quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Na altura do rarefeito viver



WARY WAY WAR in walk man
(este é um texto de ficção, qualquer semelhança ou extremunção será mera coincidência)

Space Dementia - Muse

Escrevo
para pessoas
na esperança
- não há outra forma!

Jamais me abandone
seja na dor, ou na tristeza
seja no prazer, ou na alegria
- não há outra forma!

Estou internado no sétimo andar do Edifícil Central, HC
Cheguei as 7:22 hs, pensei, agora sou um nome, só o nome
- Vai se acostumando, as horas são as vértebras desta aventura
logo poucas pessoas se transformam em muitas, Enzo ao ouvido

Road to Perdition - Thomas Newman

Fui chamado para transplante de rin
Em casa, o telefone tocou 7:38hs, depois das formalidades
a Adriana pergunta. - Voce quer fazer o transplante?
respondo. - Esperei apenas 15 anos, e é a segunda vez
Creep - Radiohead

Meu irmão Elves entra bufando pressa
a mala ainda com a etiqueta sobre o sofá
minha mãe pula em meus ombros e me beija
na porta reabsorvo meu filho, primeiro abraço de homem

O carro voando pela rodovia, o vento no rosto
imagino o doador sofrendo diversas mortes
lembro do Alcides, completamente dôido, de raiva
recebeu o rin de um menino que fazia roleta russa

O primeiro transplante fiz na Beneficiência Portuguesa, paguei
e recebi. Tive apenas um ligeiro desconforto, deitado na mesa
prometi uma garrafa de wiske para relaxar o cirurgião, depois
de sete dias, ele cobrou, na pressa apertou o enxerto, de raiva

Sweet Jane - Patti Smith&Leonard Cohen

Nem uma letra ou suspiro mais profundo
tem influência alguma sobre a droga, o passado
na forma mais perversa marca a ferros nosso dorso
apavorante tatuagem, exasperante humanidade

Babelogue - Patti Smith
Deixar de lado escritas inspiradas
deformações artificiais da metáfora, de montagens
- o sonho do jovem arquiteto que construiu maquete do mundo
e certo dia ali encontrou alguem que havia esquecido

Alone(acústico) - Pearl Jam&Alice in Chains

(Ela)me encontra no corredor, uma guerreira, de fato e ninja
situação deslocada, febre sem tratamento, excitação
sensação de duelo, de brincadeira, do maravilhoso, de sublime
- "A vida é um desafio, meu bem, com ou sem seu pijama, ahah."

Thiss Mess We're In - Thon Yorke&PJ Harvey

No quarto, duas camas, dois homens pacientes, sobrevidas
o diálogo contornando fatalidades, lembrando erros
a saudade condensa o ar, o lado de fora na janela, mais saudade
o olhar recusa nossa origem ao fastio de silêncio, útero

Meu parceiro, Alfredo, motorista e dono do caminhão, procupado
- Meu cunhado já deve ter vendido o caminhão, com certeza!
E não pode comer, beber, pensa que não pode fazer nada
animo-o com piadas e psicologia das reações reflexas

Dia e noite, a porta no canto, abre e fecha toda hora, entra sai
enche a garrafa de água, esvasia, lava, troca o cesto de lixo vasio
olho a janela, Alfredo parado, páro, Alfredo olha a janela, TV TV TV
de repente, uma dama de branco entra em câmara lenta...
Sheela Na Gig - PJ Harvey

Porque sou o único louco ali naquela madrugada fechada
ela me joga na cama, olha na minha calça e ri, vagabunda
joga minha calça pela janela sobre as luzes da cidade e ri
destroi a tv, todo o cenário e senta sobre mim, a vaca ri...

Who The Fuck - PJ Harvey

A luz se acende, entram enfermeiras, termômetro, balança, amanheceu
a dama ainda pula, determinada a domar seu tigrão, vagabunda
todos espantados, meu suor inundando, ela batendo nas paredes
gritando, socando o teto, a vidraça se rompe, a cama voa...

Grow Grow Grow - PJ Harvey

Ela se recompõe em uma mulher frágil, olhar profundo em mim
vai se afastando lentamente - Adeus mami, adeus papi, adeus Ti
os cabelos molhados, estende as pontas dos dedos, suavemente
toca nos meus lábios uma recalcitrante lágrima e desaparece

Nothing Compares To You - Sinnead O'Connor

Acordo com a Tereza enforcando meu braço - Teve febre, teve?
Não respondo, escuto meu coração:eunão eunão eunão eunão...
Marisa arranca o cobertor - Aqui não precisamos de moleza
vai tomar banho, depois vamos fazer barba cabelo e bigode

Risingson(Underword mix) - Massive Attack

Entra a comitiva médica e sussurram e conversam e olham
o Alfredo foi transparecendo até desaparecer, eu queria fugir
minha vez, acompanhei até - Pode subir, ele está bem, opere
Então também desapareci, Alfredo estava em lamaçais...

Chop Suey - Sistem of a Down

As lâmpadas voando, o Bigode vai brincando - Rapidinho
na bacia de aço lavam o rin da cor de uma lula, 10, 9, ...
depois, na sala de recuperação, UTI pós cirurgia, a dor
perguntei para Deus, por quê?, imploro um anestésico

O anestésico não é onipresente, onisciente e nada
- Precisamos saber porque está doendo, paciência
A vida então sem filtros, sem assopros, sem marcas
não suporto receber a mais do desejo e necessidade

Retrato em Branco e Preto - Elis Regina

Uma sonda no meu pau, banho de pano e descarícias, dó
o corpo retoma irrestrito controle, o teatro fechado, pó
as pessoas dentro de um monitor, luvas nos olhos, brancas
impostura da ausência de cores, pretas, exaspero, histórias

Caladas, criaturas negadas ou adoradas ao sacrifício, real
Estou na enfermaria 364-B, a sopa colorida esfriando, Jordano
eterno menino e senhor, doutor, faz sinal da cruz ao Nietz
juraria, apontando a parede, Schop foi um desmiolado santo

Gisela olha impressionada o ratinho negro do laboratório
tentando se comunicar, patinhas dinhateiras tocando o vidro
furtivamente ela abre a tampa. Perdi a conta, tempo superfluo
quantas vezes quis furtivamente deitar a cabeça em seus ombros

Chorar, em 34 dias, tres vezes, faltou pouco. Sempre, quase chorando
Lucia, astuta, guerreira deusa índia, entra no quarto, lente no olhar
- Voce está bem, puxa!, já pelo menos sentou na cama, e a urina?
- Esse aí está se divertindo. - Conheço a raça. - Faria entender? - Eu?

Segunda Juliana, a verdadeira firmeza, amaria vencê-la na quebra
não me ajuda a levantar, levanta-me e sente prazer, algo sublime
e consegue dar notícias do que vai no ar, supõe políticas e brinca
- Creio que o brasileiro não sabe o que é isso. - Nem todos, fui!

At Home he's A Tourist - Gang Of Four

Anjos na frente das balas, a juventude, estudantes invadem
Alessandra, curiosa, lábios marrons dourados, caneta niquelada
- E como voce faz para respirar? - Tenho em mente o trajeto
Ela vai em fração de segundo volta. - Eu nasci em Franca, SP

What We All Want - Gang of Four

A enfermeira da noite, saiu de um canto na Europa, guerreira
Eu estava empapado e injuriado, vendo a parede na distância
o planeta é uma pelota escrota ali suspensa no escuro, vou...
Ela entra no quarto, pára do lado e aguarda, seus olhos, tesão

Guns Before Butter - Gang Of Four

O corredor, bom dia, bom dia, bom dia, oi, bond, bem, bum
arrastando um recipiente pelo pau, de cachecol, O Plástico
segue o vento pelo segundo corredor, uma pequena artéria
blaze azul entre milhares de aventais brancos, sabedoria, paz

proper education - eric prydiz vs pink floid

Comites, conversas de almoços, assaltos pela biblioteca
dasaparecem toda a história do hospital, ninguém é ninguém
rastro de pólvoras sob solas, na cozinha Nhá Nhá crua o frango
urólogos e rinários selam planos, coração bate lentamente

Antes dos nomes aprendemos de quina, escanteio e sinuca
a bela senhora elegante sobre tudo musgo perfura a cartela
sou um pobre diabo, faz de conta que jamais ganhei no bingo
senhora bondosa criou a auto ajuda - A Neidinha quer falar, vem

Where Is My Mind - Pixies

- Pare, deixe a brincadeira de fora, antes de tudo não existe
porque voce não pensa que é voce sempre depois de tudo?
Neide é amiga do pequeno polegar, uiva entre panos do céu
plano tênue, confundir o anão dunga, coruja vista durante o dia

Criminal - Fiona Apple

Ela teria coragem de enfrentar meus fantasmas para me salvar
só não sabe o que faria depois - Ora, não vai restar nada, depois
- É o plano, ou não? - Então, o que vamos fazer depois, diz voce
- E depois, e depois, memórias na mala, etiqueta e esquece, ok?

