pode comer, beber, pensa que não pode fazer nada
animo-o com piadas e psicologia das reações reflexas

Dia e noite, a porta no canto, abre e fecha toda hora, entra sai
enche a garrafa de água, esvasia, lava, troca o cesto de lixo vasio
olho a janela, Alfredo parado, páro, Alfredo olha a janela, TV TV TV
de repente, uma dama de branco entra em câmara lenta...
Sheela Na Gig - PJ Harvey

Porque sou o único louco ali naquela madrugada fechada
ela me joga na cama, olha na minha calça e ri, vagabunda
joga minha calça pela janela sobre as luzes da cidade e ri
destroi a tv, todo o cenário e senta sobre mim, a vaca ri...

Who The Fuck - PJ Harvey

A luz se acende, entram enfermeiras, termômetro, balança, amanheceu
a dama ainda pula, determinada a domar seu tigrão, vagabunda
todos espantados, meu suor inundando, ela batendo nas paredes
gritando, socando o teto, a vidraça se rompe, a cama voa...

Grow Grow Grow - PJ Harvey

Ela se recompõe em uma mulher frágil, olhar profundo em mim
vai se afastando lentamente - Adeus mami, adeus papi, adeus Ti
os cabelos molhados, estende as pontas dos dedos, suavemente
toca nos meus lábios uma recalcitrante lágrima e desaparece

Nothing Compares To You - Sinnead O'Connor

Acordo com a Tereza enforcando meu braço - Teve febre, teve?
Não respondo, escuto meu coração:eunão eunão eunão eunão...
Marisa arranca o cobertor - Aqui não precisamos de moleza
vai tomar banho, depois vamos fazer barba cabelo e bigode

Risingson(Underword mix) - Massive Attack

Entra a comitiva médica e sussurram e conversam e olham
o Alfredo foi transparecendo até desaparecer, eu queria fugir
minha vez, acompanhei até - Pode subir, ele está bem, opere
Então também desapareci, Alfredo estava em lamaçais...

Chop Suey - Sistem of a Down

As lâmpadas voando, o Bigode vai brincando - Rapidinho
na bacia de aço lavam o rin da cor de uma lula, 10, 9, ...
depois, na sala de recuperação, UTI pós cirurgia, a dor
perguntei para Deus, por quê?, imploro um anestésico

O anestésico não é onipresente, onisciente e nada
- Precisamos saber porque está doendo, paciência
A vida então sem filtros, sem assopros, sem marcas
não suporto receber a mais do desejo e necessidade

Retrato em Branco e Preto - Elis Regina

Uma sonda no meu pau, banho de pano e descarícias, dó
o corpo retoma irrestrito controle, o teatro fechado, pó
as pessoas dentro de um monitor, luvas nos olhos, brancas
impostura da ausência de cores, pretas, exaspero, histórias

Caladas, criaturas negadas ou adoradas ao sacrifício, real
Estou na enfermaria 364-B, a sopa colorida esfriando, Jordano
eterno menino e senhor, doutor, faz sinal da cruz ao Nietz
juraria, apontando a parede, Schop foi um desmiolado santo

Gisela olha impressionada o ratinho negro do laboratório
tentando se comunicar, patinhas dinhateiras tocando o vidro
furtivamente ela abre a tampa. Perdi a conta, tempo superfluo
quantas vezes quis furtivamente deitar a cabeça em seus ombros

Chorar, em 34 dias, tres vezes, faltou pouco. Sempre, quase chorando
Lucia, astuta, guerreira deusa índia, entra no quarto, lente no olhar
- Voce está bem, puxa!, já pelo menos sentou na cama, e a urina?
- Esse aí está se divertindo. - Conheço a raça. - Faria entender? - Eu?

Segunda Juliana, a verdadeira firmeza, amaria vencê-la na quebra
não me ajuda a levantar, levanta-me e sente prazer, algo sublime
e consegue dar notícias do que vai no ar, supõe políticas e brinca
- Creio que o brasileiro não sabe o que é isso. - Nem todos, fui!

At Home he's A Tourist - Gang Of Four

Anjos na frente das balas, a juventude, estudantes invadem
Alessandra, curiosa, lábios marrons dourados, caneta niquelada
- E como voce faz para respirar? - Tenho em mente o trajeto
Ela vai em fração de segundo volta. - Eu nasci em Franca, SP

What We All Want - Gang of Four

A enfermeira da noite, saiu de um canto na Europa, guerreira
Eu estava empapado e injuriado, vendo a parede na distância
o planeta é uma pelota escrota ali suspensa no escuro, vou...
Ela entra no quarto, pára do lado e aguarda, seus olhos, tesão

Guns Before Butter - Gang Of Four

O corredor, bom dia, bom dia, bom dia, oi, bond, bem, bum
arrastando um recipiente pelo pau, de cachecol, O Plástico
segue o vento pelo segundo corredor, uma pequena artéria
blaze azul entre milhares de aventais brancos, sabedoria, paz

proper education - eric prydiz vs pink floid

Comites, conversas de almoços, assaltos pela biblioteca
dasaparecem toda a história do hospital, ninguém é ninguém
rastro de pólvoras sob solas, na cozinha Nhá Nhá crua o frango
urólogos e rinários selam planos, coração bate lentamente

Antes dos nomes aprendemos de quina, escanteio e sinuca
a bela senhora elegante sobre tudo musgo perfura a cartela
sou um pobre diabo, faz de conta que jamais ganhei no bingo
senhora bondosa criou a auto ajuda - A Neidinha quer falar, vem

Where Is My Mind - Pixies

- Pare, deixe a brincadeira de fora, antes de tudo não existe
porque voce não pensa que é voce sempre depois de tudo?
Neide é amiga do pequeno polegar, uiva entre panos do céu
plano tênue, confundir o anão dunga, coruja vista durante o dia

Criminal - Fiona Apple

Ela teria coragem de enfrentar meus fantasmas para me salvar
só não sabe o que faria depois - Ora, não vai restar nada, depois
- É o plano, ou não? - Então, o que vamos fazer depois, diz voce
- E depois, e depois, memórias na mala, etiqueta e esquece, ok?

