segunda-feira, 28 de junho de 2010

Nem filósofo, nem escritor; tão somente sangrando

Diversas vezes, apenas a imagem do esforço
basta para suscitar algo que não justifica
toda forma de eternidade

PUREZA, ETERNIDADE E RAZÃO

"Somos imperfeitos, nosso corpo é frágil, a carne é mortal e corruptível. Mas, por isso mesmo, aspiramos a algo que não tenha essa desgraçada precariedade: a algum gênero de beleza que seja perfeita, a um conhecimento que valha para sempre e para todos, a princípios éticos que seja absolutos.
Ao erguer-se sobre as duas patas traseiras, este estranho animal abandona para sempre a felicidade zoológica e inaugura a infelicidade metafísica que resulta de sua dualidade: fome desmedida de eternidade e um corpo miserável e mortal.
Então começa as perguntas: existe algo eterno além deste mundo transitório e em perpétua mudança?
E se existe, como podemos alcançá-lo, mediante qual intermediário, graças a que fórmula mágica?
No ocidente, os gregos já se colocavam esse problema e encontraram a solução nas matemáticas. Claro: até as poderosas pirâmides faraônicas, erguidas com o sangue e as lágrimas de milhares de escravos, são apenas pálidos simulacros da eternidade, destruídas finalmente pelos furacões e as areias do deserto; mas a etérea pirâmide matemática que é seu modelo permanece imune aos poderes destrutivos do tempo. E se esta paisagem que temos diante de nossos olhares se apresenta com cores mutáveis, conforme a hora e o lugar de onde a contemplamos; se tudo o que entra por nosso sentidos é mutável e sujeito à discussão, está tingido por nossos estados de ânimos e deformado por nossas paixões, é relativo e radicalmente subjetivo; ao contrário, este teorema que demonstramos vale para todos, aqui na Grécia ou lá na Pérsia, faça-se sua demonstração em nossa língua ou qualquer outro idioma real ou inventado, estejamos possuídos pelo furor ou sejamos indiferentes a essa verdade ou a qualquer verdade.
Desde Pitágoras, os gregos observaram esse fato extraordinário, assombroso tão logo se pense um pouco, e concluíram naturalmente que a matemática indicava a rota secreta que, através da selva escura de nossas sensações, tendo por guia apenas a razão, com a única ajuda do pensamento puro, nos conduzia ao universo eterno da verdadeira realidade, a partir deste mundo confuso que suscitava o ceticismo de Heráclito.
Assim surgiu no povo helênico o prestígio do pensamento como instrumento do conhecimento e este divino prestígio perduraria no Ocidente ao longo de quase mil e quinhentos anos de guerras, invasões, derrocadas e devastações.
Até que filósofos que parecem fazer literatura e escritores que parecem filosofar o negaram."
(Ernesto Sabato, O escritor e seus fantasmas, Companhia das Letras)


Existo, e este termo está ficando cada vez mais "caro"

Existe muita diferença
entre o peito estufado
coração no bolso
com o peito aberto
coração na mão
continuar seguindo
e sangrando

Existe verdadeiras dores
diferenças dessa vida
para continuar escrevendo
apesar da língua suja
grave e embargada
pelo dito não dito

Existe e sabemos
existe eternamente
precisa existir qualquer coisa
e quando somos qualquer dessas coisas
queremos mais, ou menos
ou deixamos tudo como está
ou, claro, eu, já estou pensando
na próxima "derrota";
a nestes dias foi "só"
a morte de minha mãe