Shadowboxer - Fiona Apple

Passo pelo corredor da enfermaria e não vejo sequer luzes no piso
nem sou visto pelas pessoas, anonimato é prazer, horror e delírio
entro no quarto como quem não tem pressa para vomitar e vomito
Alcanço e aperto a campanhia para chamar ajuda - Estou morrendo

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Das equiparações involuntárias


Para ser menor que o universo

Desde muito pequeno, talvez do tamanho do pé de meu pai, percebi a força que a saudade mais recente impõe à nossa humana forma de pensar.
Alguns anos mais tarde voltei ao tema, quis saber como controlar essa força oriunda da saudade.
A força é maior quanto mais recente for o fato.
Tentei enumerar; o zero na divisão dos números positivos aos negativos ficaria no ponto onde perdemos a certeza se determinado saudoso fato realmente aconteceu.
Então reservei, creio, quase uma década de vida para classificar as minhas, e também de todas as pessoas que melindravam suas saudades.
Quando ocorreu um imprevisto neste aparato racional.
Eu havia mudado de Marília, SP, para São Paulo, capital, e, na primeira viagem a passeio para rever os parentes, encontrei uma menina, a Marília - hoje se tornou uma excelente criminalista - que tinha na face o que seria quando adulta.
Ficamos de namorico no portão de sua casa até o último momento.
Quando voltei, de ônibus, olhando as estrelas, não recordava suas carícias, mas aquela visão da face da Marília, apaixonante para um menino, que seria o que sou.
(Minha amada amiga Dnyelle, sorri e diz, não disse, não disse, são só seus olhos!)
E me perguntei: Quê saudade era aquela?
Aonde a colocaria em minha escala matemática?
Eu tinha certeza? Poderia aceitar como fato real?
Tudo bem, que atualmente comprovo aquela excelência da imagem, mas ela podia, ou poderia ter-lhe acontecido qualquer outra coisa na vida.
Pensei, então na possibilidade, com 12 anos de idade, no futuro de números supra reais, e, conforme tão bem aludiu Borges, em seu conto A Biblioteca de Babel, transformando os números em finitos, abandonar as classificações atemporais, descartar meu método anterior, principalmente o ponto zero.
A saudade, portanto, infinita, seria descrita exclusivamente com as palavras.
Ela perderia qualquer apreensão singular.
Percebi que havia avançado bem mais à frente da média da civilização.
Vivia momentos de glória em todo lugar, e toda glória cobra um preço maior do que a média.
Maior ou menor, neste caso, não significa classificação; matemática proporcional.
Entende-se melhor como um estado mais operante do que aquele aludido ao ditado: Deus dá o frio 'conforme a quantidade de cobertor'.
Onde portanto me encontro: Deus dá o sono 'conforme a qualidade do cobertor'.
Tudo muito simples, feito passe de mágica, tão segredado, que nem mesmo questionamos a legitimidade 'do truque',
servimos-nos voluntariamente ao espetáculo lúdico.
De alguns anos para cá, quero avançar mais um pouco na média da civilização.
A mesma me insulta, ameaça e ressente minha existência,
mas isso é só sadomasoquismo, mania muito apreciada pelo pensamento médio.
Entre o máximo e o mínimo, uma rara sorte sobrevive aos fogos cruzados.
Faz parte da minha vontade de avanço escolher o mínimo esforço
de artilharia, literária, obviamente.
Talvez, quando li o conto do Pequeno Polegar, de Gaston París, fui influenciado decisivamente.
Separei mínima passagem do conto - explicado!!! - no livro A Poética do Espaço, de Gaston Bachelard, tradução de Antõnio da Costa Leal e Lídia do Valle Santos Leal, Abril editora.

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No caso de uma miniatura contada, como é o caso do conto do Pequeno Polegar, parece que se encontra sem dificuldade o princípio da imagem primeira: a simples pequenez vai facilitar todos os feitos.
Mas, examinada de perto, a situação fenomenológica dessa miniatura contada é instável.
Está, com efeito, submetida à dialética do maravilhoso e da brincadeira.
Um traço a mais basta às vezes para deixarmos de participar da surpresa.
Num desenho, admiraríamos ainda, mas o comentário ultrapassa os limites: um Polegar,
citado por Gaston París, é tão pequeno "que fura com a cabeça
um grãozinho de areia e passa por dentro do grãozinho."
Outro é morto pela patada de uma formiga.
Nenhum valor onírico neste último traço.
Nosso onirismo animalizado que é tão forte, no tocante aos animais de grande porte, não registrou os fatos e os gestos dos animais minúsculos.
Do lado do minúsculo, nosso onirismo não vai tão longe quanto nosso onirismo vegetal.
(Notemos no entanto que alguns neuróticos pretendem ver micróbios roendo seus órgãos)
Gaston París observa bem que, nessa situação em que o Polegar é morto pela patada de uma formiga,
chega-se ao epigrama, a uma espécie de ofensa pela imagem que exprime o desprezo pelo ser diminuído.
Estamos diante de uma contraparticipação.
Encontramos esta forma entre os romanos; um epigrama da decadência,
dirigida a um anão (dizia): "A pele de uma pulga faz uma roupa larga demais para voce".
Em nossos dias ainda, acrescenta Ganton París, as mesmas brincadeiras podem ser encontradas na canção do Petit Mari (Pequeno Marido).
Gaston París dá aliás essa canção como "infantil", o que não deixará de espantar os nosso psicanalistas.
tres quartos de século, os meios de explicação psicológica cresceram bastante, felizmente.
Mas então, para participar realmente do conto, é preciso desdobrar esta sutileza do espírito em uma sutileza material.
O conto nos convida a nos "envolvermos" nas dificuldades.
Ou seja, além do desenho, é preciso tomar o dinamismo da miniatura,
que é uma instância suplementar.
Que ânimo recebemos então do conto se seguimos a casualidade do pequeno,
o movimento que nasce do ser minúsculo agindo sobre o maciço!
Por exemplo, o dinamismo da miniatura é frequentemente revelado pelos contos em que o Polegar,
instalado na orelha do cavalo, é senhor das forças que puxam o arado.

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O que tem isso a ver com Saudade?

Tudo! Tudo que escrevi por aqui.
Porque a saudade é o mínimo de amor
indiferente ao que recebem
que as pessoas podem dar em troca
e devemos agradecer;
poderia tão pior ser somente nada.

domingo, 27 de setembro de 2009

America Latina, branca no eterno ensaio



As Ruínas Circulares
(Jorge Luis Borges
Ficções - Editora Globo
tradução Carlos Nejar
1982)

Compreendeu, com alguma amargura,
que não podia esperar nada daqueles alunos
que passivamente aceitavam sua doutrina e sim
daqueles que arriscavam, às vezes, uma contradição
razoável. Os primeiros, embora dignos de amor e afeição,
um pouco mais.

Uma tarde
(agora também as tardes eram tributárias do sonho,
agora velava apenas um par de horas no amanhecer)
licenciou para sempre o vasto colégio ilusório e ficou
com um só aluno.

Era um rapaz taciturno, citrino, indócil
às vezes, de feições afiladas repetindo as de seu sonhador.