Shadowboxer - Fiona Apple

Passo pelo corredor da enfermaria e não vejo sequer luzes no piso
nem sou visto pelas pessoas, anonimato é prazer, horror e delírio
entro no quarto como quem não tem pressa para vomitar e vomito
Alcanço e aperto a campanhia para chamar ajuda - Estou morrendo

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Das equiparações involuntárias


Para ser menor que o universo

Desde muito pequeno, talvez do tamanho do pé de meu pai, percebi a força que a saudade mais recente impõe à nossa humana forma de pensar.
Alguns anos mais tarde voltei ao tema, quis saber como controlar essa força oriunda da saudade.
A força é maior quanto mais recente for o fato.
Tentei enumerar; o zero na divisão dos números positivos aos negativos ficaria no ponto onde perdemos a certeza se determinado saudoso fato realmente aconteceu.
Então reservei, creio, quase uma década de vida para classificar as minhas, e também de todas as pessoas que melindravam suas saudades.
Quando ocorreu um imprevisto neste aparato racional.
Eu havia mudado de Marília, SP, para São Paulo, capital, e, na primeira viagem a passeio para rever os parentes, encontrei uma menina, a Marília - hoje se tornou uma excelente criminalista - que tinha na face o que seria quando adulta.
Ficamos de namorico no portão de sua casa até o último momento.
Quando voltei, de ônibus, olhando as estrelas, não recordava suas carícias, mas aquela visão da face da Marília, apaixonante para um menino, que seria o que sou.
(Minha amada amiga Dnyelle, sorri e diz, não disse, não disse, são só seus olhos!)
E me perguntei: Quê saudade era aquela?
Aonde a colocaria em minha escala matemática?
Eu tinha certeza? Poderia aceitar como fato real?
Tudo bem, que atualmente comprovo aquela excelência da imagem, mas ela podia, ou poderia ter-lhe acontecido qualquer outra coisa na vida.
Pensei, então na possibilidade, com 12 anos de idade, no futuro de números supra reais, e, conforme tão bem aludiu Borges, em seu conto A Biblioteca de Babel, transformando os números em finitos, abandonar as classificações atemporais, descartar meu método anterior, principalmente o ponto zero.
A saudade, portanto, infinita, seria descrita exclusivamente com as palavras.
Ela perderia qualquer apreensão singular.
Percebi que havia avançado bem mais à frente da média da civilização.
Vivia momentos de glória em todo lugar, e toda glória cobra um preço maior do que a média.
Maior ou menor, neste caso, não significa classificação; matemática proporcional.
Entende-se melhor como um estado mais operante do que aquele aludido ao ditado: Deus dá o frio 'conforme a quantidade de cobertor'.
Onde portanto me encontro: Deus dá o sono 'conforme a qualidade do cobertor'.
Tudo muito simples, feito passe de mágica, tão segredado, que nem mesmo questionamos a legitimidade 'do truque',
servimos-nos voluntariamente ao espetáculo lúdico.
De alguns anos para cá, quero avançar mais um pouco na média da civilização.
A mesma me insulta, ameaça e ressente minha existência,
mas isso é só sadomasoquismo, mania muito apreciada pelo pensamento médio.
Entre o máximo e o mínimo, uma rara sorte sobrevive aos fogos cruzados.
Faz parte da minha vontade de avanço escolher o mínimo esforço
de artilharia, literária, obviamente.
Talvez, quando li o conto do Pequeno Polegar, de Gaston París, fui influenciado decisivamente.
Separei mínima passagem do conto - explicado!!! - no livro A Poética do Espaço, de Gaston Bachelard, tradução de Antõnio da Costa Leal e Lídia do Valle Santos Leal, Abril editora.

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No caso de uma miniatura contada, como é o caso do conto do Pequeno Polegar, parece que se encontra sem dificuldade o princípio da imagem primeira: a simples pequenez vai facilitar todos os feitos.
Mas, examinada de perto, a situação fenomenológica dessa miniatura contada é instável.
Está, com efeito, submetida à dialética do maravilhoso e da brincadeira.
Um traço a mais basta às vezes para deixarmos de participar da surpresa.
Num desenho, admiraríamos ainda, mas o comentário ultrapassa os limites: um Polegar,
citado por Gaston París, é tão pequeno "que fura com a cabeça
um grãozinho de areia e passa por dentro do grãozinho."
Outro é morto pela patada de uma formiga.
Nenhum valor onírico neste último traço.
Nosso onirismo animalizado que é tão forte, no tocante aos animais de grande porte, não registrou os fatos e os gestos dos animais minúsculos.
Do lado do minúsculo, nosso onirismo não vai tão longe quanto nosso onirismo vegetal.
(Notemos no entanto que alguns neuróticos pretendem ver micróbios roendo seus órgãos)
Gaston París observa bem que, nessa situação em que o Polegar é morto pela patada de uma formiga,
chega-se ao epigrama, a uma espécie de ofensa pela imagem que exprime o desprezo pelo ser diminuído.
Estamos diante de uma contraparticipação.
Encontramos esta forma entre os romanos; um epigrama da decadência,
dirigida a um anão (dizia): "A pele de uma pulga faz uma roupa larga demais para voce".
Em nossos dias ainda, acrescenta Ganton París, as mesmas brincadeiras podem ser encontradas na canção do Petit Mari (Pequeno Marido).
Gaston París dá aliás essa canção como "infantil", o que não deixará de espantar os nosso psicanalistas.
tres quartos de século, os meios de explicação psicológica cresceram bastante, felizmente.
Mas então, para participar realmente do conto, é preciso desdobrar esta sutileza do espírito em uma sutileza material.
O conto nos convida a nos "envolvermos" nas dificuldades.
Ou seja, além do desenho, é preciso tomar o dinamismo da miniatura,
que é uma instância suplementar.
Que ânimo recebemos então do conto se seguimos a casualidade do pequeno,
o movimento que nasce do ser minúsculo agindo sobre o maciço!
Por exemplo, o dinamismo da miniatura é frequentemente revelado pelos contos em que o Polegar,
instalado na orelha do cavalo, é senhor das forças que puxam o arado.

