domingo, 20 de junho de 2010

Nenhum preço é transparente

A vida é uma doença
sexualmente transmissível,
que tem cem por cento de taxa de mortalidade
(R. D. Laing)

Talvez se eu aproveitasse minha experiência de vida para escrever contos de fadas originais, não me faltasse, nestes dias atormentados pelo por do sol da vida de minha mãe, um liquidificador para preparar melhor sua dieta alimentar.
Tão logo, meus amigos e parentes, vão questionar e encontrar razões lógicas para o fato do liquidificador estar quebrado.
Com toda certeza nenhum deles quererão saber por que de fato o liquidificador está quebrado, e se eu lhes perguntar, por exemplo: Querem saber...? Com toda certeza, matematicamente é óbvio, nenhum deles vão sequer disfarçar que não ouviram a pergunta.
E, muita atenção nesse detalhe, se eu comprar um liquidificador novo, todos vão me chamar de marajá, de bacana, ou inquirirão: Vejo que está sobrando?
A vida é mesmo um teatro. Felizmente a peça possui inúmeras variantes, o suficiente para qualquer pessoa não morrer de tédio.
Enquanto isso, o verdadeiro problema da minha vida, com ou sem criatividade genial, não é tão somente a falta do liquidificador, e muito menos o por do sol da vida minha mãe. Mas não sei se devo escrever aqui, ou se devo escrever codificado em poesia, conto, crônica, etc, enfim, expressar-me em qualquer gênero, e tampouco sei se quero ser escritor, pensador, artista, ou qualquer coisa especialmente identificável, porque na experiência todo ser não passa mesmo de uma quimera, principalmente nos tempos de hoje, é difícil acreditar que alguém consiga superar o monstro imaginário que somos.
Fadas e elfos, no mundo imaginado, e pessoas inexoravelmente comuns na experiência mais particular. Talvez possa haver ainda um terceiro campo de atuação inerente ao ser, um lugar muito íntimo, tão pessoal e solitário, que mesmo transparecendo sutilmente em pequenos desequilíbrios afetivos, jamais poderemos, por natureza, ter certeza que exista. Sequer sabemos se este canto recluso de cada si mesmo é natural ou simplesmente mais uma neurose, ou facetas multimercadológicas.

9 comentários:

Lara Amaral disse...

É vero, teatro da vida...

Devir disse...

Então, Lara, se é teatro, é mais do que diversão à toa, existem atores, existe produção e diretores, e, acima de tudo, existe platéia. E ainda mais, existe o objetivo dessa coisa, onde todos estão envolvidos, participantes ativos e passivos, meu amor. Meu Deus, eu não estou variando das idéias!!!
Por que ficar em prantos, (?) rss, molhando-se toda(o) debaixo dos lençois, sozinha(o), ou mesmo acompanhada(o), apenas?
Não, não basta apenas o amor, amar, gozar ou sofrer em particularidades.
Não há como escapar das políticas, seja ela do corpo ou da sociedade, presentes ou históricas.
Não há reputação ou atuação, passiva ou ativa, que não esteja comprometida com o destino da humanidade em igual valor, no lugar mais importante que é o íntimo de cada ser; cada vez mais relegado à irrelevância ou aniquilamento total.
Aqui ou em qualquer lugar do planeta, seja em dimensão virtual ou concreta, ser se tornou questão de emergência. O ser jamais esteve tão intimamente ligado ao ser do planeta; nem é preciso atentar aos noticiários para sentir uma quase insondável aproximação do desastre.
Chega dessa frivolidade de bancar ora o caçador ora a caça; parasitismos, mimetismos e romantismos, no reino do animal racional, enfim perderam-se as máscaras.
Não quero dizer jamais com isso que voltamos ao princípio irracional, mas que é hora de superar a natureza, então sem sucumbir ao automatismo, e é onde expresso todo meu orgulho de ser brasileiro; que predoem-me as outras nacionalidades.

Devir disse...

Pensando bem, ou simplesmente pensando - logo que sinto que esta madrugada promete ser (talvez) as piores horas vividas, em todas as minhas 'solidões' bem o mal inventadas -, Lara, quero agradecer a toda a inspiração que voce proporcionou, ao compartilhar comigo esta incrível veracidade jamais esperada.
Foi-me uma honra tão bela foto e nome. Seja muito feliz.
Chega de saudade de um futuro que me foge cruelmente, e um grande beijo se faça como minha última vontade de potência.
(Se acaso, contudo, eu sobreviver, sem mais nem menos volto, gatinha)
(pera, minha chamou, gritou)
(oh, pera mais um pouco)
(ok, mó peguei, rss, gíria daqui)
Levei-a até o banheiro, necessidades, ligar chuveiro,etc e fiz ainda um mingal de cereais.
Cantando aquela música do Martinho, "já tive mulheres...", acho que sou foda, e graças a Deus, ou a voce, por que não?, todo aquele mal pressentimento, por enquanto se afastou, então... um forte beijo.

ps., perdoe-me esta transparência tão radical, rss e o aluguel, claro, mas acredito que Deus É realmente onipotente.

Devir disse...

Ah, perdoe-me todas as suas amizades, mas é foda mesmo, e quem não sabe, né?

Valéria Sorohan disse...

Se não acreditar em algo…se confunde nas ideias, pensamentos… enlouquece mesmo… tem que acreditar que acredita em algo!

BeijooO*

Devir disse...

Rss, grande visita, justamente quando encontro um tempinho sagrado para sonhar, e claro, fumar meu primeiro cigarro do dia.
Acreditar que acredito, embora original, como interlocução, talvez seja meu grande mal, dentre tantos porque sou humano, demasiadamente.
É notório mesmo o quanto nos falta a crença no valor que as crenças nos proporciona, neste milênio tão nenem.
Ainda há pouco, no escuro de meus parcos neurônios, atormetava-me o saudoso Fernando Pessoa: "O poeta é um fingidor..."
Acordei assim, como sempre venho acordando nestes últimos tempos, em renovação constante, exatamente como salientei outro dia, nunca fomos tão fieis ao devir de Heráclito, e nisto, voce, Valéria, está inclusa, já, mais que sempre.
Então, meu café nessa aparição tão saborosa, um grande dizer, meio poético, meio como a máfia italiana: mi casa, su casa!

Beijo, na mesma intensidade

Luciano Fraga disse...

Caro amigo Devir,pode até parecer uma desesperança, mas sei que não é, entendo estas necessidades e que só a escrita(vazão) pode proporcionar em certos instantes, mas voltamos àquela velha história de somos aquilo que inventamos para nós, cercados de frivolidades por todos os lados.É assim..."Milhares de camundongos continuam a roer o queijo invisível...", o resto parce-me puro adorno, grande abraço.

Devir disse...

Existe um nome, Theodor Adorno, que combateu bravamente esses queijos invisíveis, mas aconteceu o que tinha que acontecer quando se trata de uma disseminação ideológica para formar ratos, entenda a lei de Gerson, claramente proposta pelos "gatos e gatas"; entenda pró padrão de beleza televisiva e quejandos, entenda a primeira impressão é o que vale.

Abraço

Devir disse...

"O homem nem sonha que, não tendo ainda sequer começado a recrutar os tripulantes, já leva atrás de si a futura encarregada das baldeações e outros asseios, também é deste modo que o destino costuma comportar-se connosco, já está mesmo atrás de nós, já estendeu a mão para tocar-nos o ombro, e nós ainda vamos a murmurar, Acabou-se, não há mais que ver, é tudo igual."(Wikipédia)
Saramago!!!