A brusca eliminação de seus co-discípulos não o desconcertou
por muito tempo;
seu progresso, no fim de poucas lições
particulares, pôde maravilhar o mestre.
Não obstante, sobreveio
a catástrofe.

Se eu pudesse viver novamente a minha vida,
na próxima trataria de cometer mais erros.
Não tentaria ser tão perfeito, relaxaria mais.
Seria mais tolo ainda do que tenho sido.
Na verdade, bem poucas coisas levaria a sério.
Seria menos higiênico, correria mais riscos, viajaria mais.
Contemplaria mais entardeceres, subiria mais montanhas,
nadaria mais rios.
Iria a mais lugares onde nunca fui, tomaria mais sorvete e menos lentilha,
teria mais problemas reais e menos imaginários.
Eu fui uma dessas pessoas que viveu sensata e produtivamente
cada minuto da sua vida: claro que tive momentos de alegria.
Mas se pudesse voltar a viver,
trataria de ter somente bons momentos.
Eu era um desses que nunca ia à parte alguma sem um termômetro,
uma bolsa de água quente e um pára-quedas:
se eu voltasse a viver, viajaria mais leve.
Se eu pudesse voltar a viver,
começaria a andar descalço no começo da primavera
e continuaria assim até o fim do outono.
Daria mais voltas na minha rua, contemplaria mais amanheceres
e brincaria com mais crianças, se tivesse outra vez uma vida pela frente.
Mas, já viram, tenho 85 anos e sei que estou morrendo.
O homem, um dia, emergiu do sono como de um deserto
viscoso, olhou a luz vã da tarde que, à primeira vista, confundiu
com a aurora e compreendeu que não sonhara.

Toda essa noite
e todo o dia, contra ele se abateu a intolerável lucidez da insônia.

Quis explorar
a selva, extenuar-se;
somente alcançou entre a cicuta aragens de sonho débil,
listradas fugazmente de visões de tipo rudimentar: inaproveitáveis.

Quis congregar
o colégio e apenas havia articulado algumas breves palavras
de exortação, este se deformou, se apagou.

Na quase perpétua vigília,
lágrimas de ira queimavam-lhe os velhos olhos.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

PxR cheque mate = Xadrez avançado

Torres gêmeas durante o ataque de torpor U$americano

Não só assisto as Deusas

Dizem dos conflitos oriundos das profissões,
dos conflitos que se misturam
ao problema existencial geral do ser.

O mundo
pode se tornar uma esfera muito pequena,
e toda a grandiosidade do universo a vastidão opressora.

Minha atenção, por exemplo,
se volta ao profissional do ensino,
mais atentamente
ao alcance após o método obrigatório.

A partir do momento quando arregaça as mangas,
olha nos olhos de cada ser,
antes de pontualmente alunos,
percebe a verossilhança inquestionável.

O instantâneo do espelho
subjetivo e, mais que intuir,
se esforçar a entender o próprio ser
na imagem refletida em outros olhos.

Nosso desejo seria plenamente satisfeito
se pudéssemos atuar, desenhar a própria imagem vista,
diferente da transferência infantil,
ou mensurá-la de uma tal maneira
que o desejo não encontrasse outra direção.

Experimentamos em inúmeros momentos
com ternura lúdica
a "certeza" de que o ser é maior que o universo.

Esta é a razão da opressão;
conter o universo dentro do mundo,
em todos casos, exemplarmente,
este mundo ainda é tão somente um quadro dado;
como viver uma aula de cada vez, somente
e toda a matéria estivesse escrita apenas no blackboard.

É como se o tempo imediato,
outras pessoas, livros, 'em si', passado, presente e futuro,
os nomes,
tudo além do determinado para a aula,
fosse inapreciável.

Cada aluno, uma criança 'em si' ou
introjeção de um personagem literário (mediatizado),
cada compôser somente da família
e amigos escolhidos por critérios de ordem ou perversão da ordem,
cada ser animal biológico, uma síntese intrusubjetiva eficiente e operante,
sem descanso nem compaixão,
fossem coniventes para o 'ideal' de vida.

Porém, ser idealizado não é ser,
é apenas a virtual satisfação,
com ou sem adjetivos,
do desejo de ser.

Toda esta nostalgia da infância, marcada ou não por 'tragédias'
não tem nem deve haver motivos de ressentimentos.

Também não é preciso sublimação,
quando o desejo, diretamente da saudade
- ainda afetada -
irromper por momento.

Basta manter o objetivo de ensinar,
neste caso, claro, sem o método determinado

Neste momento 12:39hs
nesse exato instante acontece uma explosão
em algum lugar
ligo a televisão
foi no ABC, uma fábrica de fogos
um universo paralelo


lembro quando cheguei no departamento
todas as pessoas falando de um avião que bateu em um prédio
corri para minha sala
lá estavam meus companheiros, minha equipe
a Gláucia disse "voce ainda não viu?" e apontou para a TV
outro universo paralelo


quando o segundo avião bateu no segundo prédio
eu cai para o lado
sentei em minha cadeira
como se tivesse levado um tiro no peito
e não me restasse mais nada da vida
além de assistir a morte


e olhava as imagens
em certo momento um ser humano voava no vento...


Qual é a minha vontade de permanecer vivo?

Coloco o fone ao ouvido para ouvir for you, Triumvirat,
e choro,
e penso
como podemos ser o que somos,
como podemos chegar a este ponto,

e retiro o fone, aumento o som da TV
e queria ouvir o relato mais simples do acidente,
queria ouvir sem me sentir impossível,
não queria me sentir impossível
e assim o conhecimento de acidentes
quando há mortes
não me incomodasse,
queria mais que tudo ser exatamente à minha imagem,
não consigo,

a dor, sem poesia,
no peito, as pessoas em mim.

Então não sei mais qual é a minha vontade de viver,
já não posso mais querer saber
sem ser capaz de esquecer as pessoas.

Como poderei esquecer o sofrimento?
Como pode ser humano e esquecer o sofrimento?
Como posso ter vontade de viver
para esquecer?

Lembrar somente quando outro acidente
chamar minha atenção, beyond the pale
nenhuma diferença faz a consciência nos fatos?

Qual profissional é responsável dessa matéria?

O fantasma da ópera não quer se vingar
não vai cobrar seu profissionalismo
e responsabilidade
que foram roubados aos tempos em média:

Tempo de ser comprimido
dentro da imagem suficiente
Tempo de ser deprimido...

Ou agir, vestir a camisa, assumir o Saco Santo
o mesmo ponto de vista de Deus
sem urras espirituais nem merchandaizin's do corpo

Ser professor, ser político
ser artista e reservar o tempo possível
para redesenhar um outro mundo mais real

Se engajar porque
não podemos nos deter
e precisamos portanto
talvez para valer a pena morrer
ou matar
pela matéria vida
trabalhar
pela coisa viva

pela coisa mais caótica
e imprescindível
do que o espelho

o caótico que vê
o outro
caótico e quebra
os espelhos

demasiadamente assumido portanto
em não abandonar este mundo
sem ter feito o melhor

estudar, aprender
porque tudo é apreensível
porque (entre aspas)
nada é qualquer coisa!

(a tempo: cansado de supostos "banho de chuva")

§

Extra
Acabei de assistir à propaganda politica do PPS
e não vi/ouvi nenhuma novidade, o mesmo discurso
a mesma crítica deslavada, igual à "burguesia&crime"
oportunamente apoiada/centrada no partido de posição
isso quer dizer, que vai ser pior que a Dilma
e só a Marina ainda me faz pensar pensar pensar
mas como É política partidária, jamais história de um
vou por enquanto de PT, até que outras mostrem a cara
se acaso tenha uma, para além de suficiente; eficiente!!!
porque o resto tem a mesma fisiologia dos jogos sujos

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

CURTA METRAGEM


Comfortably Numb

Voce me pergunta por onde passamos esses anos, e eu nem mesmo posso responder, talvez jamais soube o que significa o meu tempo. Talvez apenas nos cansamos de nossa isolada satisfação, de nossos sonhos, como se esquecêssemos para sempre quando podíamos estar em grupo e tudo que falamos vai se tornando algo artificial, sem o passado que guardava apenas as melhores recordações. Estou ficando também cada vez mais eu e meu carro, como certo dia a vi cantando na frente do computador...

