segunda-feira, 5 de julho de 2010

Não se abafa apenas ruídos!

"Só não lavei as mãos e é por isso que me sinto, cada vez mais limpo"(Ivan Lins)

Sobre mãos e bocas, e cópias do que não devem ser esquecidos
(Atenção leitores, para saber o que não fui eu que escrevi primeiro, basta pesquisar no Google; por exemplo, no discurso logo abaixo à foto, voce não apenas conhecerá o autor, como também reconhecerá um ponto de vista da vida que, por razões obscuras(?), roubam-lhe para operar a alienação invisível sobre seu enfado)

Pedalando por vias virtuais, encontro cada coisa estranha, coisas que jamais esperava, mesmo levando em consideração tamanha é a minha imaginação. E, a cada dessas coisas estranhas, minha atitude jamais é julgar, mesmo que seja flagrante, sua própria inviabilidade para o convívio entre seres humanos racionais e éticos.
Também encontro coisas inevitavelmente semelhantes, pensamentos e condutas tão quão ou mais ainda generalizadas que as minhas próprias; pensamentos e condutas que possuem como princípios invioláveis a fuga honrosa ao excesso de ruídos e silêncios amedrontados e ou amedrontadores, ambos como lados de uma mesma moeda vil oferecida para a traição e inação, e, o pior, o cultivo inconsciente aos delírios, irresponsabilidades e narcisismos de uma suposta eterna juventude; este lugar que seria sagrado sem as mãos perniciosas do Mercado do Espetáculo.
Encontro, enfim, para encurtar minha febre de verdade e liberdade, em respeito aos exíguos espaços que me permitem tal doença do amor aos meus inimigos, pessoas e organizações muito dignas de confiança, mas que, ao menor sinal de chuva, dor na barriga ou afeto incondicional, perdem tal virtude, como se a houvesse adquirido simplesmente para passar numa prova única que as aprovasse vida afora. A essas pessoas tento o mais que posso ser gracioso, aproximando-me também o mais que posso da simulação geral sobre um ditado de graça, "gentileza gera gentileza", perguntando-lhes: Até tu ages feito um Brutus?
  1. A meu ver, a arte não é uma diversão solitária. É um meio de emocionar ao maior número de homens oferecendo-lhes uma imagem privilegiada de dores e alegrias comuns. Obriga, pois, ao artista a não se isolar; muitas vezes elege seu destino mais universal. E aqueles que muitas vezes elegeram seu destino de artistas porque se sentiam diferentes, aprendem cedo que não poderão nutrir sua arte nem sua diferença senão confessando sua semelhança com todos. O artista se forja nesse perpétuo ir e vir de si mesmo aos demais; eqüidistantes entre a beleza, sem a qual não pode viver, e a comunidade, da qual não pode desprender-se. Por isso os verdadeiros artistas não desdenham nada; obrigam-se a compreender em vez de julgar, e se têm de tomar um partido neste mundo, este só pode ser o de uma sociedade na qual, segundo a grande frase de Nietzsche, não tem de reinar o juiz senão o criador, seja trabalhador ou intelectual.
  2. Pelo mesmo, o papel do escritor é inseparável de difíceis deveres. Por definição, não pode pôr-se a serviço de quem faz a história, senão a serviço de quem a sofre. Se não o fizesse, ficaria só, privado até de sua arte. Todos os exércitos da tirania, com seus milhões de homens, não lhe arrancarão da solidão, ainda que consinta em acomodar-se a seu passo e, sobretudo, se o consentisse. Mas o silêncio de um prisioneiro desconhecido, basta para tirar o escritor de sua solidão, cada vez, ao menos, que consegue, no meio dos privilégios de sua liberdade, não esquecer esse silêncio, e trata de recolhê-lo e substituí-lo para fazê-lo valer mediante todos os recursos da arte. Nenhum de nós é bastante grande para semelhante vocação. Mas em todas as circunstâncias de sua vida, obscuro ou provisoriamente célebre, enjaulado pela tirania ou livre de poder expressar-se, o escritor pode encontrar o sentimento de uma comunidade viva, que lhe justificasse a condição de que aceite, na medida do possível, as duas tarefas que constituem a grandeza de seu ofício: o serviço da verdade e o serviço da liberdade. E, pois, sua vocação é agrupar o maior número possível de homens, não pode acomodar-se à mentira e à servidão que, onde reinam, fazem proliferar as solidões. Quaisquer que sejam nossas fraquezas pessoais, a nobreza de nosso ofício arraigará sempre em dois imperativos difíceis de manter: a negativa a mentir respeito do que se sabe e a resistência à opressão. Durante mais de vinte anos de uma história demencial, perdido sem recurso, como todos os homens de minha idade, nas convulsões do tempo, só me sustentou o sentimento fundo de que escrever é hoje uma honra, porque esse ato obriga, e obriga a algo mais do que a escrever. Obrigava-me, essencialmente, tal como eu era e como arranjo a minhas forças, a compartilhar, com todos os que viviam minha mesma história, a desventura e a esperança. Esses homens - nascidos ao começo da primeira guerra mundial, que tinham vinte anos à época em que se instaurou, ao mesmo tempo, o poder hitlerista e os primeiros processos revolucionários, e que para poder completar sua educação se viram enfrentados depois à guerra da Espanha, a segunda guerra mundial, o universo dos campos de concentração, a Europa da tortura e as prisões - se vêem obrigados a orientar seus filhos e suas obras num mundo ameaçado de destruição nuclear. Suponho que ninguém pretenderá pedir-lhes que sejam otimistas. Até que chego a pensar que devemos ser compreensivos, sem deixar de lutar contra eles, com o erro dos que, por um excesso de desespero, reivindicaram o
  3. direito e a desonra e se lançaram aos niilismos da época. Mas sucede que a maioria de nós, em meu país e no mundo inteiro, recusamos o niilismo e nos consagramos à conquista de uma legitimidade. Foi preciso forjar-se uma arte de viver para tempos catastróficos, a fim de nascer uma segunda vez e lutar depois, frente a frente, contra o instinto de morte que se agita em nossa história. Indubitavelmente, cada geração se crê destinada a refazer o mundo. A minha sabe, no entanto, que não poderia fazê-lo, mas sua tarefa é quiçá maior. Consiste em impedir que o mundo se desfaça. Herdeira de uma história corrompida na qual se misturam revoluções fracassadas, as técnicas enlouquecidas, os deuses mortos e as ideologias extenuadas; em que poderes medíocres, que podem destruir tudo, não sabem convencer; em que a inteligência se humilha até pôr- se ao serviço do ódio e da opressão, essa geração deveu, em si mesma e a seu arredor, restaurar, partindo de suas amargas inquietudes, um pouco do que constitui a dignidade de viver e de morrer. Ante um mundo ameaçado de desintegração, no que nossos grandes inquisidores arriscam estabelecer para sempre o império da morte, sabe que deveria, numa espécie de carreira louca contra o tempo, restaurar entre as nações uma paz que não seja a da servidão, reconciliar de novo o trabalho e a cultura e reconstruir com todos os homens uma nova Arca da aliança. Não é seguro que esta geração possa ao fim cumprir esse labor imenso, mas o verdadeiro é que, por todos os lados no mundo, tem já feita, e a mantém, sua dupla aposta em favor da verdade e da liberdade e que, chegado o momento, sabe morrer sem ódio por ela. É esta geração a que deve ser saudada e alentada onde queira que se acha e, sobretudo, onde se sacrifica. Nela, certo de vossa segura aprovação, quisesse eu declinar hoje a honra que acabais de fazer-me. Ao mesmo tempo, depois de expressar a nobreza do ofício de escrever, quereria eu situar ao escritor em seu verdadeiro lugar, sem outros títulos que os que compartilha com seus colegas de luta, vulnerável mas tenaz, injusto mas apaixonado de justiça, realizando sua obra sem vergonha nem orgulho, à vista de todos; atento sempre à dor e à beleza; consagrado, enfim, a tirar de seu ser complexo as criações que tenta levantar, obstinadamente, entre o movimento destruidor da história. Quem, depois desses, poderá esperar do presente soluções já feitas e belas lições de moral? A verdade é misteriosa, fugidia, e sempre há que tratar de conquistá-la. A
  4. liberdade é perigosa, tão dura de viver como exaltante. Devemos avançar para esses dois fins, penosa mas determinadamente, descontando por antecipado nossos desfalecimentos ao longo de tão dilatado caminho. Que escritor ousaria, em consciência, proclamar-se predicador de virtude?