********************************************************

O que tem isso a ver com Saudade?

Tudo! Tudo que escrevi por aqui.
Porque a saudade é o mínimo de amor
indiferente ao que recebem
que as pessoas podem dar em troca
e devemos agradecer;
poderia tão pior ser somente nada.

domingo, 27 de setembro de 2009

America Latina, branca no eterno ensaio



As Ruínas Circulares
(Jorge Luis Borges
Ficções - Editora Globo
tradução Carlos Nejar
1982)

Compreendeu, com alguma amargura,
que não podia esperar nada daqueles alunos
que passivamente aceitavam sua doutrina e sim
daqueles que arriscavam, às vezes, uma contradição
razoável. Os primeiros, embora dignos de amor e afeição,
um pouco mais.

Uma tarde
(agora também as tardes eram tributárias do sonho,
agora velava apenas um par de horas no amanhecer)
licenciou para sempre o vasto colégio ilusório e ficou
com um só aluno.

Era um rapaz taciturno, citrino, indócil
às vezes, de feições afiladas repetindo as de seu sonhador.

A brusca eliminação de seus co-discípulos não o desconcertou
por muito tempo;
seu progresso, no fim de poucas lições
particulares, pôde maravilhar o mestre.
Não obstante, sobreveio
a catástrofe.

Se eu pudesse viver novamente a minha vida,
na próxima trataria de cometer mais erros.
Não tentaria ser tão perfeito, relaxaria mais.
Seria mais tolo ainda do que tenho sido.
Na verdade, bem poucas coisas levaria a sério.
Seria menos higiênico, correria mais riscos, viajaria mais.
Contemplaria mais entardeceres, subiria mais montanhas,
nadaria mais rios.
Iria a mais lugares onde nunca fui, tomaria mais sorvete e menos lentilha,
teria mais problemas reais e menos imaginários.
Eu fui uma dessas pessoas que viveu sensata e produtivamente
cada minuto da sua vida: claro que tive momentos de alegria.
Mas se pudesse voltar a viver,
trataria de ter somente bons momentos.
Eu era um desses que nunca ia à parte alguma sem um termômetro,
uma bolsa de água quente e um pára-quedas:
se eu voltasse a viver, viajaria mais leve.
Se eu pudesse voltar a viver,
começaria a andar descalço no começo da primavera
e continuaria assim até o fim do outono.
Daria mais voltas na minha rua, contemplaria mais amanheceres
e brincaria com mais crianças, se tivesse outra vez uma vida pela frente.
Mas, já viram, tenho 85 anos e sei que estou morrendo.
O homem, um dia, emergiu do sono como de um deserto
viscoso, olhou a luz vã da tarde que, à primeira vista, confundiu
com a aurora e compreendeu que não sonhara.

Toda essa noite
e todo o dia, contra ele se abateu a intolerável lucidez da insônia.

Quis explorar
a selva, extenuar-se;
somente alcançou entre a cicuta aragens de sonho débil,
listradas fugazmente de visões de tipo rudimentar: inaproveitáveis.

Quis congregar
o colégio e apenas havia articulado algumas breves palavras
de exortação, este se deformou, se apagou.

Na quase perpétua vigília,
lágrimas de ira queimavam-lhe os velhos olhos.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

PxR cheque mate = Xadrez avançado

Torres gêmeas durante o ataque de torpor U$americano

Não só assisto as Deusas

Dizem dos conflitos oriundos das profissões,
dos conflitos que se misturam
ao problema existencial geral do ser.

O mundo
pode se tornar uma esfera muito pequena,
e toda a grandiosidade do universo a vastidão opressora.

Minha atenção, por exemplo,
se volta ao profissional do ensino,
mais atentamente
ao alcance após o método obrigatório.

A partir do momento quando arregaça as mangas,
olha nos olhos de cada ser,
antes de pontualmente alunos,
percebe a verossilhança inquestionável.

O instantâneo do espelho
subjetivo e, mais que intuir,
se esforçar a entender o próprio ser
na imagem refletida em outros olhos.

Nosso desejo seria plenamente satisfeito
se pudéssemos atuar, desenhar a própria imagem vista,
diferente da transferência infantil,
ou mensurá-la de uma tal maneira
que o desejo não encontrasse outra direção.

Experimentamos em inúmeros momentos
com ternura lúdica
a "certeza" de que o ser é maior que o universo.