É verdade, antes não planeávamos nada e era como se todos os dias estavam marcado na agenda, só variava os momentos, víamos a mesma lua toda noite...

Eis porque tenho me preocupado, a vida se tornou a própria questão de vida ou morte, recuse-a e viva, aceite-a e morra, nesta inversão estamos todos, talvez muito gravemente eu e minhas hipocondrias que vem como condicionais a cada impulso de questionamento do Estado. Estamos todos condicionados para a mais brutal solidão que o ser humano só não poderia prever se estivesse entorpecido.

Eu estou entorpecida, voce não? Entorpecida para transformar esta porcaria toda de mentiras politicas em assunto de museu, para quem quiser lembrar.

Rss... preciso beber qualquer coisa. Preciso fumar qualquer coisa. E não preciso comer voce neste instante, algo de muito grave começou a acontecer depois destes momentos, que venho percebendo a dias, reparou quando saí do banheiro, eu estava branco, não havia uma cor sequer em minha face, e o arco íris só aparece nas mudanças mais profundas do tempo, mas que as pessoas só enxergam o fim ou começo da chuva, a volta ou a partida do sol...
A comédia de Dante! Quando começamos a pensar, conscientes dos pensamentos, é como se algo nos forçasse à comédia, e a contra partida seria um horror antecipado ao drama, mas estes nomes da literatura não dizem mais, ou não os ouvimos. Caiu no desdomínio público, rss.

Uia! Endureceu de novo.

(...) A vida não comporta determinadas evoluções em cada vez mais áreas restritas aos especialistas de média. Pensar sobre o que pensamos sobre casamentos, por exemplo.

Nem venha com esta conversa, voce é igual a todo homem. Uma profundidade aparente, depois se tornam aquela piscina de sempre lá de casa. Meu irmãozinho se diverte, ele me chama para brincar, pobrezinho, eu desaprendi a brincar.

Estou morrendo, não vou mais cair na sua. A paz celestial deve existir, o ser humano...

Ser humano.

... não pensaria.

Aiii..., não. Vamos abrir a janela. A mortalidade infantil, a violência juvenil, o estupro adulto e a sacanagem senil, a geleia real me aguardem. Vou fazer um café, Amor.

Não esqueça sua arma, vou capotar até voce voltar.

Voce está louco? Já me viu sem minha arma?

Desarmada, voce, aaahhhnuuuuuunnnnnnncahhh. Uhm, estou com fome.

Não vou fazer nada. Sai comigo, a gente pára para comer e tomar um bom café.

Não. Voce disse que ia fazer um café, bom, salvador e forte. Enquanto isso tomo banho e visto finalmente uma roupa.

É... voce vem assistindo demais o declínio do império americano. Nem trabalha mais, ser polícia nessas terras brasileiras a perder de vista... filho-da-puta, nem mesmo fecha a porta tomando banho, qualquer dia o bandido entra... eu também sinto uma angústia diferente, qualquer coisa intraduzível, talvez estamos perdendo a tão cantada identidade, a quanto tempo não sou cantada, quanto vale um salto na vida, desci mas hoje tenho uma responsabilidade amplamente respeitada, adeus meus anseios de navegar, quis pegar a lancha de papai e chegar até a África, tonta, só lembrei do combustível, tonta tonta tonta, do tanque, que decepção...

ESTÁ FAZENDO O CAFÉ, pelo menos?

Eu faço suco de laranja, faço torradas, reencarno um esverdeado provolone e faço um maldito miserável forte café, faço a mesa, e se a profissão não me ensinasse a ser dura, passaria um pano na pia, na casa inteira. E o pior, que, se eu pensasse feito um homem, eu tiraria a roupa e antes de sair daria uma rapidinha, essa só para marcar território. A vida a dois está uma comédia, dantesca literalmente, a teoria se dissociou da prática de vez, é como se vivêssemos feito flor, feito animal, somos obrigados ou humilhados se pensamos no que todos pensam na vida.

§

O automóvel corre, a lembrança morre
O suor escorre e molha a calçada
Há verdade na rua, há verdade no povo
A mulher toda nua, mais nada de novo
A revolta latente que ninguém vê
E nem sabe se sente, pois é, pra quê?
O imposto, a conta, o bazar barato
O relógio aponta o momento exato
da morte incerta, a gravata enforca
o sapato aperta, o país exporta
E na minha porta, ninguém quer ver
Uma sombra morta, pois é, pra quê?
Que rapaz é esse, que estranho canto
Seu rosto é santo, seu canto é tudo
Saiu do nada, da dor fingida
desceu a estrada, subiu na vida
A menina aflita ele não quer ver
A guitarra excita, pois é, pra quê?
A fome, a doença, o esporte, a gincana
A praia compensa o trabalho, a semana
O chope, o cinema, o amor que atenua
O tiro no peito, o sangue na rua
A fome a doença, não sei mais porque
Que noite, que lua, meu bem, prá quê ?
O patrão sustenta o café, o almoço
O jornal comenta, um rapaz tão moço
O calor aumenta, a família cresce
O cientista inventa uma flor que parece
A razão mais segura pra ninguém saber
De outra flor que tortura, pois é, prá quê?
No fim do mundo há um tesouro
Quem for primeiro carrega o ouro
A vida passa no meu cigarro
Quem tem mais pressa que arranje um carro
Prá andar ligeiro, sem ter porque
Sem ter prá onde, pois é, prá quê?

domingo, 20 de setembro de 2009

Doctor House


Ele sofreu muito para não morrer; as consequências de ser atropelado sem acidente visível, no casamento, acentuou sua obsessão pela solidão, que sempre o atormentou, e a todos a sua volta, desde o nascimento.
No ano 2000, precisamente na véspera, precisamente as 10:00 Hs do dia 31 de dezembro, depois de meia década de insistência dos raros amigos no hospital, onde exercia residência, aceitou acampar em um dos inúmeros point do Big Canyon, para receber por último o hálito do terceiro milênio.
Estava ele e seu fiel companheiro, acompanhados de sete médicas jovens.
Com excessão de uma, sempre considerada a ovelha negra da família, todas as outras disseram que foi um fracasso, nunca se viu tamanha estupidez de convivência.
Ficariam até 5 de janeiro, mas a maioria se revoltou, e deu-se terminada qualquer possibilidade de descanso e entreternimento.
Ele conseguiu somente ter uma única relação sexual, apesar da exorbitante oferta, não por fraqueza física; ele delirou com o trabalho.
Eu conheci a sua ovelhinha eternamente rejeitada, em 2002, quando ele a abandonou (conclusão na média) na praia Vermelha da Ilha Grande, RJ. Ela me contou aquela experiência. Segundo suas palavras: "by leaps and bounds, but unforgettable!".
Ainda não haviam anunciado quem ganharia o primeiro Prêmio Nobel de medicina do terceiro milênio, e ele disse que já sabia, espantosamente, que seriam três.
Enquanto todos o atiçavam para revelar suas fontes, ou o desdenhavam com a pernóstica certeza que seriam visões de um viciado em analgésicos, ele afirmava exaustivamente que bastava compreender o curso da história e ignorar a história das disputas veladas pela visibilidade e dinheiro de quem ganha tal prêmio.
"Zero hora, no intervalo entre um milênio e outro, ele estava solitário sobre uma rocha tão alta, a festa que fazíamos foi ofuscada pelo mistério; não havia meios científicos que explicasse como ele conseguiu subir àquela altura."
Diz ela, que ele só contou este e inúmeros mistérios daquele acampamento, meses depois, talvez por culpa logo após ter sido pego em fragante com uma estagiaria japonesa, e somente depois de ouvir o juramento de que não contaria para ninguém. Não queria seu nome elevado a nenhuma categoria, laica ou erudita.
Temia que seus "atributos" de ser, fossem atribuídos a qualquer força demasiadamente natural, tampouco ao sobre natural.
Eu e ela passamos um mês naquele paraíso, na casa de uma senhora tão simultâneamente ignorante e sábia, que cozinhou uma raia inesquecível.
Quando voltei para casa, depois de "abandoná-la" em Campos do Jordão, SP.
Em casa fui conferir aquela história, deste médico espetacular, cujo véu foi costurado a mão, sem sequer um fio artificial ou manufaturado.