3 comentários:

Valéria Sorohan disse...

A arte da escrita é, sobretudo, um ato isolado de quem escreve; quando não lidas, são palavras ao vento.
Nunca uma palavra me salvou, Ainda assim, espalho-as para que a tempestade as leve, ou para que alguém me ouça. Basta um e terá valido à pena.

BeijooO*

Devir disse...

Meu blog está sempre aberto para grandes comentários. O sentimento ora de carona ora nas palavras, autentica ou não sua entrada para a história.

beijo

Devir disse...

No filme tem uma cena simplesmente genial, onde o diretor mostra todo seu amor pelas mulheres, quando das milhares de sementes do carvalho somente uma vai rebentar.
Refletindo, não é surpresa para mim, toda a dificuldade de eu encontrar uma publicidade para nosso devir.
O devir é agora, quando escrevo, e vai ser outro no agora de voce lendo.
E meu amor, Valéria Sorohan, sofre com isso, porque não se desliga da vida, a qual só não inclui a mentira. Por isso, contra sua formação, meu Deus é a dificuldade de crer, e Ele é, sem nenhuma dúvida, sem qualquer preferência, sem toda esperança.
Deus, de onde tudo deriva, é também o abafo e ao mesmo tempo o que jamais se abafa, quando se trata da natureza.
Assim seja o vento fundamental!!!

Beijo