E então de repente ficou tão desnecessário, muito mais do que antes, escrever versos ou em versos, seja qualquer coisa, ou coisa nenhuma, de qualquer jeito, ou de jeito nenhum, ficou ainda mais sem qualquer importância existir, viver ou morrer, já que isso, ser ou nada, tornou-se quase o mesmo inexequível orgasmo da existência.
Ela amava o Gonzagão, amava o filho, e toda vez que perguntávamos qual era a música mais bonita do mundo, ela respondia Asa Branca, e a música mais bonita da vida, ela respondia 'aquela do filho do Luis Gonzaga, aquele que dizia que tava sangrando..." Ela adorava também a Elis, e via seu sofrimento, mas nunca soube explicar, e nós insistíamos, mãe qual é o sofrimento dela?, e respondia que como podia saber?, nunca tive estudos, se voces não sabem... Nós insistíamos, tenta explicar, ela tentava, dizia que a Elis sofre assim como voces, e nós calávamos, porque tudo sempre se tornava tão "sem sentido".
Ela amava o Rolando Boldrin, a pujança da Inezita Barroso, a coragem e safadeza da Dercy Gonsalves, sempre foi apaixonada pelos Irmãos Coragem, não entendia como podíamos gostar da Saramandaia, e ria com o jeito tão esperto do José Wilquer, a Regina Duarte e a Glória Menezes eram o maior exemplo de mulheres bonitas.
Jamais esqueceu os filmes do Mazaropi, bastava poder contar alguns que já ficava alegre e, nunca sabíamos porque, sempre, acabava lembrando do Lampião, que certa vez passou lá no lugar onde crescia, quando ainda criança, morreu de medo, e depois perdeu o medo assim que teve um mínimo de noção política.
Lembro que alguns dias antes de começar perder a lucidez, disse-me que precisaríamos, eu e ela, arranjar um tempinho para contar sua vida.
Lembro, nestes mais ou menos trinta sessenta dias, muita coisa, muitos projetos e sonhos.
Queria enfim ter um carrinho próprio para poder visitar os sobrinhos em Jundiaí, o irmão em Marília, a Vilma e a Beth, aqui mesmo na capital, na hora que desse na telha, que podia rever o mar, pela segunda vez, e ir até o supermecado a qualquer hora, não acreditava que tinha supermecado aberto de madrugada.
Eu sou difícil para chorar, mas preciso parar de lembrar escrevendo, essa coisa é muito real e essa realidade está cada vez mais foda.

4 comentários:

Lara Amaral disse...

Chorei com esta prosa, nossa, como as lembranças arrebatam a gente...

Devir disse...

Agradeço intensamente, Lara Amaral.
Nossa seriedade, mesmo eternamente voluntária a viver sempre em série, não sofre "nadica de nada", talvez muito pelo contrário, a cada encontro é realmente um orgasmo. Eu cai da cama, agora a pouco, e sorrindo, como lhe disse lá em seu encanto teatral, porque sempre será a melhor opção, diante de tão divina comédia.
Variando pela incredulidade de Dante, exibindo o traseiro do Candido de Voltaire, supurando toda potência de Schoppenhauer, desmascarando Édipo e, claro, lambendo com glória as feridas de Cristo, eu participei vigorosamente, como pude, o velório de minha mãe, até os últimos instantes.
Por ela e para mim, tudo esteve em seu lugar, e então voltamos cada um para nossas moradias, nossas formas de ser sempre a muito custo conquistadas. Acredito por minha vida, que ninguém, pelo menos por longos momentos, deteve qualquer mal estar, porque realmente, minha mãe sempre fez por merecer tal paz.
E, novamente, agradeço muito o seu comentário, sinta-se, neste instante, abraçada profundamente, e adoraria ter meu pescoço e ombros lavados com tão delicioso sal.

Isis disse...

Primeira vez que um texto seu me arranca lágrimas.

Eu sinto muito, imensamente.

Devir disse...

porra, e me faz chorar novamente

espera, vou colocar uma música
que não consigo ainda ouvir inteira

pelo amor de Deus
não vê que isso é pecado
desprezar quem lhe quer bem
não vê que Deus até fica zangado vendo alguém
abandonado
pelo amor de Deus

ao nosso senhor
pergunte se ele produziu nas trevas
o esplendor
se tudo foi criado
o macho, a fêmea, o bicho, a flor
criado pra adorar o criador
e se o criador
inventou a criatura, por favor
se do barro fez alguém com tanto amor
para amar Nosso Senhor

não, nosso senhor
não há de ter lançado em movimento
terra e céu
estrelas percorrendo o firmamento em carrossel
pra circular em torno ao criador
ou será que o Deus que criou nosso desejo
é tão cruel
mostra os vales onde jorra o leite, o mel
e esses vales são de Deus

Cantada pela Maria Rita
Sobre Todas As Coisas
Composição: Edu Lobo / Chico Buarque

A música Sangrando, do Gonzaguinha
não consegui no dia da morte e muito menos durante o velório

Foi muitas fodas as situações que por muito pouco não surtei, a pior foi na hora que ajudei o chofer do carro cinza a colocar o caixão dentro do carro quase que chutei toda a lataria, como se a culpa fosse do carro que a levaria embora

eu nunca tinha sentido dor tão puta que o pariu
perdão, perdão a todos que lerem este comentário

mas está estou bem agora
depois falamos mais
volta logo, não demora