Nobel de Medicina - 1999

Günter Blobel
, nasceu em 21 de maio de 1936 em Waltersdorf, na Silésia, Alemanha.
Em suas pesquisas na Universidade Rockefeller, começou a estudar como as proteínas encontram seu caminho dentro das células vivas.
No início da década de 1970, descobriu que as proteínas contêm um sinal que funciona como uma espécie de código postal, mostrando onde elas devem ir dentro da célula.
Com base em experimentos bioquímicos, descreveu, em 1975, as várias etapas nesses processos.
Essas descobertas explicaram com exatidão a causa de algumas doenças genéticas causadas pela má localização das proteínas.
Recebeu o Prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina pela descoberta de que as proteínas tem sinais intrínsecos que direcionam seu transporte e sua localização na célula.

Nobel de Medicina - 2000

Arvid Carlsson, nasceu em 25 de janeiro de 1923 em Uppsala, Suécia.
Recebeu o prêmio por ter descoberto que a dopamina é um neurotransmissor e tem grande importância para o controle da motricidade.
Seus estudos permitiram descobrir que a doença de parkinson é causada pela falta de dopamina em certas partes do cérebro.
Ele também demonstrou o modo de ação das drogas usadas para o tratamento de esquizofrenia.

Paul Greengard, nasceu em 11 de dezembro de 1925 em New York, US.
Recebeu o prêmio por sua descoberta sobre como a dopamina e vários outros transmissores exercem sua ação no sistema nervoso.

Eric R. Kandel, nasceu em 7 de setembro de 1929 em Viena, Áustria.
Recebeu o prêmio por suas descobertas sobre como a eficiência das sinapses pode ser modificada e qual o mecanismo molecular de que elas participam.
Ele demonstrou como as mudanças na função sináptica são importantes para o aprendizado e a memória.

Fonte: Prêmio Nobel de Medicina: da pesquisa à conquista - Lemos Editorial

Lembro que na época, poucos recursos financeiros e ainda não haviam criado o wikepédia, fiquei sem entender bolhufas, como o Doutor House conseguiu prever.
Claro que acredito - no caso, muito tempo depois, confirmei - que qualquer ser humano seja capaz, dentro de um contexto lógico, fazer previsões do futuro.
Claro também, que ele, como ser humano, nem muito nem pouco natural, jamais admitiria qualquer lógica provida do outro.
Isso não me faz nem um pouco incomodado por ele ter mais(ou menos) atributos que a média. Exercício de verdadeira democracia, somente.
Tenho um post pronto sobre o mais pertinente para nós, mortais, sobre o cérebro, algumas partes que envolvem as sinapses.
Não o publico agora porque o tempo sim ou não necessariamente urge, rss.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

"Amor virtual é um saco"


Por que não enxergamos apenas o véu?
Por que não nos perguntamos qual era o prazer de vesti-lo?
Mas de repente, ficou tarde.
Em meio a tantos amores
que vão ficando tarde até neste momento.

Aonde vão parar todos os véus?
E não adianta esperar a resposta,
confortavelmente fingindo não ouvir Air on a G String
tocando dentro do próprio véu.

E não adianta sequer construir palácios poéticos,
castelos de ficção, não adianta
se tornar o mitológico arqueiro inglês
e inverter todos os cursos d'águas,
levantar diques, exportar
perícia e localizações de alvos fáceis
ou prestes a servi-lo, não adianta
qualquer visibilidade a conquistar
pelos mecanismos mais sutis da natureza, não...

Não, quando amores preferem partir
e vão se deixando ficar confortavelmente.

Sem respostas, como ansiamos
que não houvessem perguntas!

Nos tornamos assim o velho fantasma da ópera,
toccata e fugue in D minor, Bach, especialistas
em pequenos espaços, em quase instantâneos
de descanso, jamais cansados, dissimulando
apenas o mais exasperante vício de ficar só.

Só, para vasculhar baús de dores,
antes amores que tiveram suas chances,
que vestiram véus sem prazer,
sem desejos, sem sentimentos,
véus mentirosos mesmo que jamais mentiram,
assim como é toda arte simulada por razões veladas...

Qual é a razão que a arte, nua, pode exigir?

Quantas vezes a arte se faz uma pessoa?
E quantas vezes essa pessoa poderá suportar
a nossa ânsia
de verdade, de véus
apenas para nos 'demasiar'
sem jamais sabermos por quê?

Por que a nudez se tornou este signo, este paradoxo do desejo,
esta dicotomia do vício,
isto obscuro, velado, misterioso e premente?

Por que João Gilberto que conhecia o segredo do sucesso,
se tornou o próprio véu, a própria arte,
sua própria vida
demasiadamente humana e original?

Por que Cat Power, em Sea of Love, é capaz
de apaixonar até quem não sabe o que está dizendo?

É a arte, ou a mulher, nua, que nos envolve,
ou é um produto social, perfeito,
ou justamente um defeito,
a coisa mesma,
nua, sem véus, sem instruções?

Precisamos saber o que diz a canção Karma Coma,
Trick & Massive Attack, para pensar -
"engraçado voce lembrar de mim nesse instante do texto"
- decidir -
preferir a arte pela arte, e não se toca mais no assunto?
"Que véu voce 'vesta?"

"O que voce prefere, a arte ou a mulher,
qual das duas nuas?" É o que tememos
em Fernanda Torres se nos despimos completamente?

E Holiday cantava apenas para nos advertir.

A arte dói,
a nudez nos corrói,
o véu é nossa mortalha,
a morfina é o mais falso amor
e sem este não conseguimos viver.
"Mas amor virtual não é um caso! Falei?"
§
Olha que a vida tão linda se perde em tristezas assim
Desce o teu rancho cantando essa tua esperança sem fim
Deixa que a tua certeza se faça do povo a canção
Pra que teu povo cantando teu canto
Ele não seja em vão
Eu vou levando a minha vida enfim
Cantando
e canto sim
E não cantava se não fosse assim
Levando pra quem me ouvir
Certezas e esperanças pra trocar
Por dores e tristezas que bem sei
Um dia ainda vão findar
Um dia que vem vindo
E que eu vivo pra cantar
Na avenida girando, estandarte na mão
Pra anunciar

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Coisas melhores do que beijos, agora

FOTO DO GATO NA CADEIRA DE ARQUIVO DO MEU FILHO

{todos estão convidados a jogar com as peças escuras, a partir do segundo lance cada partida não se envolverá em outra}