Esta é a razão da opressão;
conter o universo dentro do mundo,
em todos casos, exemplarmente,
este mundo ainda é tão somente um quadro dado;
como viver uma aula de cada vez, somente
e toda a matéria estivesse escrita apenas no blackboard.

É como se o tempo imediato,
outras pessoas, livros, 'em si', passado, presente e futuro,
os nomes,
tudo além do determinado para a aula,
fosse inapreciável.

Cada aluno, uma criança 'em si' ou
introjeção de um personagem literário (mediatizado),
cada compôser somente da família
e amigos escolhidos por critérios de ordem ou perversão da ordem,
cada ser animal biológico, uma síntese intrusubjetiva eficiente e operante,
sem descanso nem compaixão,
fossem coniventes para o 'ideal' de vida.

Porém, ser idealizado não é ser,
é apenas a virtual satisfação,
com ou sem adjetivos,
do desejo de ser.

Toda esta nostalgia da infância, marcada ou não por 'tragédias'
não tem nem deve haver motivos de ressentimentos.

Também não é preciso sublimação,
quando o desejo, diretamente da saudade
- ainda afetada -
irromper por momento.

Basta manter o objetivo de ensinar,
neste caso, claro, sem o método determinado

Neste momento 12:39hs
nesse exato instante acontece uma explosão
em algum lugar
ligo a televisão
foi no ABC, uma fábrica de fogos
um universo paralelo


lembro quando cheguei no departamento
todas as pessoas falando de um avião que bateu em um prédio
corri para minha sala
lá estavam meus companheiros, minha equipe
a Gláucia disse "voce ainda não viu?" e apontou para a TV
outro universo paralelo


quando o segundo avião bateu no segundo prédio
eu cai para o lado
sentei em minha cadeira
como se tivesse levado um tiro no peito
e não me restasse mais nada da vida
além de assistir a morte


e olhava as imagens
em certo momento um ser humano voava no vento...


Qual é a minha vontade de permanecer vivo?

Coloco o fone ao ouvido para ouvir for you, Triumvirat,
e choro,
e penso
como podemos ser o que somos,
como podemos chegar a este ponto,

e retiro o fone, aumento o som da TV
e queria ouvir o relato mais simples do acidente,
queria ouvir sem me sentir impossível,
não queria me sentir impossível
e assim o conhecimento de acidentes
quando há mortes
não me incomodasse,
queria mais que tudo ser exatamente à minha imagem,
não consigo,

a dor, sem poesia,
no peito, as pessoas em mim.

Então não sei mais qual é a minha vontade de viver,
já não posso mais querer saber
sem ser capaz de esquecer as pessoas.

Como poderei esquecer o sofrimento?
Como pode ser humano e esquecer o sofrimento?
Como posso ter vontade de viver
para esquecer?

Lembrar somente quando outro acidente
chamar minha atenção, beyond the pale
nenhuma diferença faz a consciência nos fatos?

Qual profissional é responsável dessa matéria?

O fantasma da ópera não quer se vingar
não vai cobrar seu profissionalismo
e responsabilidade
que foram roubados aos tempos em média:

Tempo de ser comprimido
dentro da imagem suficiente
Tempo de ser deprimido...

Ou agir, vestir a camisa, assumir o Saco Santo
o mesmo ponto de vista de Deus
sem urras espirituais nem merchandaizin's do corpo

Ser professor, ser político
ser artista e reservar o tempo possível
para redesenhar um outro mundo mais real

Se engajar porque
não podemos nos deter
e precisamos portanto
talvez para valer a pena morrer
ou matar
pela matéria vida
trabalhar
pela coisa viva

pela coisa mais caótica
e imprescindível
do que o espelho

o caótico que vê
o outro
caótico e quebra
os espelhos

demasiadamente assumido portanto
em não abandonar este mundo
sem ter feito o melhor

estudar, aprender
porque tudo é apreensível
porque (entre aspas)
nada é qualquer coisa!

(a tempo: cansado de supostos "banho de chuva")

§

Extra
Acabei de assistir à propaganda politica do PPS
e não vi/ouvi nenhuma novidade, o mesmo discurso
a mesma crítica deslavada, igual à "burguesia&crime"
oportunamente apoiada/centrada no partido de posição
isso quer dizer, que vai ser pior que a Dilma
e só a Marina ainda me faz pensar pensar pensar
mas como É política partidária, jamais história de um
vou por enquanto de PT, até que outras mostrem a cara
se acaso tenha uma, para além de suficiente; eficiente!!!
porque o resto tem a mesma fisiologia dos jogos sujos

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

CURTA METRAGEM


Comfortably Numb

Voce me pergunta por onde passamos esses anos, e eu nem mesmo posso responder, talvez jamais soube o que significa o meu tempo. Talvez apenas nos cansamos de nossa isolada satisfação, de nossos sonhos, como se esquecêssemos para sempre quando podíamos estar em grupo e tudo que falamos vai se tornando algo artificial, sem o passado que guardava apenas as melhores recordações. Estou ficando também cada vez mais eu e meu carro, como certo dia a vi cantando na frente do computador...

É verdade, antes não planeávamos nada e era como se todos os dias estavam marcado na agenda, só variava os momentos, víamos a mesma lua toda noite...

Eis porque tenho me preocupado, a vida se tornou a própria questão de vida ou morte, recuse-a e viva, aceite-a e morra, nesta inversão estamos todos, talvez muito gravemente eu e minhas hipocondrias que vem como condicionais a cada impulso de questionamento do Estado. Estamos todos condicionados para a mais brutal solidão que o ser humano só não poderia prever se estivesse entorpecido.