1º Lance = P4BD

Desde muito criança eu já pensava que psicologia é coisa de frescos e frescas, estou bem próximo dos cinquenta anos e ainda continuo achando estes tipos de pensamentos tolos.
Mas antes vamos lembrar um pouco, não há outro meio de satisfação na metáfora do que enfim enterrar passados.
Dinheiro só achei uma vez, era uma nota de dez em um tempo que eu refletia muito pouco, significava simplesmente que eu podia comprar dez veses uma coisa que custasse uma nota de um. A reflexão, até hoje, para mim, é um refinado estado de espírito que se reflete em qualquer parte do corpo.
Lembro da minha alegria, eu queria até que o mundo inteiro ficasse sabendo, e isso foi, certeza que também carrego até a morte, a razão de ter perdido aquela nota de dez, fato desagradavelmente requintado na memória, porque aconteceu no momento justo da prova que não devemos nunca dividir nossas alegrias, eu demorei tanto para gastar, talvez para manter o maior tempo possível meus 15 minutos de fama, quando comprei dez doces de dez sabores diferentes, na hora de pagar, o dinheiro havia sumido.
Na forma de lembrar o passado, na forma de sincronizar as lembranças, os fatos, este com aquele, uns com outros - sem se importar em conhecer a forma de construir a memória, nesta inconsciência também ignorada por capricho ou preguiça - percebi que sempre a motivação do talento inato fora corrompido.
Não importa o campo onde viesse atuar, na pintura, por exemplo, muito cedo, diz-se precocemente, depois daquele ensaio geral feito exercício muscular, no momento quando me vi capacitado a portanto criar um próprio gênero, alcançar minha linguagem pictórica essencial, caiu em minhas mãos, literalmente do céu porque em momento e lugar certo, numa revista de refinada qualidade gráfica, fotos de inúmeros quadros de Salvador Dalí.
Daí em diante, refleti de maneira sui generis que melhor faria para para a civilização, pelo menos do meu tempo, era não mais tentar, na pintura, desenvolver determinada linguagem, porque o objetivo fora alcançado e mais do que fêz o surrealismo, em Dalí, seria devaneio inócuo.
Na literatura, exclusivamente na ficção, ocorreu exatamente a mesma coisa. Devo ter exercitado-me por talvez uma década ou mais, então novamente no momento certo e lugar certo, enfim conheci Rubem Fonseca. Refleti e decidi, o melhor da ficção, daqui para frente será devaneio à toa.
Só em momentos de extrema necessidade, e quando as alternativas diminuem ao mínimo, uso banheiro público. Foi na segunda vez da Feira da Vila Madalena - muita gente, neste instante do texto, mastiga uma deliciosa saudade -, na padaria da esquina da rua Wisard com a Fradique Coutinho; feliz ou infelizmente, hoje vestida de prada.
Procurei desesperadamente pelo menos uma seda, não encontrei, ou melhor, só encontrei uma - guardem esta imagem como talentosa metáfora do devaneio. Então, alguém havia deixado cair, já toda pisoteada, uma pasta de papelão, com decalques e tudo na capa, que deveria servir às minhas necessidades extremas do momento.
Mesmo antes de abaixar a calça até as canelas, olhei o conteúdo da pasta, 14 páginas grampeadas xerocadas do conto O Cobrador, de Rubem Fonseca.
Quando eu sai daquele banheiro de todo imundo, ficção nenhuma, nada mais deveria escrever, se tivesse que fazer melhor.
E são inúmeras lembranças semelhantes; quis ser jogador de futebol, então assisti um jogo do Santos no Pacaembú, um gol do Pelé de bicicleta e tudo; quis ser bombeiro, acompanhei o incêndio in loco do edifício Joelma; também quis ser policial à paisana, para isso então, quis ser psicólogo, psiquiatra e filósofo, como mero exercício de telento antes de propriamente exercê-lo, e aconteceu a mesma coisa; a última coisa que quis, faz pouco tempo, era ser imortal, e ainda estou na fase dos exercícios de musculação, mas não é fácil com toda esta memória ainda sobre os ombros.
O pior de tudo, o que realmente corrompe meu talento, é saber que minha corrupção não serve para mais nada além das pessoas acharem que é frescura, e esta atitude de todos, sem excessão, se repete infinitamente mais do que o total de tudo que eu seja capaz de lembrar, o que talvez me motiva a achar pensamentos, iguais àquele do primeiro parágrafo. Por tudo isso, às vezes até tento refletir-me como um paciente, propriamente necessitado, de terapia psicológica.
Para finalizar este post, então, deixo com voces um fragmento, a parte final do "poema", daquela inexpugnavelmente sensação dentro do banheiro na Vila Madalena.

Hoje é dia 24 de dezembro, dia do baile de Natal ou Primeiro Grito de Carnaval. Ana Palindrômica saiu de casa e está morando comigo.
Meu ódio agora é diferente.
Tenho uma missão.
Sempre tive uma missão e não sabia. Agora sei.
Ana me ajudou a ver.
Sei que se todo fodido fizesse como eu o mundo seria melhor e mais justo.
Ana me ensinou a usar explosivos e acho que já estou preparado para essa mudança de escala.
Matar um por um é coisa mística e disso eu me libertei.
No Baile de Natal mataremos convencionalmente os que pudermos.
Será o meu último gesto romântico inconsequente.
Escolheremos para iniciar a nova fase os compristas nojentos de um super mercado da zona Sul.
Serão mortos por uma bomba de alto poder explosivo.

Adeus, meu facão, adeus, meu punhal, meu rifle, meu Colt Cobra, adeus, minha Magnum, hoje será o último dia em que voces serão usados.
Beijo o meu facão.
Explodirei as pessoas, adquirirei prestígio, não serei apenas o louco da Magnum.
Também não sairei mais pelo parque do Flamengo olhando as árvores, os troncos, a raiz, as folhas, a sombra, escolhendo a árvore que eu queria ter, que eu sempre quis ter, num pedaço de chão de terra batida. Eu as vi crescer no parque e me alegrava quando chovia e a terra se empapava de água, as folhas lavadas de chuva, o vento balançando os galhos, enquanto o carro dos canalhas passavam velozmente sem que eles olhassem para os lados.
Já não perco meu tempo com sonhos.

O mundo inteiro saberá quem é voce, quem somos nós, diz Ana.

Notícia: O governador vai se fantasiar de Papai Noel.
Notícia: Menos festejos e mais meditação, vamos purificar o coração.
Notícia: Não faltará cerveja. Não faltarão perus.
Notícia: Os festejos natalinos causarão este ano mais vítimas de trânsito e de agressões do que nos anos anteriores.
Polícia e hospitais preparam-se para as comemorações de Natal.
O cardeal na televisão: a festa de natal está deturpada, o seu sentido não é esse, essa história de Papai Noel é uma invenção infeliz.
o cardeal afirma que Papai Noel é um palhaço fictício.

Véspera de Natal é um bom dia para essa gente pagar o que deve, diz Ana.
O Papai Noel do baile eu mesmo quero matar com o facão, digo.

Leio para Ana o que escrevi, nosso manifesto de Natal para os jornais.
Nada de sair matando a esmo,
sem objetivo definido.
Eu não sabia o que queria,
não buscava um resultado prático,
meu ódio estava sendo desperdiçado.
Eu estava certo nos meus impulsos,
meu erro era não saber quem era o inimigo
e por que era inimigo.
Agora eu sei.
Ana me ensinou.
E meu exemplo deve ser seguido por outros,
só assim mudaremos o mundo.
É a síntese do nosso manifesto.

Ponho as armas numa mala.
Ana atira tão bem como eu, só não sabe manejar o facão, mas essa arma agora é absoleta.

Damos até logo a dona Clotilde.
Botamos a mala no carro.
Vamos ao baile de Natal.
Não faltara cerveja, nem pirus.
Nem sangue.
Fecha-se um ciclo da minha vida e abre-se outro.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Depois da Tempestade



ESCREVER TORTO POR LINHAS CERTAS

Por mais distantes que estejamos, não importando qual seja o motivo do alheamento do mundo - Internet, escolha própria, doença, ignorância, droga, presunção intelectual e mais todas as variações possíveis aos sete pecados capitais - creio eu, ainda assim temos que nos sustentar sobre universais estruturas de intersubjetividade: Verdade e Bondade para o que chamamos de sentido da espiritualidade, e Beleza e Amor para o que chamamos de sentido corporal.
De uma maneira ou outra, respeitando o tempo e lugar que vivemos, de acordo com o grau e talento que desenvolvemos, aquelas estruturas jamais podem ser omitidas.
Quando eu grito alucinado/desesperado contra Deus e o Ensino, é porque antevejo o resultado desastroso quando ocorrem tais omissões. E a única razão da minha desesperada alucinação é exatamente por saber que todo alheamento, fundamentalmente, é real; é produto da minha relação, física/espiritual, com os outros. Portanto, para dizer de maneira vulgar, não adianta nem morrer nem matar, porque qualquer gesto unilateral contra tal alienação será assimilado como mais distanciamento do mundo.
Neste instante do texto, todos, sem excessão, devem estar concluindo que a alucinação e o desespero atingiu estágio terminal, e que talvez nem mesmo um absurdo tratamento de choque elétrico ou químico possa recuperar-me para o bom convívio. A mesma conclusão de Pilatos!!!
A mesma decisão de Pilatos: um desespero sereno, racional, porém extremamente covarde.
E é tão evidente que estou também atolado até o pescoço(!!!) nesta alienação implacável, que minha vontade, no instante anterior do texto, dois parágrafos atrás, foi esmurrar tão forte a ponto de estourar este monitor, ou, graças a Deus foi o que fiz, ir até a cozinha xeretar o que cheirava tão bem na cozinha.
O mais agradável da Vida, sem dúvidas, é saber, dentre tantos motivos contrários à própria, que voce, neste instante total(tempo/espaço), pensa em mim, da mesma forma como sempre estou pensando em voce, não importando qual seja o motivo(!) com nossa intersubjetividade plena.
Em outras palavras, poeticamente: dentro ou fora, da gente ou do mundo, estamos juntos.
Assim, perdoem-me se acaso vêem presunção em nosso devir, Deus e o Ensino não estão a pecar, quando aprendemos que um "beijo" pode superar qualquer suposto benefício dos choques.


domingo, 13 de setembro de 2009

Remendos e destruições sui gerneris


Salvem a internet
Ao tentar transformar este espaço em debates
eu deveria limitar-me aos dois campos
'inversamente opostos': Arte e Verdade

Preciso explicar, mas não sei a quem
se àqueles que querem a verdade sobre
aqueles que querem a arte pela arte ou
a estes que querem somente a subversão e.

Aos amantes gelados da verdade absoluta
que não enxergam a beleza e sua prática
explicar já seria prova 'cabal' de mentira...

Aos chapas quentes amantes do belo caos
que toda explicação é aceita ao acumulo
explicar seria uma 'conivência organizada'
ou mais sustinhos aos inocentes e esnobes

Claro que posso encontrar muitos na média
entre tais opostos de mesmo interesse posto
pela 'história' daqueles feios e mentirosos...

E mais claro ainda é saber que os muitos
se tornam tão poucos ou raros quando um debate
se amplia para entender qual é a prática estética
e a 'mais verdadeira' teoria da verdade, e por quê?

Entre acumulo de provas cheias ou vasias de sentido
eu poderia fazer uma incursão na História Geral e
'ensinar' sobre a origem dos conceitos Arte e Verdade...

Mas não vou cometer o pecado do criador dos pecados
e tentarei sobreviver à morte literal ou metafórica
nestes espaços onde arte e verdade ainda possuem
o mesmo sentido: equivalência entre eu e o cosmos.

sábado, 12 de setembro de 2009

Das inversões implacáveis



Tesão responsável

O que era irreal
tornou-se real, e
o que era excitante
é insípido

Os amigos
por quem nos preocupávamos
foram transformados
em sombras

As mulheres
uma vez tão divinas
as estrelas, as florestas, as vertentes
por que agora são tão monótonas e comuns?

As jovens
que levavam uma aura de infinidade
no presente dificilmente possuem
existências distinguíveis

Os quadros tão vazios...

E no que diz respeito aos livros
o que "existia" de tão misteriosamente
significante em Goethe
ou de tanto peso em James Mill?

Ao invés de tudo isso
mais repleto de deleite do que nunca é o trabalho
e mais completa e profunda a importância
dos deveres e bens comuns

&

Tesão irresponsável

Suponhamos três pessoas
nos dizerem sucessivamente:
"Espere!"
"Escute!"
"Olhe!"

Nossa consciência
é atirada em três atitudes
bastante diferentes
expectativa

Apesar de que nenhum objeto
definido
está diante dela
em qualquer dos três casos

Omitindo
diferentes atitudes corporais
reais
e omitindo as imagens
reverberativas das três palavras
que são obviamente diversas
(virtuais)

Provavelmente ninguém
negará a existência
de uma afecção residual
de um sentido de direção
do qual uma impressão está por surgir
embora nenhuma
impressão positiva
ainda se encontre ali

Entrementes
não temos nomes
para as psicoses em questão
além dos nomes
escuta, olha e espera

&

Tesão irrecusável

Cada um de nós
faz uma grande cisão do universo
em duas metades

E cada um tem quase todos
os interesses ligados
em uma das metades
mas todos nós traçamos
a linha divisória entre elas
num lugar diferente

Quando digo que todos nós
chamamos as duas metades
pelo mesmo nome
esses 'dois nomes' são
eu e não-eu respectivamente

Nenhuma mente pode
ter o mesmo interesse
no eu de seu vizinho
como no próprio

O eu do vizinho imerge
junto com todo o resto
das coisas numa massa estranha
contra a qual seu próprio eu
se coloca em realce surpreendente

Mesmo o verme esmagado
contrasta seu próprio 'ego sofredor'
com todo o universo restante
apesar de não ter nenhuma
concepção clara
seja de si mesmo
seja do que o universo possa ser

Ele é para mim uma mera parte
do mundo
para ele sou eu a mesma parte

Cada um de nós dicotomiza
o cosmos
num lugar diferente

(configurações livres)
(Princípios de Psicologia - William James
tradução de Pablo Rubén Mariconda - Abril editora)

§

Tesão recusável

No caleidoscópio
de cada ser
a cada experiência
voce vê o mundo

Não coisas
Não cores
Não palavras
Não números
Não nomes
Não significados
Não desejos

Não tem como saber
como 'sacudir'
para escolher
cada aparição

Se eu gosto assim
infeliz ou feliz
naturalmente
são "meus olhos"

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Esprit de finesse




O direito

Voce se olha
na forma mais tranquila, como se
em ambiente familiar, incluindo animais domésticos
e objetos resguardados com mais afetos

Voce se olha
então no espelho de sua morada
dividida ou não entre laços de sangue e ou interesses
que comporta, suporta e importa à tranquilidade

Voce se olha
todavia nos olhos da convivência
associada em igual medida na totalidade
de sua própria imagem refletida

Voce se olha
para estar inserido no roteiro
de um contexto mais ou menos escrito
nos resultados ou promessas dos atos e ideias

Voce se olha
se tal metade considerada permanece se não a mesma
pelo menos semelhante
ao seu próprio estado de tranquilidade

O avesso

Tenho vontade de morrer realmente
mas agora a poucos meses de meio século
já estou morto de vergonha virtualmente

Já é um bocado tarde
para confundir mortes ou até melancolias modernas
e vestir uma coleira de cão

Coloca-se animais na corrente
quando estes ainda são capazes de fugir
e sair pelo mundo mordendo as pessoas indiscriminadamente

Já faz tempo que Victor Hugo mostrou a cara
dos verdadeiros miseráveis, da função social das Genis e
dos algozes justiceiros que vem do céu

Meus dentes se enfraquecem, o faro se faz requinte
quando deveria desaparecer e meus pelos
não se eriçam mais contra quem rouba-me a comida

E o quanto mordia a mão de quem me servia
agora é solidão e dos uivos de outrora nem mesmo se ouvem miados
meu chamado das fêmeas distantes são lamurias

Até tentei voltar para a mais negra floresta
mas me perdi em cavernas suspeitas, os raios que me pediam atenção
hoje em dia me perseguem diversas vezes a cada lugar

O cão que recusei não me cabe nem em ofertas caprichosas
não presto nem para buscar chinelos, sequer implorando, nem balançando o rabo
consigo levar chutes ou findar em paz meu tempo à vista de todos

Em vão procurei culpados no inferno, na terra e no céu, sem parâmetros
tornei-me extinto da vez, não assusto nem sou mais herói da infância
desde quando descobri que virtual e real são a mesma merda
MÚSICA

Demais - Verônica Sabino
Foi um vento que passou
que te trouxe te levou
deixando no corpo
a marca do amor
que ficou no ar
ilusão no ar

A chuva que esse vento trás
faz com que eu me lembre mais
de todos os sonhos que a gente sonhou
planejou demais
demais

Bem que eu podia tentar te encontrar
mas um vento forte
que me afastou, te levou
te escondeu
longe demais

A chuva que esse vento trás
faz com que eu me lembre mais
de todos os sonhos que a gente sonhou
planejou demais
demais

E cada vento que soprar pode te fazer voltar
encher o vazio que ficou no ar
me marcou demais
me marcou demais

sábado, 5 de setembro de 2009

O pecado de ensinar


O pecado de ensinar por linhas tortas

Impulsos do instinto de multiplicação das espécies (sexo) foram caracterizados pela cultura (moral) na chegada ao mundo.
Proponho passar por cima das inúmeras variações que uma lista de escolhas de sentidos aos nomes e conceitos que acarreta cada contexto em particular:

A mãe satisfeita (instinto) por 'tudo' (moral) ter dado certo, aguarda o pai para receber o elogio (cultura) que merece (ética).