Eu estou entorpecida, voce não? Entorpecida para transformar esta porcaria toda de mentiras politicas em assunto de museu, para quem quiser lembrar.

Rss... preciso beber qualquer coisa. Preciso fumar qualquer coisa. E não preciso comer voce neste instante, algo de muito grave começou a acontecer depois destes momentos, que venho percebendo a dias, reparou quando saí do banheiro, eu estava branco, não havia uma cor sequer em minha face, e o arco íris só aparece nas mudanças mais profundas do tempo, mas que as pessoas só enxergam o fim ou começo da chuva, a volta ou a partida do sol...
A comédia de Dante! Quando começamos a pensar, conscientes dos pensamentos, é como se algo nos forçasse à comédia, e a contra partida seria um horror antecipado ao drama, mas estes nomes da literatura não dizem mais, ou não os ouvimos. Caiu no desdomínio público, rss.

Uia! Endureceu de novo.

(...) A vida não comporta determinadas evoluções em cada vez mais áreas restritas aos especialistas de média. Pensar sobre o que pensamos sobre casamentos, por exemplo.

Nem venha com esta conversa, voce é igual a todo homem. Uma profundidade aparente, depois se tornam aquela piscina de sempre lá de casa. Meu irmãozinho se diverte, ele me chama para brincar, pobrezinho, eu desaprendi a brincar.

Estou morrendo, não vou mais cair na sua. A paz celestial deve existir, o ser humano...

Ser humano.

... não pensaria.

Aiii..., não. Vamos abrir a janela. A mortalidade infantil, a violência juvenil, o estupro adulto e a sacanagem senil, a geleia real me aguardem. Vou fazer um café, Amor.

Não esqueça sua arma, vou capotar até voce voltar.

Voce está louco? Já me viu sem minha arma?

Desarmada, voce, aaahhhnuuuuuunnnnnnncahhh. Uhm, estou com fome.

Não vou fazer nada. Sai comigo, a gente pára para comer e tomar um bom café.

Não. Voce disse que ia fazer um café, bom, salvador e forte. Enquanto isso tomo banho e visto finalmente uma roupa.

É... voce vem assistindo demais o declínio do império americano. Nem trabalha mais, ser polícia nessas terras brasileiras a perder de vista... filho-da-puta, nem mesmo fecha a porta tomando banho, qualquer dia o bandido entra... eu também sinto uma angústia diferente, qualquer coisa intraduzível, talvez estamos perdendo a tão cantada identidade, a quanto tempo não sou cantada, quanto vale um salto na vida, desci mas hoje tenho uma responsabilidade amplamente respeitada, adeus meus anseios de navegar, quis pegar a lancha de papai e chegar até a África, tonta, só lembrei do combustível, tonta tonta tonta, do tanque, que decepção...

ESTÁ FAZENDO O CAFÉ, pelo menos?

Eu faço suco de laranja, faço torradas, reencarno um esverdeado provolone e faço um maldito miserável forte café, faço a mesa, e se a profissão não me ensinasse a ser dura, passaria um pano na pia, na casa inteira. E o pior, que, se eu pensasse feito um homem, eu tiraria a roupa e antes de sair daria uma rapidinha, essa só para marcar território. A vida a dois está uma comédia, dantesca literalmente, a teoria se dissociou da prática de vez, é como se vivêssemos feito flor, feito animal, somos obrigados ou humilhados se pensamos no que todos pensam na vida.

§

O automóvel corre, a lembrança morre
O suor escorre e molha a calçada
Há verdade na rua, há verdade no povo
A mulher toda nua, mais nada de novo
A revolta latente que ninguém vê
E nem sabe se sente, pois é, pra quê?
O imposto, a conta, o bazar barato
O relógio aponta o momento exato
da morte incerta, a gravata enforca
o sapato aperta, o país exporta
E na minha porta, ninguém quer ver
Uma sombra morta, pois é, pra quê?
Que rapaz é esse, que estranho canto
Seu rosto é santo, seu canto é tudo
Saiu do nada, da dor fingida
desceu a estrada, subiu na vida
A menina aflita ele não quer ver
A guitarra excita, pois é, pra quê?
A fome, a doença, o esporte, a gincana
A praia compensa o trabalho, a semana
O chope, o cinema, o amor que atenua
O tiro no peito, o sangue na rua
A fome a doença, não sei mais porque
Que noite, que lua, meu bem, prá quê ?
O patrão sustenta o café, o almoço
O jornal comenta, um rapaz tão moço
O calor aumenta, a família cresce
O cientista inventa uma flor que parece
A razão mais segura pra ninguém saber
De outra flor que tortura, pois é, prá quê?
No fim do mundo há um tesouro
Quem for primeiro carrega o ouro
A vida passa no meu cigarro
Quem tem mais pressa que arranje um carro
Prá andar ligeiro, sem ter porque
Sem ter prá onde, pois é, prá quê?

domingo, 20 de setembro de 2009

Doctor House


Ele sofreu muito para não morrer; as consequências de ser atropelado sem acidente visível, no casamento, acentuou sua obsessão pela solidão, que sempre o atormentou, e a todos a sua volta, desde o nascimento.
No ano 2000, precisamente na véspera, precisamente as 10:00 Hs do dia 31 de dezembro, depois de meia década de insistência dos raros amigos no hospital, onde exercia residência, aceitou acampar em um dos inúmeros point do Big Canyon, para receber por último o hálito do terceiro milênio.
Estava ele e seu fiel companheiro, acompanhados de sete médicas jovens.
Com excessão de uma, sempre considerada a ovelha negra da família, todas as outras disseram que foi um fracasso, nunca se viu tamanha estupidez de convivência.
Ficariam até 5 de janeiro, mas a maioria se revoltou, e deu-se terminada qualquer possibilidade de descanso e entreternimento.
Ele conseguiu somente ter uma única relação sexual, apesar da exorbitante oferta, não por fraqueza física; ele delirou com o trabalho.
Eu conheci a sua ovelhinha eternamente rejeitada, em 2002, quando ele a abandonou (conclusão na média) na praia Vermelha da Ilha Grande, RJ. Ela me contou aquela experiência. Segundo suas palavras: "by leaps and bounds, but unforgettable!".
Ainda não haviam anunciado quem ganharia o primeiro Prêmio Nobel de medicina do terceiro milênio, e ele disse que já sabia, espantosamente, que seriam três.
Enquanto todos o atiçavam para revelar suas fontes, ou o desdenhavam com a pernóstica certeza que seriam visões de um viciado em analgésicos, ele afirmava exaustivamente que bastava compreender o curso da história e ignorar a história das disputas veladas pela visibilidade e dinheiro de quem ganha tal prêmio.
"Zero hora, no intervalo entre um milênio e outro, ele estava solitário sobre uma rocha tão alta, a festa que fazíamos foi ofuscada pelo mistério; não havia meios científicos que explicasse como ele conseguiu subir àquela altura."
Diz ela, que ele só contou este e inúmeros mistérios daquele acampamento, meses depois, talvez por culpa logo após ter sido pego em fragante com uma estagiaria japonesa, e somente depois de ouvir o juramento de que não contaria para ninguém. Não queria seu nome elevado a nenhuma categoria, laica ou erudita.
Temia que seus "atributos" de ser, fossem atribuídos a qualquer força demasiadamente natural, tampouco ao sobre natural.
Eu e ela passamos um mês naquele paraíso, na casa de uma senhora tão simultâneamente ignorante e sábia, que cozinhou uma raia inesquecível.
Quando voltei para casa, depois de "abandoná-la" em Campos do Jordão, SP.
Em casa fui conferir aquela história, deste médico espetacular, cujo véu foi costurado a mão, sem sequer um fio artificial ou manufaturado.

Nobel de Medicina - 1999

Günter Blobel
, nasceu em 21 de maio de 1936 em Waltersdorf, na Silésia, Alemanha.
Em suas pesquisas na Universidade Rockefeller, começou a estudar como as proteínas encontram seu caminho dentro das células vivas.
No início da década de 1970, descobriu que as proteínas contêm um sinal que funciona como uma espécie de código postal, mostrando onde elas devem ir dentro da célula.
Com base em experimentos bioquímicos, descreveu, em 1975, as várias etapas nesses processos.
Essas descobertas explicaram com exatidão a causa de algumas doenças genéticas causadas pela má localização das proteínas.
Recebeu o Prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina pela descoberta de que as proteínas tem sinais intrínsecos que direcionam seu transporte e sua localização na célula.

Nobel de Medicina - 2000

Arvid Carlsson, nasceu em 25 de janeiro de 1923 em Uppsala, Suécia.
Recebeu o prêmio por ter descoberto que a dopamina é um neurotransmissor e tem grande importância para o controle da motricidade.
Seus estudos permitiram descobrir que a doença de parkinson é causada pela falta de dopamina em certas partes do cérebro.
Ele também demonstrou o modo de ação das drogas usadas para o tratamento de esquizofrenia.

Paul Greengard, nasceu em 11 de dezembro de 1925 em New York, US.
Recebeu o prêmio por sua descoberta sobre como a dopamina e vários outros transmissores exercem sua ação no sistema nervoso.

Eric R. Kandel, nasceu em 7 de setembro de 1929 em Viena, Áustria.
Recebeu o prêmio por suas descobertas sobre como a eficiência das sinapses pode ser modificada e qual o mecanismo molecular de que elas participam.
Ele demonstrou como as mudanças na função sináptica são importantes para o aprendizado e a memória.

Fonte: Prêmio Nobel de Medicina: da pesquisa à conquista - Lemos Editorial

Lembro que na época, poucos recursos financeiros e ainda não haviam criado o wikepédia, fiquei sem entender bolhufas, como o Doutor House conseguiu prever.
Claro que acredito - no caso, muito tempo depois, confirmei - que qualquer ser humano seja capaz, dentro de um contexto lógico, fazer previsões do futuro.
Claro também, que ele, como ser humano, nem muito nem pouco natural, jamais admitiria qualquer lógica provida do outro.
Isso não me faz nem um pouco incomodado por ele ter mais(ou menos) atributos que a média. Exercício de verdadeira democracia, somente.
Tenho um post pronto sobre o mais pertinente para nós, mortais, sobre o cérebro, algumas partes que envolvem as sinapses.
Não o publico agora porque o tempo sim ou não necessariamente urge, rss.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

"Amor virtual é um saco"


Por que não enxergamos apenas o véu?
Por que não nos perguntamos qual era o prazer de vesti-lo?
Mas de repente, ficou tarde.
Em meio a tantos amores
que vão ficando tarde até neste momento.

Aonde vão parar todos os véus?
E não adianta esperar a resposta,
confortavelmente fingindo não ouvir Air on a G String
tocando dentro do próprio véu.

E não adianta sequer construir palácios poéticos,
castelos de ficção, não adianta
se tornar o mitológico arqueiro inglês
e inverter todos os cursos d'águas,
levantar diques, exportar
perícia e localizações de alvos fáceis
ou prestes a servi-lo, não adianta
qualquer visibilidade a conquistar
pelos mecanismos mais sutis da natureza, não...