O pai espera (cultura) que o filho tenha a sua aparência (instinto).

A mãe sofre (cultura) quando o pai não aparece (moral), ou quando aparece e, olhando primeiramente para o órgão reprodutor (instinto) para constatar o sexo da criança (cultura).

Se é macho (cultura), na maioria das vezes, expressa orgulho (moral); se é fêmea (cultura), expressa, em todas as vezes, ternura ou covardia ( instinto).

A criança absorve estes primeiros momentos tão profundamente que talvez, os nomes e expressões não traduzidas/decifradas/descodificadas, entre parênteses/bordas, se confundirão e tudo! (moral) será aceito como natural da espécie; apesar de todo ensinamento(cultura) no decorrer da vida.

O pecado(moral) é um nome para um conjunto de normas que servem de alicerce para o conceito do nome cristianismo (cultura).

O ensino (ética) é um nome para representar a totalidade da experiência voluntária ou não (instinto).

§

Ontem uma frase pixada em um muro derruído
"Morte a todos os humanos"
Eu estava voltando para casa, ainda sob o efeito
daquela poderosa droga do meu post anterior

§

Ainda não enterraram o pequeno Bem, e isso é exemplar para conhecer o futuro da "cultura".
Graças a Deus, obscuras são as escolhas. Fôssemos incriados, já o tínhamos enterrado.

§

O que a experiência ensina? A Lei.
Como ter consciência imediata da Lei? A Liberdade.
O que fazer com Liberdade? Aprender sobre a Lei.
Como ter consciência do que se aprende? Exercer a Lei.

§

Diante da Lei

Diante da lei tem um guarda.
Um camponês apresenta-se diante deste guarda,
e solicita que lhe permita entrar na Lei.
Mas o guarda responde que por enquanto
não pode deixá-lo entrar.
O homem reflete, e pergunta
se mais tarde o deixarão entrar.
- É possível - disse o porteiro - mas não agora.

A porta que dá para a Lei está aberta,
como de costume;
quando o guarda se põe de lado,
o homem inclina-se para espiar.
O guarda vê isso, ri-se e lhe diz:
- Se tão grande é o teu desejo,
experimenta entrar apesar de minha proibição.
Mas lembra-te de que sou poderoso.
E sou somente o último dos guardas.
Entre salão e salão também existem guardas,
cada qual mais poderoso que o outro.
Já o terceiro guarda é tão terrível
que não posso suportar seu aspecto.

O camponês não havia previsto estas dificuldades;
a Lei deveria ser sempre acessível para todos,
pensa ele,
mas ao observar o guarda,
com seu abrigo de peles,
seu nariz grande e como de águia,
sua barba longa de tártaro, rala e negra,
resolve que lhe convém mais esperar.

O guarda dá-lhe um banquinho,
e permiti-lhe sentar-se a um lado da porta.
Ali espera dias e anos.
Tenta infinitas vezes entrar, e cansa o guarda com suas súplicas.
Com frequência o guarda mantém com ele breves palestras,
faz-lhe perguntas sobre seu país,
e sobre muitas poucas outras coisas;
mas são perguntas indiferentes, como a dos grande senhores,
e para terminar, sempre lhe repete
que ainda não pode deixá-lo entrar.

O homem, que se abasteceu de muitas coisas para a viagem,
sacrifica tudo, por mais valioso que seja,
para subornar o guarda.
Este aceita tudo, com efeito, mas lhe diz:
- Aceito-o para que não julgues que tenhas omitido algum esforço.

Franz Kafka - conto Diante da Lei, do livro A Colônia Penal

§

Se voce ficou com raiva porque dividi tal texto ao meio
experiencie o ritmo de 4 músicas em uma, nesta ordem
Whi So Serious/I'm Not a Hero/Agent of Chaos/A Dark Knight
de Hans Zimmer&James Newton Howard

E lembre, pense ou imagine uma situação
a partir de um sentimento estritamente pessoal
e pertinente ao post completo, se conseguir, então
páre de lembrar, de pensar e de imaginar
desligue o áudio e releia tudo bem lentamente

Compreendo as pessoas que não mais acreditam
na imortalidade
porque é possível, aliás muito claro, ofuscante até
que exista uma quarta pessoa do indicativo na experiência

Ou infinitas partes muito também pertinente a este post
que é possível traduzi-los/decifrá-los/descodificá-los/ como
uma suposta reencarnação sem o limite de 3 dias do Jesus Cristo
quando se tem sempre a oportunidade, rss, de fazer diferente a Vida.

§

Deus só se redimirá quando aceitar sua imperfeição
e começar a escrever errado por linhas retas!!!

Da realidade do corpo


Este olho quer voce para lançar, pelo menos, uma frase original(?)
e imortal, uma migalha aos olhos dos outros, voce vem?

COMENTÁRIO:
(do seu último post)
Anita, retire este chapéu...
É tão bom também ouvir músicas
cuja língua não posso compreender
Eu não sei do que está dizendo mas
posso sentir tão bem a síntese
E assim aprecio bem "sua" tese e
para tanto voce aprecia minha antítese
mas será que chegaremos um dia
a compor música tão gostosa quanto

Troubled Waters - Cat Power

SEMPRE É BOM LEMBRAR:

Aonde está a minha ilha virgem?
Vejo sinais mínimos nas gaivotas corajosas
que vivem como pombas em praia tomada pelos humanos.

Aonde está o meu continente sustentável?
Recebo notícias raras dos recônditos de universidades
que descobrem novas energias nas bostas das bactérias.

Aonde está o meu prazer inviolável?
Alcanço sua sutileza terminal nas imagens e letras
estupradas pelo cinismo como gesto tão natural.

Aonde está a minha dor existencial?
Ainda a recordo entre espasmos artificiais
para pagar qualquer tipo de visibilidade ao outro.

Aonde está a minha razão?
Imagino ainda gemendo após apedrejada na praça
para lavar a alma do povo de seus sonhos de luxúria.

ESCLARECENDO:
Tomei este poema como memória porque ele representou um divisor de águas em nossa relação virtual, Anita.
Não exatamente o poema, mas muito exclusivamente os nossos valores que temos "destes relacionamentos".
O ponto da fissão, o momento da bifurcação irreversível, o gênesis da transversal da razão para um suposto amor 'impossível', deu-se no seu comentário, quando voce boiou na palavra 'bactérias', pinçou-a da estrofe, do poema e do contexto 'histórico dos relacionamentos'.
Minha preta, eu jamais disse que nunca vou seguir o "caminhos dos ingleses", preste atenção no meu último post, não tire os olhos do 'olho do furacão', para sua segurança e longevidade, rss, porque se acaso não puder evitar, com toda a certeza, vai poder relaxar e gozar-se(!!!); a melhor forma de voar nas asas do sentimento.

Catástrofe natural?
Vamos temperar muito bem a nossa carne
tem pessoas que as come ainda viva, é emocionante
mas por motivos até notórios não consigo
e sou um miserável neste tempo pós-antropofágico

Já não se mata mais para roubar um beijo, fazem filas
porque a distribuição ficou por conta da alienação
amor virou excesso, obsessão ou permuta pela alma
e as pontes que construo levam ao ar rarefeito

Não corro mais pelo risco do suicídio por covardia
restou-me a morte como doação sublimada para nada
ou talvez a mais infame das liquidações: o amor
desacreditado porque se recusa a toda representação