Não, quando amores preferem partir
e vão se deixando ficar confortavelmente.

Sem respostas, como ansiamos
que não houvessem perguntas!

Nos tornamos assim o velho fantasma da ópera,
toccata e fugue in D minor, Bach, especialistas
em pequenos espaços, em quase instantâneos
de descanso, jamais cansados, dissimulando
apenas o mais exasperante vício de ficar só.

Só, para vasculhar baús de dores,
antes amores que tiveram suas chances,
que vestiram véus sem prazer,
sem desejos, sem sentimentos,
véus mentirosos mesmo que jamais mentiram,
assim como é toda arte simulada por razões veladas...

Qual é a razão que a arte, nua, pode exigir?

Quantas vezes a arte se faz uma pessoa?
E quantas vezes essa pessoa poderá suportar
a nossa ânsia
de verdade, de véus
apenas para nos 'demasiar'
sem jamais sabermos por quê?

Por que a nudez se tornou este signo, este paradoxo do desejo,
esta dicotomia do vício,
isto obscuro, velado, misterioso e premente?

Por que João Gilberto que conhecia o segredo do sucesso,
se tornou o próprio véu, a própria arte,
sua própria vida
demasiadamente humana e original?

Por que Cat Power, em Sea of Love, é capaz
de apaixonar até quem não sabe o que está dizendo?

É a arte, ou a mulher, nua, que nos envolve,
ou é um produto social, perfeito,
ou justamente um defeito,
a coisa mesma,
nua, sem véus, sem instruções?

Precisamos saber o que diz a canção Karma Coma,
Trick & Massive Attack, para pensar -
"engraçado voce lembrar de mim nesse instante do texto"
- decidir -
preferir a arte pela arte, e não se toca mais no assunto?
"Que véu voce 'vesta?"

"O que voce prefere, a arte ou a mulher,
qual das duas nuas?" É o que tememos
em Fernanda Torres se nos despimos completamente?

E Holiday cantava apenas para nos advertir.

A arte dói,
a nudez nos corrói,
o véu é nossa mortalha,
a morfina é o mais falso amor
e sem este não conseguimos viver.
"Mas amor virtual não é um caso! Falei?"
§
Olha que a vida tão linda se perde em tristezas assim
Desce o teu rancho cantando essa tua esperança sem fim
Deixa que a tua certeza se faça do povo a canção
Pra que teu povo cantando teu canto
Ele não seja em vão
Eu vou levando a minha vida enfim
Cantando
e canto sim
E não cantava se não fosse assim
Levando pra quem me ouvir
Certezas e esperanças pra trocar
Por dores e tristezas que bem sei
Um dia ainda vão findar
Um dia que vem vindo
E que eu vivo pra cantar
Na avenida girando, estandarte na mão
Pra anunciar

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Coisas melhores do que beijos, agora

FOTO DO GATO NA CADEIRA DE ARQUIVO DO MEU FILHO

{todos estão convidados a jogar com as peças escuras, a partir do segundo lance cada partida não se envolverá em outra}

1º Lance = P4BD

Desde muito criança eu já pensava que psicologia é coisa de frescos e frescas, estou bem próximo dos cinquenta anos e ainda continuo achando estes tipos de pensamentos tolos.
Mas antes vamos lembrar um pouco, não há outro meio de satisfação na metáfora do que enfim enterrar passados.
Dinheiro só achei uma vez, era uma nota de dez em um tempo que eu refletia muito pouco, significava simplesmente que eu podia comprar dez veses uma coisa que custasse uma nota de um. A reflexão, até hoje, para mim, é um refinado estado de espírito que se reflete em qualquer parte do corpo.
Lembro da minha alegria, eu queria até que o mundo inteiro ficasse sabendo, e isso foi, certeza que também carrego até a morte, a razão de ter perdido aquela nota de dez, fato desagradavelmente requintado na memória, porque aconteceu no momento justo da prova que não devemos nunca dividir nossas alegrias, eu demorei tanto para gastar, talvez para manter o maior tempo possível meus 15 minutos de fama, quando comprei dez doces de dez sabores diferentes, na hora de pagar, o dinheiro havia sumido.
Na forma de lembrar o passado, na forma de sincronizar as lembranças, os fatos, este com aquele, uns com outros - sem se importar em conhecer a forma de construir a memória, nesta inconsciência também ignorada por capricho ou preguiça - percebi que sempre a motivação do talento inato fora corrompido.
Não importa o campo onde viesse atuar, na pintura, por exemplo, muito cedo, diz-se precocemente, depois daquele ensaio geral feito exercício muscular, no momento quando me vi capacitado a portanto criar um próprio gênero, alcançar minha linguagem pictórica essencial, caiu em minhas mãos, literalmente do céu porque em momento e lugar certo, numa revista de refinada qualidade gráfica, fotos de inúmeros quadros de Salvador Dalí.
Daí em diante, refleti de maneira sui generis que melhor faria para para a civilização, pelo menos do meu tempo, era não mais tentar, na pintura, desenvolver determinada linguagem, porque o objetivo fora alcançado e mais do que fêz o surrealismo, em Dalí, seria devaneio inócuo.
Na literatura, exclusivamente na ficção, ocorreu exatamente a mesma coisa. Devo ter exercitado-me por talvez uma década ou mais, então novamente no momento certo e lugar certo, enfim conheci Rubem Fonseca. Refleti e decidi, o melhor da ficção, daqui para frente será devaneio à toa.
Só em momentos de extrema necessidade, e quando as alternativas diminuem ao mínimo, uso banheiro público. Foi na segunda vez da Feira da Vila Madalena - muita gente, neste instante do texto, mastiga uma deliciosa saudade -, na padaria da esquina da rua Wisard com a Fradique Coutinho; feliz ou infelizmente, hoje vestida de prada.
Procurei desesperadamente pelo menos uma seda, não encontrei, ou melhor, só encontrei uma - guardem esta imagem como talentosa metáfora do devaneio. Então, alguém havia deixado cair, já toda pisoteada, uma pasta de papelão, com decalques e tudo na capa, que deveria servir às minhas necessidades extremas do momento.
Mesmo antes de abaixar a calça até as canelas, olhei o conteúdo da pasta, 14 páginas grampeadas xerocadas do conto O Cobrador, de Rubem Fonseca.
Quando eu sai daquele banheiro de todo imundo, ficção nenhuma, nada mais deveria escrever, se tivesse que fazer melhor.
E são inúmeras lembranças semelhantes; quis ser jogador de futebol, então assisti um jogo do Santos no Pacaembú, um gol do Pelé de bicicleta e tudo; quis ser bombeiro, acompanhei o incêndio in loco do edifício Joelma; também quis ser policial à paisana, para isso então, quis ser psicólogo, psiquiatra e filósofo, como mero exercício de telento antes de propriamente exercê-lo, e aconteceu a mesma coisa; a última coisa que quis, faz pouco tempo, era ser imortal, e ainda estou na fase dos exercícios de musculação, mas não é fácil com toda esta memória ainda sobre os ombros.
O pior de tudo, o que realmente corrompe meu talento, é saber que minha corrupção não serve para mais nada além das pessoas acharem que é frescura, e esta atitude de todos, sem excessão, se repete infinitamente mais do que o total de tudo que eu seja capaz de lembrar, o que talvez me motiva a achar pensamentos, iguais àquele do primeiro parágrafo. Por tudo isso, às vezes até tento refletir-me como um paciente, propriamente necessitado, de terapia psicológica.
Para finalizar este post, então, deixo com voces um fragmento, a parte final do "poema", daquela inexpugnavelmente sensação dentro do banheiro na Vila Madalena.

Hoje é dia 24 de dezembro, dia do baile de Natal ou Primeiro Grito de Carnaval. Ana Palindrômica saiu de casa e está morando comigo.
Meu ódio agora é diferente.
Tenho uma missão.
Sempre tive uma missão e não sabia. Agora sei.
Ana me ajudou a ver.
Sei que se todo fodido fizesse como eu o mundo seria melhor e mais justo.
Ana me ensinou a usar explosivos e acho que já estou preparado para essa mudança de escala.
Matar um por um é coisa mística e disso eu me libertei.
No Baile de Natal mataremos convencionalmente os que pudermos.
Será o meu último gesto romântico inconsequente.
Escolheremos para iniciar a nova fase os compristas nojentos de um super mercado da zona Sul.
Serão mortos por uma bomba de alto poder explosivo.

Adeus, meu facão, adeus, meu punhal, meu rifle, meu Colt Cobra, adeus, minha Magnum, hoje será o último dia em que voces serão usados.
Beijo o meu facão.
Explodirei as pessoas, adquirirei prestígio, não serei apenas o louco da Magnum.
Também não sairei mais pelo parque do Flamengo olhando as árvores, os troncos, a raiz, as folhas, a sombra, escolhendo a árvore que eu queria ter, que eu sempre quis ter, num pedaço de chão de terra batida. Eu as vi crescer no parque e me alegrava quando chovia e a terra se empapava de água, as folhas lavadas de chuva, o vento balançando os galhos, enquanto o carro dos canalhas passavam velozmente sem que eles olhassem para os lados.
Já não perco meu tempo com sonhos.

O mundo inteiro saberá quem é voce, quem somos nós, diz Ana.

Notícia: O governador vai se fantasiar de Papai Noel.
Notícia: Menos festejos e mais meditação, vamos purificar o coração.
Notícia: Não faltará cerveja. Não faltarão perus.
Notícia: Os festejos natalinos causarão este ano mais vítimas de trânsito e de agressões do que nos anos anteriores.
Polícia e hospitais preparam-se para as comemorações de Natal.
O cardeal na televisão: a festa de natal está deturpada, o seu sentido não é esse, essa história de Papai Noel é uma invenção infeliz.
o cardeal afirma que Papai Noel é um palhaço fictício.

Véspera de Natal é um bom dia para essa gente pagar o que deve, diz Ana.
O Papai Noel do baile eu mesmo quero matar com o facão, digo.

Leio para Ana o que escrevi, nosso manifesto de Natal para os jornais.
Nada de sair matando a esmo,
sem objetivo definido.
Eu não sabia o que queria,
não buscava um resultado prático,
meu ódio estava sendo desperdiçado.
Eu estava certo nos meus impulsos,
meu erro era não saber quem era o inimigo
e por que era inimigo.
Agora eu sei.
Ana me ensinou.
E meu exemplo deve ser seguido por outros,
só assim mudaremos o mundo.
É a síntese do nosso manifesto.

Ponho as armas numa mala.
Ana atira tão bem como eu, só não sabe manejar o facão, mas essa arma agora é absoleta.

Damos até logo a dona Clotilde.
Botamos a mala no carro.
Vamos ao baile de Natal.
Não faltara cerveja, nem pirus.
Nem sangue.
Fecha-se um ciclo da minha vida e abre-se outro.